domingo, 8 de janeiro de 2012

UMA FLOR, UMA FORMA





Nós temos uma concepção finalista da vida e acreditamos que todos os nossos actos, sobretudo os que se repetem, têm um significado oculto e devem dar algum fruto. Mas não é assim. A maior parte dos nossos actos é inútil, estéril. A nossa vida é urdida com essa trama cinzenta e sem relevo, e só aqui e ali surge de repente uma flor, uma forma. Os nossos únicos actos valiosos e fecundos talvez sejam as palavras ternas que um dia pronunciámos, algum gesto de audácia que tivemos, uma carícia distraída, as horas que empregámos a ler ou a escrever um livro. E nada mais.
Julio Ramón Ribeyro, in Prosas Apátridas, trad. Tiago Szabo, Edições Ahab, Abril de 2011, p. 103.

Ribeyro alentava aquela néscia fé dos artistas para quem o sentido das suas criações está numa espécie de imortalidade, não física nem espiritual, uma imortalidade em estado intermédio garantida pela durabilidade da palavra. De resto, cita autores clássicos para reforçar essa mesma ideia de durabilidade. Como se aquilo que o escritor deixa escrito possa, de alguma forma, ser interpretado enquanto partes do seu corpo, do seu ser, transformados na mais duradoura das matérias, a matéria da palavra. Deste modo, o futuro estaria garantido através do acto ressuscitador da leitura. Ora, enquanto leitor de Ribeyro não me sinto minimamente milagreiro. Ao lê-lo, não me parece que o tenha ressuscitado. Como o próprio reconhece nas suas Prosas Apátridas, nada nos distingue dos homens do passado a não ser pormenores que, com o tempo, se intrometem na paisagem. As palavras de um escritor não são senão a expressão repetida de outras palavras, e assim como na ordem biológica da vida o início estará sempre por explicar também a explosão da voz seguirá sendo um mistério para toda a eternidade. Um suposto significado oculto das acções, que deverá sempre ser relativizado, reside mais na vulnerabilidade do observador do que nas próprias acções. Somos demasiado previsíveis para que essa dimensão oculta não acabe rapidamente iluminada pela observação indiferente. No fundo, procuramos disfarçar o que a todo o instante se nos apresenta com clarividência cartesiana: nada nos distingue, de facto, do caracol que se esforça para atravessar a estrada sem ser esmagado por um veículo em trânsito. Não podemos, pois, repartir a utilidade dos nossos actos. Tudo é inútil e estéril na medida da sua proporcional importância, ou seja, tudo é ao mesmo tempo inútil e importante assim como útil e sem importância. Júlio Ramón Ribeyro está morto, viveu o que tinha a viver, respirou, caminhou, trabalhou, escreveu, há-de ter passado momentos de alegria e momentos de tristeza como qualquer ser humano, foi apenas mais um nó na vasta tapeçaria humana. As palavras que ficam não só não ressuscitam quem as pronunciou como parecem enterrar ainda mais fundo o corpo que as produziu na cova do esquecimento. Ler Ribeyro não é lembrar Ribeyro, é apenas trazer à actualidade os pensamentos de um homem que ecoou na sua vida a vida de outros homens. E, deste modo, tomar consciência da ilusão com que procuramos dar utilidade à vida. Seria, de resto, muito injusto não poder ressuscitar analfabetos. Jesus Cristo, a quem não se conhecem palavras escritas, persegue-nos há 2000 e tal anos com uma voz que nos dizem ter sido a sua. Sócrates há mais tempo. São meros nomes que disfarçam a insignificância de tudo isto, a insignificância que se nos torna insuportável ao constatarmos que entre o termos ou não vivido o mundo permaneceria exactamente na mesma. Resta, então, saber o que podemos aprender com esta lição. A aprendizagem será individual e consubstanciar-se-á na vida vivida de cada um. Julgo que a melhor lição a retirar de tudo isto é a mais simples: o pouco tempo de vida que nos foi concedido pela mãe natureza é demasiado precioso para que o desperdicemos… A suprema tarefa será, pois então, um supremo paradoxo: desperdiçar o menos possível de tempo, tornando-o útil sobre o pântano de inutilidades onde vamos marcando a nossa passagem pela Terra.

Sem comentários: