"Sempre estranhei o Rui. O seu discurso de agradecimento do Prémio Daniel Faria foi como ele era: "o Daniel Faria estará neste momento honrado por me ter como primeiro vencedor". Afastámo-nos naturalmente, dado o meu estranhamento da sua personalidade. Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi."
Esta foi a mensagem que o escritor, poeta, editor, cronista Jorge Reis-Sá achou por bem deixar no Facebook ontem, dia 20 de Janeiro, no dia em que a família e os amigos do Rui Costa lhe prestavam a homenagem devida. Por mais que viva, leia, respire, observe, sinta, jamais conseguirei compreender a cretinice que dá forma a este esterco de gente chamado Jorge Reis-Sá. Como ex-editor do Rui, o Reis-Sá podia ter ido ao funeral. Foi o que fizeram, entre outros e bons amigos, o Rui Manuel Amaral, a Margarida Vale de Gato, o Rui Lage, o André Sebastião, o António Pedro Ribeiro, a Sandra Cruz, a Patrícia Bettencourt... Podia ter mostrado algum pesar, como tantas pessoas fizeram questão de manifestar por essa teia de facebooks e blogs onde parece que vivemos cada vez mais esquecendo-nos de que “a rua é a casa de todos”. Não, preferiu ficar em casa a dar corda a pensamentos mesquinhos. O Jorge sempre estranhou o Rui, eu hei-de sempre estranhar o Jorge. O discurso supracitado foi, de facto, como ele era, um provocador nato, alguém que detestava os formalismos e o conservadorismo da cena literária e procurava romper com isso agindo, provocando, levando o riso a rostos onde só se vê seriedade, pedantismo e presunção. No dia 11 de Dezembro dizia-me o seguinte: «na universidade chamam-me provocador (os profs) /pk mandei umas bocas, pk akilo é elitista e conservador». Era assim o Rui Costa. Provavelmente o Jorge, ao ouvir “as bocas”, deve ter pensado que o Rui se julgava mais importante que o Daniel Faria, poeta que muito admirava. O Jorge é burro, não admira que tivesse pensado assim. Não lhe terá passado pela cabeça que fosse exactamente o contrário, o discurso de alguém que, acreditando na qualidade daquilo que fazia, preferia não se levar demasiado a sério e evitar a “importanticidade” da cena literária portuguesa? O Jorge afirma que se afastou naturalmente, por estranhar a personalidade do Rui. Pode um indivíduo ser editor de livros afastando-se dos escritores por lhes estranhar a personalidade? Meu Deus, há mundo com personalidades mais estranhas do que o mundo da literatura? O Jorge não tem categoria para vender sabonetes, quanto mais para ser editor de alguém. Só num país como o nosso é que se dá guarida a imbecis destes. Imaginem o que seria de Herberto Helder se tivesse apanhado editores como o Reis-Sá, editores que se afastam dos autores porque eles têm personalidades estranhas. No entanto, o editor, afastando-se da personalidade estranha do escritor, não quis afastar-se da personalidade estranha do tradutor. E assim o Rui Costa traduziu para as falidas Edições Quasi livros infantis: O Velhote de Lochnagar, Gordito e os Bombeiros, O que há de errado com o Tim? e Para onde corre a raça Humana? (Maio de 2007), O Snugal-Flijer bebé, Este e aquele em Splat! (Junho de 2007). Portanto, ao afastamento do escritor correspondeu uma aproximação ao tradutor. Mas se isto pouco importa, são águas passadas, o que sobra chega a ser desumano. Os lamentos do Reis-Sá são de uma insensibilidade inqualificável. Convém citar novamente, para que fique bem claro o nojo de gente com que estamos a lidar:
Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi.
E quais foram as causas da morte? O Jorge sabe? A polícia sabe? A família sabe? Os amigos sabem? É que eu ando há 15 dias a imaginar cenários e tudo me parece possível: um homem esbarra e cai ao rio, um homem é empurrado para um rio, um homem atira-se ao rio, um homem é atirado ao rio… Porque nenhum destes cenários está provado, cabe questionar o senhor Reis-sá por que razão para ele um dos cenários é mais válido que o outro? Para poder lamentar uma suposta “insegurança na vida”? Partamos do princípio que sim, que o Rui Costa era “inseguro” como terão sido Antero de Quental, Heinrich von Kleist, Emilio Salgari, Manuel Laranjeira, Sara Teasdale, Vachel Lindsay, Mário de Sá-Carneiro, Marina Tsvetaeva, Vladimir Mayakovsky, Sergei Yesenin, Hart Crane, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, Cesare Pavese, Antonia Pozzi, Randall Jarrell, John Berryman, Única Zürn, Paul Celan, Maria Ângela Alvim, Anne Sexton, José Agustín Goytisolo, Sylvia Plath, Alejandra Pizarnik, Luis Hernández Camarero, Eduardo Guerra Carneiro, Ana Cristina Cesar, Pedro Casariego Córdoba, David Foster Wallace, entre tantos, tantos outros escritores, músicos, pintores, artistas “inseguros” ou, quiçá, um pouco mais sensíveis do que a maioria e, por isso, diferentes e “estranhos”. Partamos do princípio de que toda esta gente se matou porque era “insegura na vida”. Esqueçamos as causas íntimas, profundas, irreveláveis e imponderáveis que podem levar a uma decisão fatal. Façamos tábua rasa disso tudo e julguemos, como se fôssemos esterco de gente, que um homem só se mata porque é inseguro na vida. Por que razão isso levaria a uma atitude diferente do editor? Porque teria o editor agido de forma diferente? Dúvidas que permanecerão no ar, com a certeza de que, enquanto for vivo, eu só guardarei tristeza por a vida ser como é.
*Expressão utilizada pelo Rui numa conversa mantida no dia 22 de Novembro de 2011.