domingo, 27 de novembro de 2011

EPISTEMOLOGIA DAS EMOÇÕES




Nas Breves Notas Sobre Ciência (Relógio d’Água, Abril de 2006), primeiro volume da série Enciclopédia, Gonçalo M. Tavares aflora o problema da utilidade em algumas entradas. Tomemos de exemplo esta, intitulada Desenho e Ciência: «Tudo o que não podes desenhar são abstracções. Tudo o que não podes desenhar é inútil. (Mas como desenhar estas duas frases? Será inútil dizer que quase tudo é inútil? Eis um problema.)» O problema levantado não nos permite determinar o que não seja inútil. A questão, tal como está formulada, apenas nos leva a supor a existência de algo que não seja inútil. O que será isso, então, que poderemos considerar útil? A resposta parece residir na segunda proposição do problema: «Tudo o que não podes desenhar é inútil». Seguindo a lógica clássica torna-se legítimo pressupor que a negação desta proposição fornece uma resposta plausível à nossa dúvida, ou seja, tudo o que podemos desenhar é útil. Neste sentido, e porque nos é difícil encontrar algo que não possa ser desenhado: tudo é útil, inclusive o inútil. A utilidade do inútil reconhece-se nos extremos das coisas, nos seus fundamentos e nos seus fins. Digo coisas em sentido lato e vulgar, como quem diz tudo. A utilidade do ar que respiramos, reproduzível em contornos diversos sobre formas díspares, parece ser a mesma das palavras com que escrevemos a palavra ar, pois as palavras são os desenhos por excelência das coisas. Podemos, no entanto, perguntar: assim como não sobreviveríamos sem ar, conseguiríamos viver sem palavras? As árvores precisam de palavras para viverem? De que necessitam os seres vivos para estarem vivos? Nenhum desenho poderá reproduzir melhor a palavra amor do que a palavra amor. Também por isso é significativo que, mais à frente, Gonçalo M. Tavares nos provoque com o seguinte silogismo: «A metodologia útil é um martelo. / A ciência utiliza o martelo. / A arte utiliza a ciência. / (E o amor pode inutilizar tudo.)» Da mesma forma poderíamos afirmar: a metodologia útil é o amor; a vida utiliza o amor; a poesia utiliza a vida; e a ciência pode inutilizar tudo. O problema que se nos coloca parece trazer implícito no velho (e aparentemente insanável) conflito entre os domínios da razão e da emoção. Hoje, mais do que nunca, no interior de uma era alicerçada na técnica, importa reconhecer os papéis desempenhados pela ciência e pela poesia ao longo do desenvolvimento da humanidade. À segunda reconhecemos uma dinâmica criadora sintetizada na palavra amor, é a dinâmica da respiração. Nenhum homem existiria sem a acção do amor. À ciência associamos mais facilmente a castração da humanidade, desde logo a partir da subjugação do pensamento a um método delimitador do campo de acção do conhecimento. Ainda que seja inquestionável o papel transformador e progressista da actividade científica, não pode deixar de nos inquietar o caminho que nos foi abrindo, na direcção de uma alienação colectiva cuja fé reside na propagação de paradigmas que o tempo vai renovando à medida que novos instrumentos nos permitem desbravar os terrenos da realidade. As famosas verdades científicas não passam, pois então, de mentiras transitórias em que a maioria acredita a bem de uma utilidade organizativa e orientadora do homem no caos da realidade. A verdade será bem diferente, a verdade é desse amor que pode inutilizar tudo, no sentido de tornar útil o inútil. De certo modo, era isto que os cínicos defendiam quando acusavam a artificialidade das leis e defendiam tudo o que fosse natural. A lei dos cínicos era a poesia transformada em ciência, numa espécie de anarquismo comunitário que não estaria longe do modo de vida levado a cabo por algumas tribos indígenas que nos sobram enquanto vestígios de uma liberdade reprimida pela ciência, primeiro, e pela técnica, depois. O que parece estar na origem de tudo isto é o medo do homem perante o seu próprio corpo, o receio induzido por limitações naturais que nenhuma ciência resolve e a poesia apenas pode cantar/desenhar. Mas quando a conclusão é a mais universal de todas - esse termo a que chamamos morte - o que pode a ciência ao pé dos desenhos da poesia?

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