terça-feira, 3 de janeiro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #39





Em 1983, ano da publicação de Swordfishtrombones, Tom Waits apanhou boleia com uma companhia de circo itinerante e dedicou-se a bandas sonoras para números de palhaços grotescos. Para trás ficaram dez anos de canções irrepreensíveis dedicadas a recolher e transformar o melhor da tradição norte-americana. Mas esse registo de 1983 marcou, quanto a mim, a entrada num estado de identidade inconfundível que com o álbum de 1992, intitulado Bone Machine, alcançou aquilo a que é usual dar-se o nome de maturidade. Para o caso, os termo usual e maturidade podem parecer desfasados. Tom Waits não encaixa nos conceitos, com as suas histórias mirabolantes, ora nocturnas e melancólicas, ora diabólicas e frenéticas, com a sua inquietação urbana desarrumada em ritmos possuídos por um demónio que sabe dosear blues, gospel, jazz e rock’n’roll num mesmo corpo que recusa crescer/envelhecer. No final do tema que abre Bad As Me (2011) grita-se «all aboard», e nós aderimos ao espectáculo, seguimos viagem, entregamos o corpo ao balanço das preces. Waits faz-se acompanhar de boa gente: Keith Richards (mítico guitarrista dos The Rolling Stones), Charlie Musselwhite (uma lenda do blues que elegeu a harmónica como instrumento principal), David Hidalgo (dos Los Lobos), Flea (baixista dos The Red Hot Chili Peppers), Marcus Shelby (um dos grandes contrabaixistas jazz da actualidade) ou Larry Taylor (dos velhinhos Canned Heat)… Todas estas contribuições emprestam às canções de Tom Waits uma diversidade e uma jovialidade impressionantes, transformando este, porventura, no melhor álbum de rock’n’roll editado em 2011. Sem perder o gozo da experimentação sonora (Bad As Me tem um groove sedutor), Tom Waits mergulha nos ritmos de uma América multicultural para daí sair encharcado em melodias que tanto podem lembrar uma velha balada irlandesa como um blues do Mississipi ou uma cançoneta mexicana. A edição especial faz-se acompanhar de um CD com 3 temas extra, assim como de um bonito libreto com as letras e fotografias que ilustram com requinte o teatro de marionetas para o qual fomos convidados no início. Os The White Stripes podem ter acabado, Tom Waits continua com os ossos rijos. O riff de Hell Broke Luce não engana.

1 comentário:

jp disse...

eu fui bem mais comedido, só te falta dizer que o gajo é um marmanjo que se farta de rir dele próprio, e com gosto.