terça-feira, 17 de janeiro de 2012

BARCO NEGRO




Meti uma semana de férias para descansar da vida, mas a vida persegue-me e não me deixa em paz. Ontem foi um remanso, passar o dia em reunião com a cabeça concentrada em assuntos que me distraem da dor. Agradeço aos meus colegas de trabalho, gosto muito deles e raramente o digo, talvez nunca o tenha dito publicamente, sinto-os, de facto, como se fossem parte da minha família, até porque passo mais tempo com eles do que com a minha mulher e as minhas filhas. A mais velha está doente, tem febre, nada de grave, um pouco de greve. E as lágrimas vêm-me aos olhos quando ouço a mais nova cantar o Barco Negro, num português exemplar e com uma sensibilidade musical invejável, para conforto da irmã. O mundo devia ser sempre assim, mas não é, a vida persegue-nos e não nos deixa em paz com a distracção do trabalho e a serenidade de um canto fraterno, o mundo tem as suas crises e puxa-nos para dentro delas, ao mesmo tempo que nos impele na direcção de um fosso cheio de nada, incógnitas, dúvidas, vazio. E lá dentro estão os amigos, com suas distâncias e silêncios, lá dentro está a lírica dos amigos, um torpor zurzindo dentro da cabeça como se os miolos fossem colmeias e cada um dos neurónios uma abelha incansável. O manuel a. domingos deve saber do que estou a falar, é poeta e visita-me com um sereno e reconfortante minimalismo nas mãos. Fomos comer uma alheira, depois passámos pelos Correios e acabámos em São Martinho do Porto a beber uma cerveja, a fumar cigarros e a deixar o silêncio entrar na conversa enquanto o Sol caía atrás das enseadas, transformando o céu numa tela de tons quentes amansados pelo gelo da neblina. Recordei os primeiros versos, os primeiros amores, o que ficou de vida por viver, e a vida a perseguir-me de cada vez que trazia o copo aos lábios sabendo, por antecipação, que o álcool mais não pode fazer do que disparar sobre algumas células a solução recomendável. A gente aguenta-se, manda a lei, vamos buscar força aos amigos, ao canto sereno e fraterno das filhas, ao sono, aos poemas, à música, a música salva-nos, vamos buscar paz à paisagem efémera, porque sobre o sol a pôr-se logo o ruído agreste das famílias em trabalhos e dos telejornais e da puta da vida a perseguir-nos. Esquemas, filmes de um péssimo gosto, manigâncias, um canil de vigaristas e malfeitores à solta, o mundo dominado por uma indisfarçável hipocrisia, a hipocrisia alimentada pelo feno da submissão, o medo, a angústia, o pânico de ficar sem tapete sob solas carregadas de lama. E a gente aplica-se a limpar a lama das solas, mas quanto mais raspa os veios mais sente desfazer-se o couro, e ficamos com as unhas manchadas de uma terra onde nenhuma semente vingaria e todas as plantas quedam infrutíferas. O mundo: terrível paisagem suspensa na brevidade de um momento reconfortante, enquanto a vida nos persegue sem dar descanso.

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