sexta-feira, 4 de novembro de 2011

I SEE A DARKNESS





O nome de Johnny Cash sugere-me uma imagem e uma palavra. A imagem, talvez demasiado tipificada, é a de um homem a tocar guitarra dentro de uma cela. Vem dos filmes de cowboys, certamente. Um contraste que me marcou para a vida. Enclausurado, o homem tem a tiracolo o objecto da libertação. Todo o acto criativo se resume nessa imagem, a de alguém que busca uma liberdade refém da situação ontológica mais definidora do ser-se humano. Todos nós somos reclusos entre as quatro paredes das memórias, dos medos, dos deveres, dos traumas que nos formam e nos transformam ao longo da vida. A imagem do homem atrás das grades é, em última instância, a imagem de um coração dentro de um corpo. Eis a palavra inspirada pelo nome de Johnny Cash: coração. Onde alguns vêem alma eu vejo coração, por isso prefiro dizer que o homem canta com o coração a dizer que canta com a alma. A alma não sei o que é, mas o coração sinto-o, é algo a bombear o ânimo que nos mete de pé, ora freneticamente, ora em baixa tensão. A novela gráfica de Reinhard Kleist (Self Made Hero, 2009) oferece-me essa imagem e a palavra a duas cores, as mais nobres das cores. O vermelho do apelido que aparece estampado na capa é como o sangue disparado pelo músculo vital. Atrás dos ferros, os dedos do homem percorrem as cordas da guitarra como animais acossados. Cash, é reconhecido, tinha dedos lentos, um espírito de pedras rolantes na melancolia do campo. Foi iluminado pela lua quando, certa noite, penetrou as paredes frias e grossas da prisão com as suas melodias. Uma voz fechada nas pedras que a memória nos coloca sobre os ombros a toda a hora. Kleist empresta-lhe alguma chuva, conta-nos a infância, as ambíguas relações familiares, os rumos traçados que foram sendo desviados pela força da paixão. Em certos momentos, comove-nos como antes nos comoveram as aventuras de Tom Sawyer ladeando descalço o seu próprio reflexo nas águas do rio. Um homem que canta atrás das grades não foge. De certo modo, disso nos convence a medicina poética: ele já está livro. Logo, não precisa de fugir. Fosse essa a sua intenção escavaria túneis em silêncio. Ele canta para abrir as portas do corpo ao coração, para que a tempestade interior amaine nas paredes do silêncio. Ele canta como alguém que se encontra só, montado no seu cavalo, entre as brumas da floresta. Há uma expressividade naquelas rugas do rosto que nenhum tribunal pode tratar com as suas condenações. A sentença foi ditada há muito, foi ditada por uma inquietude que as olheiras não disfarçam. Penetrando agora as artérias do músculo vital, como alguém que entra a esmo numa gruta sem rede nem orientação, o homem pode dizer que viu a luz dentro da escuridão. E por isso canta atrás das grades, olhando de soslaio o passado que vibra a cada nota, a cada acorde, a cada som gotejado pela guitarra.

1 comentário:

Pedro Góis Nogueira disse...
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