Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

O MEU PAI E EU

1. Sobre a Terra já se cometeram as maiores atrocidades humanas. No entanto, a erva continua a crescer e, com o passar dos anos, o sangue derramado desaparece como uma nódoa que a história não lembrará. O vale que agora observo foi palco das mais sangrentas batalhas. Nada nele faz pensar que ali uma mulher foi extorquida dos seus filhos, uma criança foi violada ou um homem torturado até à morte. Nada no vale nos faz sequer supor que tanta beleza só é possível acompanhada de uma dose proporcional de esquecimento.

2. Neste último ano desinteressei-me da poesia. Escrevi um poema e li pouquíssimos livros (se comparar com anos anteriores). Este facto deve-se a uma proximidade com os poetas que me é fatal. Para amar a poesia necessito distanciar-me dos poetas. Quanto mais próximo da insuportável vulgaridade dos poetas, menos a poesia me toca enquanto linguagem excepcional.

3. Alguns amigos não compreendem a minha aversão às cidades, chegam a dizer que é preconceito. São adeptos da vida urbana pelo que dizem trazer à mão: teatros, cinemas, bares, azáfama… Costumo comparar estas justificações com a do homem que manda instalar o MEO em casa para poder ter 600 canais, embora veja repetidamente os mesmos programas, distribuídos por um ou dois desses 600 canais. Tenho dentro de mim azáfama suficiente para prescindir da cidade. Se pudesse, viveria no deserto. E nem aí tenho fé de que poderia sentir-me em paz comigo e com o mundo.

4. Vejo-as passar em desengonçado equilíbrio sobre saltos altíssimos. Vão assim para o Centro Comercial, andam assim nas ruas da noite... Suponho que se descalcem quando chegam a casa. Pelo que vejo na televisão é bem provável que esteja enganado. Se calhar dormem de saltos altos nos pés para evitarem sonhos ínfimos, baixos, medíocres como a generalidade da vida real.

2 comentários:

maria disse...

Este texto fez-me pensar, sentir, sorrir enfim...acho que somos como as miúdas que calçam sapatos de saltos altos: sabermos elevar-nos, sabendo que é a mesma terra que todos pisamos. Logo...somos todos e somos um.

Cavalo de pau disse...

É-me agradável saber que alguém escreve com as palavras quase exactas com que sinto, podendo ser este um dos prazeres da leitura. Poupo assim na escrita do supor, essa conjectura do tornar real, esse supor que sente mais intensamente porque já pressupôs. Admiro e gosto, mas vou preferindo sentir presumindo, numa espécie de egoísmo calculista.
Abraços.