quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES # 34/35/36





Só o saber-te aí, meu bem, é suficiente para que me não perca pelo caminho − disse o viajante à sombra, já sem bússola nem mapa. Carregado de livros, foi caminhando com Homero às costas, a Utopia, Cândido, talvez, mas mais que todos Fernão Mendes Pinto (n. 1509?), o viajante dos viajantes portugueses que cedo fugiu em direcção ao Oriente na companhia de piratas, registando o que viveu e o que sonhou, relatando o que viu e o que imaginou na sua Peregrinação. Sobre a obra disse Óscar Lopes que algumas das suas histórias «equiparam-se a pequenas novelas, ou short stories, dignas de figurar numa antologia universal». Universal é a antologia dos esquecidos. Pelos dias que correm ninguém lê a Peregrinação. Estranho que em tempos de renovada diáspora assim seja, até porque essa coisa da actualidade é um pião em eterno rodopio. Já em pleno século XX, à entrada dos oitentas, Fausto resolveu começar a cantar o Fernão Mendes numa trilogia que agora, em 2011, se completa. Começou Por Este Rio Acima (gravado em 1982), dose dupla de ritmos populares festivos, entre a percussão de toque indiano, o remoinho de um fandango e baladas trágico-marítimas. Os dedilhados de Fausto, suportados por arranjos exigentes, não raras vezes inclinados para a sinfonia, despenteiam a cabeleira dos nervos, metem-nos a pensar nos versos, hiperbolizam-nos, se assim podemos dizer, fazem justiça à linguagem picaresca do inspirador. Como nas páginas do mestre, a vagabundagem é experiência de guerras e de saudade, territórios inóspitos atravessados pelo espanto dos aventureiros. Prosseguiu a festa com Crónicas da Terra Ardente (gravado em 1994). Ainda a nostalgia de quem olha o mar e pensa nos regressos sem partida que a vida foi fazendo seus. Navegantes sentindo, enfim, o vento no rosto, enquanto os mastros cortam os céus nevoeiro adentro e o desconhecido aparece com o rosto de uma esperança desconfiada. É a história dos náufragos, amantes amordaçados pela distância, paixões consoladas no berço das bestas, «um universo onde as multidões são inumeráveis e às vezes se massacram em tumultos». Aportamos, por fim, Em Busca das Montanhas Azuis. África é agora a terra pisada pelo peso de um mesmo sentimento: busca. Procuram os homens a riqueza, procuram sobreviver, procuram paz dando corda a guerras sangrentas, procuram o amor gerando ódio, procuram um como não deixar de procurar. Embalados pelas teclas do piano, procuramos nós a montanha onde repousar o espírito. A raiz mantém-se tradicional, mas os arranjos inflectem no sentido de uma modernidade que nos cabe sentir indígenas perante as primeiras caravelas. Literatura de viagens, música de viagens. No seu todo, esta trilogia mantém uma exigência que deve ser festejada, sobretudo nos reinados em que vivemos já não apenas guiados pelo carácter efémero dos sucessos imediatos, mas por uma angustiante superficialidade. Ao terceiro e derradeiro tomo, Fausto pede-nos maior atenção aos pormenores, põe-nos a ler a história com uma cartografia muito pessoal dos descobrimentos, recriada a partir de estóica pesquisa literária. Alguns ritmos africanos intrometem-se, inevitavelmente, mas de modo discreto, para fazer dançar o corpo enquanto a memória se abraça à imaginação e desenha cenários, paisagens, panorâmicas, ambientes ora acolhedores, ora adversos. A História dos povos contada a partir da História dos portugueses. Camões não se envergonharia.

1 comentário:

carol disse...

Gosto muito de ler os seus textos.

Obrigada