segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

LEGO





Algumas pessoas dizem que é mais fácil se acreditarmos num homem barbudo sentado nas nuvens, mas as nuvens estão distantes da Terra e entre as barbas e a espuma de barbear há toda uma teoria da literatura por fazer. Carente de provas, prefiro acreditar em Santo Agostinho e nas suas dores confessadas. Era muito novo quando ouvi falar dele pela primeira vez. Talvez já tivesse um buço a pedir depilação, mas barba não tinha — ainda que andasse sempre nas nuvens. Contou-me a catequista, que por acaso tinha um talho onde a minha mãe comprava querubins para grelhar, dos amores agostinianos, das falhas e de como a santa providência o encaminhou para a Cidade afastando-o de viciosas inclinações. Ao escutá-la, dentro de mim cresceu um arco-íris de uma só cor com muitas tonalidades. Julgava impossível poder alguém perdoar todos os pecados a tão asquerosa criatura, mesmo tratando-se de pequenos e breves pecados, ligeiros pecados, acumulados ao longo dos anos sem consciência nem intenção. Pecados tais como pilhar galinhas para matar a fome, sonhar com bailarinas para evitar a dança, cuspir para o chão com lenços no bolso, trocar carícias com livros heréticos. Deve ter sido por essa altura que entre mim e as palavras se desfez uma espécie de mistério, o mistério da formalidade que nos obriga a tratar na terceira pessoa quem nos pariu. Pedi à minha mãe que no caminho para o talho passasse pela papelaria e me adquirisse um caderno preto onde pudesse eu apontar todas as batidas do coração. Foi isso que passei a fazer, por culpa de uma catequista que espero vir a encontrar no Inferno — lugar que imagino como uma nuvem carregada de relâmpagos e trovoadas. Saem-me assim os arco-íris com a cadência das arritmias, às vezes em ritmo acelerado, outras vezes em baixa tensão, por vezes ainda em palpitações de intensidade diversa. Não posso por isso dizer que alguma vez me tenha arrependido de dar à luz, mas é verdade que amiúde se instala entre o acto de sentir e o efeito de pensar uma espécie de hiato que só não me dá cabo das têmporas porque as devo ter de ferro. Qualquer dia, fica a promessa, ainda me desmonto por completo como se tivesse nascido lego. Depois hei-de pedir aos meus amores que brinquem com cada uma das peças do meu corpo e que, de preferência, deixem o esterno no lugar do fémur e a tíbia num lugar onde seja confortável coçar os pés. É que assim como nasci não dá jeito algum. E, mal por mal, eu gostava de me olhar ao espelho e reconhecer um pouco de mim.


Ao alto: Diálogo com a Juventude, de Martin Kippenberger, 1981.

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