segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #43



Depois de andar às voltas, achei por bem prosseguir com uma peça de colecção: The Duke Ellington Carnegie Hall Concerts, a gravação com que Duke celebrou, a 23 de Janeiro de 1943, vinte anos de criatividade musical. A história de Ellington não se confunde exactamente com a da maioria dos afro-americanos da sua geração. Nascido no seio de uma certa burguesia, pôde dedicar-se ao estudo do piano a partir dos sete anos. Rapidamente ascendeu aos palcos de elite, aqueles que tinham por clientela gente branca endinheirada. A seu favor havia uma elegância excepcional nos modos e, claro está, na forma de afagar o teclado, o que fez dele um dos mais justamente celebrados compositores de música jazz. A gravação de 1943 tem vários pontos de interesse, entre outros o de revelar um Duke Ellington no auge da sua maturidade enquanto compositor e como líder de uma big band. Foi precisamente neste concerto que apareceu perante o grande público aquela que será, provavelmente, a mais ambiciosa das composições de Duke: Black, Brown & Beige. Trata-se de uma longa peça, com cerca de cinquenta minutos, dividida em três tempos, onde Ellington percorre e homenageia a história dos afro-americanos. Originalmente intitulada A Tone Parallel to the History of the American Negro, foi sendo expurgada de vários elementos em função de diversas vicissitudes. É impossível determinar com exactidão as reais intenções de Duke Ellington ao compor esta peça, mas o resultado é, obviamente, uma afirmação da música jazz como símbolo por excelência da negritude norte-americana, na exacta medida em que eleva a um patamar de excelência um género musical por muitos considerado menor. Das work songs aos espirituais, passando pelos blues, Black, Brown & Beige oferece-nos um retrato épico de uma história amargurada. Só um negro norte-americano a poderia ter escrito. A sala estava cheia de brancos, que aplaudiram muito entusiasmados. Terão entendido o que ali se passou?

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