terça-feira, 6 de dezembro de 2011

XENÓCRATES & LAIS

Os discípulos de Xenócrates, a fim de pôr à prova a sua continência, meteram-lhe na cama Lais, a bela e formosa cortesã, completamente nua, …e ele, sentindo que, apesar dos seus discursos e da suas regras, o corpo, refractário, começava a revoltar-se, ordenou que lhe queimassem os membros que deram ouvidos à rebelião.


Montaigne, in Pequeno Vade-Mécum, Antígona, Março de 2004.



A poesia desenha-nos um mundo sem tempo nem espaço, é isso que a torna especial enquanto arte da palavra. No entanto, a universalidade do cantado esgota-se na peculiaridade da língua. Faço parte do clube daqueles que crêem na impossibilidade de traduzir um poema, preferindo o termo versão por remeter para uma nova musicalidade daquilo que o poema exprime. Podemos pensar a utilidade do inútil no campo desta batalha. O tradutor de poesia encontra-se num não-lugar, fora do tempo, sem coordenadas que lhe permitam trazer ao presente os ecos do passado. Fruto do seu tempo, o poema traduzido será contaminado, inevitavelmente, pelos ritmos de uma nova época. À época do poema podemos chamar língua. Imaginem por hipótese um poema escrito em inglês que é mudado, assim que foi escrito, para português. Esta mudança representa uma viagem no tempo, pois a época em que a língua inglesa se regista é de todo diferente da época em que a língua portuguesa se afirma. O lugar em que vivemos é o tempo em que nos construímos.

O problema faz-me pensar na relação absurda que a maioria das pessoas tem com a novidade. Para a maioria das pessoas a novidade garante-lhes uma actualização, como se fosse possível actualizar aquilo que nunca deixou de ser actual. A propósito de modas, Gilles Lipovetsky afirmava, em meados da década de 1980, algo que me parece indiscutível: «Com o individualismo moderno, o Novo encontra a sua plena consagração: por ocasião de cada moda, há um sentimento, por muito ténue que seja, de libertação subjectiva, de alforria dos hábitos passados. Com cada novidade, sacode-se uma inércia, corre uma aragem, fonte de descoberta, de posicionamento e de disponibilidade subjectiva» (in O Império do Efémero, p. 246). Porém, em tempos de ritmo vertiginoso, o novo rapidamente se faz velho. A máquina consumista que se instalou por detrás da novidade, anunciando-a como elemento imprescindível à nossa felicidade, senão à nossa sobrevivência, resgata o indivíduo da sua rede individualista, transformando-o em apenas mais um alvo de um público vasto e indistinguível.

Neste aspecto, o individualismo cede à tentação e transforma o indivíduo num clone social com comportamentos previsíveis e atitudes facilmente determináveis. Na linha da frente, as novidades são a ratoeira do consumidor previsível, tentam satisfazer-lhe uma voracidade ridícula, abrem-lhe o caminho para uma dissimulada vulgaridade. Ele não percebe, tão refém que está do que a imprensa lhe atira aos olhos. Em segunda linha, tudo o que tenha seis meses já não é novo. E um ano é velhice de armazém. Os produtos desactualizam-se com uma facilidade estonteante, os homens procuram acompanhar as novas tendências, estar in, responder às exigências da contemporaneidade. Curioso que seja um autor de armazém, um velho ressequido do século XVI, a lembrar-nos a armadilha em que caímos, tornando evidente a estupidificação das massas a partir dessa purga anunciada como novidade: «Um bom testemunho da fraqueza do nosso discernimento consiste no facto de ele recomendar coisas pela sua raridade ou novidade, ou ainda pela sua dificuldade, não associando estas à beleza e à utilidade» (Montaigne).

O parco discernimento dos homens facilita a educação da humanidade, cabendo à poesia, na medida das suas limitadas capacidades, deseducá-la. A poesia reduz o novo a pó, ao mesmo tempo que do pó gera rebentos de extrema vitalidade. Nesse não-lugar, sem tempo nem espaço, o conceito de novidade vale tanto como sapatos de salto alto em pleno deserto. Os prazos estendem-se para lá das medidas, acompanham a terra na sua expansão e os ventos na disseminação dos pólenes. A novidade, neste mundo sem tempo nem espaço, é a versão do universal, uma contínua regeneração do essencial, dos mesmos sentimentos, das mesmas angústias, dos mesmos medos, traumas, frustrações de sempre. Pode a língua transformar-se, sulcando na terra os vocábulos em ritmo e metodologia diversos. As mesmas raízes darão os mesmos frutos, apenas a assimilação do suco poderá ser diferente. Porque essa está dependente do maior ou menor discernimento dos indivíduos.

Sem comentários: