quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA





«tudo tornou-se luz, serena e alegre, e tendo-a visto apaixonei-me por ela»
Corpus Hermeticum



Coincide a morte com a vida, o silêncio com a palavra. Escutemo-la. Breve Ensaio Sobre a Potência (Língua Morta, Janeiro de 2012) é apenas uma parte de um livro mais extenso. A data de edição poderá levar-nos a falar, no futuro, de primeira obra póstuma. Prefiro referir-me ao livro como última obra publicada em vida. Pormenores de somenos importância, é certo. Mas convém sublinhar o recato e a discrição dos editores em circunstâncias tão adversas. Com um formato em tudo semelhante ao dos saudosos folhetos da colecção subterrâneo três (&etc.), este poema-sequência marca o regresso de Rui Costa (1972-2012) à edição após As Limitações do Amor são Infinitas (Sombra do Amor, Junho de 2009). Além destes, foram anteriormente publicados os livros A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi Edições, Maio de 2005), Prémio Daniel Faria 2005, e El desayuno de Carla Bruni/O pequeno-almoço de Carla Bruni, edição bilingue com versão castelhana de Uberto Stabile (Ayuntamiento de Punta Umbría/Livrododia Editores, Inverno de 2008) Cingimo-nos, obviamente, à poesia e a publicações em nome individual. Este breve ensaio... são trinta e uma estrofes, na sua maioria de sete versos, onde Rui Costa ensaia uma cosmologia poética em perfeita sintonia com aquilo que foi/é a coerência da sua obra. O verso inaugural — «a luz é a metáfora do verbo» (p. 5) — envia-nos directamente para o Génesis, o primeiro livro da Bíblia onde a criação do mundo serve de cenário a uma análise da condição humana. A metáfora declarada acaba por ser uma não-metáfora, é antes o portal de um discurso algo hermético que procura dar imagem às relações alquímicas que estão na origem das coisas. O poeta não enjeita o invisível e o inexplicável, funde numa só matéria, porque a linguagem lho permite, as relações indecifráveis e enigmáticas entre luz e sombra, fauna e flora, ruído e silêncio. Há nesta atitude a crença numa linguagem poética enquanto território onde o que parece contraditório às leis científicas assume uma lógica própria. Deste modo, a poesia não copia a realidade, reinventa-a, subverte-a, vira-a do avesso com suas imagens e metáforas, armadilha o leitor, deixa-o na expectativa, transforma-o não só num espectador, mas sobretudo num ser actuante. No entanto, o tom dominante nas primeiras estrofes, típico de qualquer cosmologia onde a ciência pede favores à imaginação, adquirirá nas estrofes subsequentes um sentido muito mais acessível. Rui Costa respiga na química, na física, na biologia, na antropologia, vários elementos que incorpora nos seus poemas, evoluindo a pouco e pouco de uma panorâmica geral para uma reflexão mais concentrada na figura do homem (do nascimento à evolução, do homem primitivo ao homem actual). É curioso verificar que a esta evolução corresponde, igualmente, uma inflexão na direcção do discurso. Primeiro o homem pede para nascer, depois «é um fantasma calmo descansando / na margem» (p. 12), entretanto comove-se, «tem vontade de comer mas entretém-se / com uma luz que lhe sai da barriga» (p. 15), pensa, constrói, gera os seus inimigos e inventa Deus, fabrica punhais e degenera numa coisa reproduzível, baixa, saturada:

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Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer
.

Há uma consciência política na poesia de Rui Costa que pode passar despercebida se lhe fragmentarmos o raciocínio, porque, na verdade, o que este poema-sequência demonstra é que nenhuma parte do poema faz sentido isoladamente. Há, no decorrer das trinta e uma estrofes, uma evolução discursiva que se revela em diversos pormenores formais, semânticos e sintácticos. De um discurso “iniciáticamente” hermético evoluímos para um discurso muito mais claro, mas não necessariamente luminoso, onde o que se joga é, precisamente, a degenerescência do ser humano, o seu afastamento de coisas essenciais tais como a natureza e o amor. É como se ao tornar claro o discurso o poeta quisesse dizer-nos que essa clareza corresponde a uma fase já muito distante da nossa natureza profunda, a qual será sempre, para todos os efeitos, confusa, paradoxal, contraditória, misteriosa, contrastante. As ilustrações são de Maria João Worm.

1 comentário:

margarete disse...

"convém sublinhar o recato e a discrição dos editores em circunstâncias tão adversas"
apreciei muito a atitude dos editores da língua morta, uma vénia

quanto ao teu texto, Henrique, bom como sempre
especial como só agora
obrigada por mais um bocadinho de Rui*