segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ALINHAVAR PALAVRAS





É um equívoco do qual não me livro, embora nada tenha feito para merecer sobre os ombros a cruz que carrego. Comecei a escrever sobre livros nos Cadernos do Alinhavar, salvo erro por sugestão do Ricardo Aurélio à Sílvia Alves e ao Paulo Kellerman. Eram textos brevíssimos e despretensiosos, reproduziam em meia dúzia de palavras uma impressão que podia ser partilhada à mesa de um café. Transportei o conceito para o meu primeiro weblog em 2003. Desde então, comecei a receber comentários, e-mails, sugestões, convites. Autores pediam-me o endereço postal para me enviarem os seus livros. Confesso que 99% dos livros que me foram chegando por esta via eram-me absolutamente dispensáveis. No entanto, por simpatia e cordialidade nunca disse que não. Foi um erro do qual me arrependo. Deveria ter dito sempre que não, assim evitaria aquele sentimento recorrente de estar com uma opinião em falta acerca do livro de fulano ou de sicrano. Esta actividade gerou um equívoco lamentável, alguns leitores chamavam de críticas literárias aos textos que eu escrevia sobre as minhas leituras. Os meus textos nunca são sobre os livros que leio, são antes sobre as leituras que faço. Meras impressões, puramente subjectivas e infundamentadas, saídas sem reflexão, nem preocupação. Passei a ser crítico, tendência que realmente sempre patenteei, mas, pior e insuportavelmente, crítico literário. Ora, eu desprezo tudo o que é crítica literária. Sempre desprezei. Tenho uma opinião deveras negativa das academias, dos cânones, da presunção de uma relação profunda com os livros e dessa coisa a que alguns chamam de leitura atenta. Gosto de ser desatento nas minhas leituras e adoro quando as mesmas me desatentam. Não tenho a pretensão de saber ler e interpretar um texto melhor do que os outros, logo não me arrogo no direito, muito menos no dever pago, de negociar essa minha suposta superioridade intelectual. Devo ter ido a uma ou duas conferências literárias em toda a minha vida, nunca pus os pés em debates e mesas redondas a não ser para evocar os espíritos dos mortos e se fui a meia dúzia de apresentações de livros foi porque metade era eu a apresentá-los e a outra metade era eu o autor (escapam-me, obviamente, as excepções). De crítico literário tenho tanto como a minha avó tinha de santa. E os textos que escrevo sobre as minhas leituras estão longe de configurar sequer o papel de uma mera recensão. Por causa destes equívocos já muito tive que aturar, sobretudo de rapazes novos empenhados nas suas carreiras literárias com uma seriedade em tudo o que fazem e escrevem que espero não reproduzam na cama. Para bem deles e de quem com eles verter águas sobre os lençóis. Não vou deixar de escrever sobre as minhas leituras com o mesmo espírito de sempre: dizer à janela desta casa, a quem passa e a quem venha, o que senti ao folhear esta e aquela constelação de palavras. Quem quiser pode continuar a chamar crítica literária a isso, mas pelo menos fique ciente de que desprezo o conceito e evito o termo.

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