Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

CONSTELAÇÃO

Para a Joana Serrado.


Estamos atrasados para o dia seguinte, Joana. Ligamos o computador na esperança de encontrar alguma distracção, talvez uma alma que se ligue à nossa por nada saber de coisas tão importantes como o amor, a liberdade, a morte. Mas à nossa frente o mapa-mundo pendurado na parede chuta-nos contra os olhos os lugares nunca pisados, as paisagens nunca vistas, as emoções nunca sentidas, percursos de terra batida onde apenas se aventuraram vermes, exploradores da incógnita curiosidade.

Eu releio Daniel Filipe para sentir que estou vivo, Joana, e perscruto-me no fundo de uma garrafa de vinho, cambaleio todos os dias nas quelhas do pensamento, ando de página em página a coleccionar o vazio atroz que separa cada uma das palavras de um livro. E tu? Pregarás à volta do teu mapa-mundo fotografias irreconhecíveis?

Ali estou com um amigo distante em tempos que parece nunca termos vivido, acolá ao lado da amada quando as nuvens já caíam sobre o Douro, noutra apareço vestido de cowboy e disparo na direcção da vida, há ainda um postal da Costa Vicentina, as filhas com um sorriso que o tempo deteve na sua voracidade, um sobrinho que mal sabe pronunciar o meu nome, desenhos infantis, borboletas, abelhas, flores, sóis sorridentes e sombras alegres que um dia darão lugar a monstruosidades tão raras como os versos onde procuramos conforto.

Para quê iludir as coordenadas da nossa fatídica geografia?

Em tempos passou-me pela cabeça marcar no mapa os lugares já visitados. Desisti da ideia ao constatar que todos eles cabiam na palma de uma só mão, e ninguém quer ter vivido uma vida inteira na palma de uma só mão. Pudesse ao menos a mão esmagar-me, desfazer-me em pó e largar-me no ar para que o vento me carregasse pela terra como carrega o pólen.

Eu passo os dias a estudar a tabuada do infinito, Joana. Subtraio ao nada a luz que tomba na sombra, multiplico o todo vezes sem conta para obter sempre o mesmo resultado: a alegria é a cortina atrás da qual espreita a tristeza.

Um dia pensei que podia remediar o quebranto plantando palavras nas pontas dos dedos, escrevi versos em prosa como estes que agora te dedico, mostrei-os ao mundo como quem liga o computador na esperança de encontrar alguma distracção, sorri sempre que me disseram ser caminho os labirintos da minha perdição. É assim, Joana, do estrume brotam perfumes. E sobre a terra continuarão a flutuar todas as constelações.

2 comentários:

Anónimo disse...

Precisamos que "esse" perfume invada a nossa vida. Que continue a existir.Não o sentir ainda que por breves momentos, só leva à escuridão de todos os outros sentidos.

CCF disse...

Muito bonito!
E é quase só esta beleza que nos vai ajudando a manter o sangue a circular.
~CC~