quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #42





Confesso, o que me levou a adquirir Extremely Cool (1999) foi a produção da dupla Tom Waits/Kathleen Brennan. De resto, o primeiro empresta voz e guitarras a alguns temas e divide a autoria de dois. Chuck E. Weiss era um cromo descartado até Tom Waits o ter ressuscitado de 18 anos de silenciosas cinzas. A raiz é o rock’n’roll, sem artifícios nem artimanhas. No entanto, uma trompete em surdina logo ao segundo tema oferece-nos uma alternância atmosférica que pode ir da pura diversão ao lamento sem perder a boa onda no horizonte. Às vezes o ritmo acelera e a diversão chama por nós, noutras ocasiões o ritmo acalma mas o tom de gozo não diminui. Portanto, esta é música para puxar para cima, consciente de um dramatismo exagerado que a insignificância da vida obriga a desagravar. Ao regressar a estas tonalidades despretensiosas, recordo uma questão para a qual nunca obtive resposta: por que tendem os homens a imortalizar a tragédia quando é a comédia que lhes marca o passo? Eis um dos grandes mistérios da vida: andamos amiúde muito tristes e queixosos, arrasamos com o mundo em suspiros consecutivos, bufamos o dia a dia com o livro de reclamações actualizado, por vezes chegamos a ter vergonha do riso e sentimo-nos tentados a pedir desculpa por andarmos alegres; devíamos, se fôssemos minimamente honestos para com nós próprios, rir da miserável chuva que fazemos desabar sobre a nossa cabisbaixa moral. Apesar do fim anunciado e do terror evidente, certo é que, como dizia Ferreira, ao pé dos males do mundo as nossas angústias são uma ofensa. Duvidam?

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