segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

COACHING


Sentou-se no passeio a observar o trânsito, veículos, pessoas, alguns animais. Reparou que entre os transeuntes deslizavam sombras, nuvens de pó movidas pelo mesmo vento que agitava a copa das árvores. Ao fundo um loureiro, desprovido de simbologia e ignorado por todos quantos passavam. Excepto por aquele que observava o trânsito, agora fixado na planta, pensativo. Agora fixado na planta pensativa. Um cão aproximou-se, alçou a perna e aliviou-se. Uma mulher pendurou a mala num ramo e aproveitou para compor as meias. Um homem encostou a bicicleta à árvore, acendeu um cigarro e olhou cinco vezes para o céu, com a mão a servir de pala, como que indagando as nuvens sobre o estado do tempo. Isto é que vai uma tormenta, pensou, antes de apagar o cigarro e continuar a pedalar pelas sombras adentro.

Vieste de tão longe para isto, pensou o homem que observava o trânsito. Pensou dirigindo-se ao loureiro. E este respondeu-lhe: sou uma árvore como outra qualquer, em mim pousam cantos que os desatentos não escutam, fiz o ninho na terra e ofereço as minhas bagas a quem delas saiba fazer alimento. Eu sei, disse um esquilo que por ali andava. Um esquilo magro, atarracado, vestido com peles muito antigas e gastas, um esquilo com as bainhas curtas e os dentes estragados, sobrancelhas grossas, quase do tamanho dos olhos, e livros comprados em segunda mão debaixo da cova do braço. Um esquilo que parecia saído de uma feira de velharias. Isto é que vai uma tormenta, disse, e depois seguiu aos saltinhos pelas sombras adentro.

Um homem não pode limitar-se a isto, uma árvore também não. Um homem pode transformar a árvore em pasta de papel, imprimir poemas, fazer revistas. A árvore não pode transformar o homem em pasta, mas pode transformá-lo em estrume. É uma espécie de direito consagrado pela natureza das coisas. Os homens fazem baloiços nas árvores, derrubam-nas, transformam-nas em camas onde produzem sonhos e em secretárias onde acabam por destruir esses mesmos sonhos, os homens podem metamorfosear as árvores em aparadores ou mesas-de-cabeceira onde pousar candeeiros e pensamentos em fila de espera, as árvores podem defender-se de toda esta agressividade transformando os homens em estrume. É o que sucede quando não chove. E se não chove, sabem os homens, é porque as árvores resistem ao choro, permanecem inertes na respiração dos esquilos, apoiam as sombras e, se reagem ao vento, é só para que o vento as saiba vivas.

Se não chove os homens transformam-se lentamente em estrume. Primeiro pelo cheiro, exalam um fedor ao qual se habituam com natural dedicação, posteriormente pelo ânimo, que os empurra para dentro das vísceras, lugares onde a alma se encontra consigo própria, por fim pela carne, como uma ferida disseminada pela pele até ao osso. Se não chove, um homem arrisca-se a cair exausto no passeio e ali permanecerá sentado a observar o trânsito, veículos, pessoas, alguns animais. E o loureiro de coração puro que vagueia, desqualificado, pela insensatez dos homens. Se não chove, os frutos crescem secos e o sangue fica poeirento, o adjectivo merencório salta das páginas do dicionário e suicida-se nos versos de um poeta medíocre. Se não chove, as árvores emudecem e os homens ficam sem matéria-prima para os seus crimes. E um homem privado dos seus crimes é estrume, para nada serve, de nada vale, um cadáver cacofónico com plateia composta. Triste, tão triste, que se torna impossível considerá-lo vivo.




Na imagem: um trabalho do graffiti/street artist Vhils.

2 comentários:

alice disse...

Muito, muito bom!

je suis...noir disse...

"Triste, tão triste, que se torna impossível considerá-lo vivo."

Em certos casos a vida sepulta mais do que a morte.