O Taranta era a figura mais indigente da aldeia de São Cristóvão. Trajava os mesmos trapos há décadas, nunca se lhe conhecera um ofício, passava os dias a folhear revistas e jornais na mesa mais refundida do Café Central. Raramente falava. Talvez por isso ninguém se lembrava de alguma vez o ter observado no meio de uma discussão, de um briga ou de um conflito. Ideologias não se lhe conheciam, muito menos partidos, clubes ou simpatias associativas. Era um homem reservado, daqueles de quem é costume dizer-se não fazerem mal a uma mosca. Ninguém se metesse com ele, jamais ele se meteria com alguém. Tinha uma característica particular: as peladas na cabeça. Não era propriamente careca, pelo menos de um modo equilibrado, lógico, simétrico, consistente. Simplesmente tinha algumas falhas de cabelo. Outra das suas características era um conhecimento ímpar sobre tudo o que tivesse que ver com gastronomia, nomeadamente sobre restaurantes e ementas. Ninguém compreendia como podia um indigente saber tudo sobre restaurantes e ementas. Se alguém falava do restaurante A Lareira, o Taranta podia meter-se na conversa e sugerir o Fondue que ali era servido como em mais lado algum. Quisessem saber onde se podia comer um bom bacalhau assado, logo o Taranta sugeriria o bacalhau do Retiro dos Amigos. Conhecia os restaurantes das redondezas como as suas próprias mãos, conhecia as especialidades de cada um desses restaurantes, em todos provara sopas, entradas, pratos principais e sobremesas. Os petiscos eram a especialidade do Taranta, o mais indigente dos habitantes da aldeia de São Cristóvão. Meu sogro, que o conheceu bem, afiança-me que um dia chegaram a colocá-lo em contacto com uns indivíduos que andavam a inventariar os melhores restaurantes da zona Oeste. O Taranta conhecia todos, conhecia inclusive alguns que mais ninguém conhecia ou pouquíssimas almas podiam dizer ter conhecido. Conhecia tascas em aldeias recônditas onde se podia comer a melhor caldeirada do país, conhecia esplanadas com vista para o mar que serviam marisco de primeira qualidade, conhecia o que não era suposto um indigente conhecer. Tanto conhecimento motivou comentários, desconfianças, intrigas, maledicência. Não obstante, o Taranta permaneceu sempre um homem reservado e só a uma pessoa ele revelou certo dia os seus segredos. Foi numa noite de Natal de 1999, dois anos antes de ter falecido. O Taranta desafiou o Zé Petinga, a quem falecera a mulher ainda não tinham passado duas semanas, a festejarem a consoada com um polvo à lagareiro na Taberna da Dona Ilda. Era ali, segundo o Taranta, que se servia o melhor polvo à lagareiro da região. E quem paga a conta? – perguntou o Zé Petinga. Dinheiro não é problema enquanto houver cabeça. – respondeu o Taranta. Assim foi. Ei-los que chegaram, sentaram-se, pediram uns rissóis de entrada e um queijinho de cabra, acompanhados por uma garrafa de vinho tinto das Gaeiras. Esperaram pelo polvo à lagareiro, que não tardou em ser servido com o calor que a noite reclamava. Lambuzaram o pão caseiro no azeite, levaram as batatas a murro à boca, deram cabo dos tentáculos como dois lordes em banquete aristocrático. E quem paga a conta? – perguntou o Zé Petinga. Dinheiro não é problema enquanto houver cabeça. – voltou a responder o Taranta. Com a travessa de polvo já quase devorada, o indigente levou a mão à cabeça, arrancou um tufo de cabelos, espalhou-os pelo que sobrava de polvo e batatas e chamou o empregado. Olhe lá – disse o Taranta ao empregado, apontando para a travessa com ar de nojo e indignação – isto é maneira de se trazer um prato à mesa? O empregado olhou para os cabelos, levantou a travessa, curvou-se e recurvou-se em pedidos de desculpa e disse que trazia de imediato outra travessa, tendo sido prontamente interrompido pela indignação do reclamante. Desculpe, mas agora já nem tenho vontade de comer. – disse. E o empregado, o menos que podia fazer pela clientela mal servida era deixar os homens saírem em paz oferecendo a desgostosa refeição. Assim foi, assim era… com o Taranta, a mais indigente das figuras da aldeia de São Cristóvão
1 comentários:
Enquanto houver cabeça e ... cabelos!
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