segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #37






Ainda que descrentes, por voluntária indiferença, não podemos negar a dimensão espiritual dos homens. Costumo dizer que o dia mais feliz da minha vida seria aquele em que aterrasse sobre a terra uma nave cheia de extraterrestres. Mantenho essa esperança, embora não faça disso religião. Presumo que possa ser dado o nome de fé a este tipo de sentimento, que, na realidade, não é bem um sentimento, fica algures entre a vontade, ou mesmo o desejo, e a nostalgia de um futuro improvável. Talvez utopia, uma outra forma de fé. Os Dead Can Dance são, desde há muito, a expressão desta fé no imo das minhas afinidades melómanas. Como é costume dizer-se, tenho tudo deles. Into the Labyrinth (1993) deve ter sido o primeiro CD, para trás fui coleccionando os vinis. Transportam-me para tempos imemoriais, com uma música de conversões insuspeitas onde o étnico se cruza com o clássico, a idade média com a tradição, a tecnologia e a pop de inclinações góticas com o sopro espectral de paisagens exóticas. O termo transportar não é aqui evocado ingenuamente. Como as águas de um rio, ou um vento de intensidade intermitente, a música dos Dead Can Dance tem essa capacidade de nos fazer viajar no tempo e no espaço, colocando-nos em contacto com ritmos primitivos em paisagens actuais. Provavelmente inspirados por cultos esotéricos, sociedades secretas e tribos remotas, Brendan Perry e Lisa Gerrard (uma das grandes vozes femininas de sempre) recolheram-se em contemplativa criação e ofereceram-nos um monumento inclassificável neste álbum. Agora que a ele regresso, lembro-me de um poema de Rabindranath Tagore:

TU E EU

Tu enches os meus pensamentos
Dia após dia;
Saúdo-te na solidão
Fora do mundo;
Tu tomaste posse
Da minha vida e da minha morte.

Como o sol ao nascer
A minha alma contempla-te
Com um único olhar.
És como o alto céu,
Eu sou como o mar infinito
Com a lua cheia no meio;
Estás sempre em paz,
Eu estou sempre inquieto,
Embora no horizonte distante
Nos encontremos sempre
.


Rabindranath Tagore, in Poesia, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Junho de 2004, p. 142..

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