domingo, 20 de novembro de 2011

TRÂNSITO




Há 37 anos nos arquivos, como o arquivista de Schuiten & Peeters, também eu fui desacreditado pelos pares. Não tive que elaborar nenhum relatório sobre cidades obscuras, bastou-me ter singrado os mares de Calvino no encalço d’As Cidades Invisíveis. Os realistas chamarão delírios a esta tendência para atribuir à imaginação um pouco mais do que as alegrias do entretém. É possível que não sonhem, que durmam sempre como pedras, que a humidade não lhes suba à cabeça quando, em sonhos, são enrolados pelas musas. Eu fui há muito assaltado pelos delírios da imaginação, andei aos trambolhões em ruelas sinistras, cruzei-me com monstros nas avenidas mais improváveis e, por vezes, dei de caras com Deus nas esquinas do pânico. Já rezei, porque a todos a fraqueza provocada pelo desespero inspira certos cuidados. Mas nunca bebi águas santas, prefiro as turvas do inferno, colhidas nos vinhais alentejanos e pisadas pela devoção dos homens. Digo que fui desacreditado por ter de carregar às costas este peso de mim próprio. A verdade é esta: só fui verdadeiramente feliz quando me perdi... e sempre que me perdi senti uma necessidade inexplicável de voltar a encontrar o caminho. A vida deve ser um pouco esse labirinto do Minotauro. Quando nos topamos sem mapas nem indicações, desprovidos de bússolas ou guias, sentimos um certo alívio, mas rapidamente esse alívio se transformará em necessidade. E aí, nesse ponto, meus caros, somos todos mais parecidos uns com os outros do que Castor com Pólux. As minhas cidades obscuras têm todas nomes facilmente identificáveis, o meu Outro Mundo é este Mundo Outro onde Mário Sá-Carneiro não aguentou as suas lamentáveis crises. Rio Maior, por exemplo, com Ruy Belo no outro lado da rua a caminho da Feira das Cebolas. Tornou-se com o tempo uma cidade obscura, irreconhecível, decantada pela ruína dos locais onde passei uma infância de sonho e atravessei uma adolescência de pesadelo. Hoje, quando penso na fonte, não me vêm à memória as águas límpidas das Três Bicas nem os campos cultivados do Açude onde fumei barba de milho, cacei pardais e comi nozes roubadas à beira do rio. Apenas musgo e lodo onde os pés da memória resvalam para poços sem fundo. O que se perdeu não volta mais. Há-de isso ficar no meu relatório, assim ele me seja solicitado. Lisboa, a capital onde fui encontrar as mais tremendas desilusões. Compreenda-se, quem vem da província e chega à capital não espera encontrar a mesma monotonia, o mesmo Conselho fiscal de párias emproados, a mesma agonia de náufragos que O’Neill soube recriar melhor do que ninguém. Vim embora sem saudades e encalhei em Caldas da Rainha, onde há onze anos venho documentando o tempo sem grandes preocupações. Um salto a Sul, um salto a Norte, passeios comedidos, sempre com bilhete de ida e volta. Não seria sincero se não dissesse trazer no peito essa angústia de sempre ter que voltar. Tenho vários diários de viagem escritos entre o Cairo e Marraquexe, Dublin e Paris, Veneza e Roma, Praga e Budapeste, mas nenhum se pode comparar ao que trouxe de São Miguel e ao que fui escrevendo, ao longo dos anos, na Costa Vicentina. Além de São Martinho do Porto, que aqui tão perto se me mantém, por razões meramente sentimentais, numa semi-obscuridade indecifrável, são esses os meus lugares. E a Nazaré, claro, onde irei hoje matar saudades. Mas o que pretendo dizer com isto tudo é que os arquivos de um homem são os lugares que ele pisa, as paisagens bordam-nos a pele, condicionam a respiração. Schuiten & Peeters desenham esta relação na figura de um homem rodeado de documentos, livros, papéis. O Arquivista, no fundo, é a célula mãe a partir da qual o corpo se desenvolve e cresce para um fim universalmente reconhecível. A paisagem do arquivista, muralhas de estantes repletas de livros, é parte substancial da minha paisagem, mas está longe de delimitar o panorama inteiro. E esse pode até não prescindir do papel, mas só reclama solas para caminhar e um certo sentido da deslocação. Em suma: trânsito.

1 comentário:

Sandra R. disse...

"A verdade é esta: só fui verdadeiramente feliz quando me perdi... e sempre que me perdi senti uma necessidade inexplicável de voltar a encontrar o caminho." Parabéns e continuação de bom caminho, de boas viagens e de bons (re)encontros, se te perderes.