Não gosto de efemérides. As efemérides montam um circo insuportável em torno de feitos, personagens ou valores importantes. Não gosto de um dia para celebrar José Afonso porque todos os dias são de celebrar José Afonso. Não gosto de calendários para ser feliz, horas para ser solidário, datas para celebrar a mulher, o livro ou o lince ibérico. Preferia sentir que as pessoas se importam realmente com as coisas, que reflectem os seus valores e ponderam as suas opções, a ficar com esta sensação repisada de uma memória colectiva que anda de empurrão. Hoje é dia de partilhar músicas do Zeca no facebook, ontem foi dia de relembrar Amália, amanhã será dia de partilhar Carlos Paredes, depois de amanhã choraremos a morte de Mandela e elogiaremos o talento de Eusébio e assinalaremos a enorme perda para a cultura portuguesa que será o desaparecimento de Manoel de Oliveira. Faremos tudo isto com um currículo miserável de profundo desrespeito e desinteresse pelas obras, pelos feitos, pelo sentido, pelo significado, faremos por fazer, porque fica bem, porque é dia de, porque o respeito e os ventos massivos de uma sociedade ordenada a tal obrigam. Deixamo-nos impelir pelas tendências como se fôssemos um catavento. Devíamos acabar com as efemérides e transformar cada segundo das nossas vidas num exercício de reflexão íntima sobre valores e referências pessoais.
8 comentários:
É como penso também... Mas tu escreveste-o (e bem).
O exercício constante de reflexão
íntima é suportável por poucos, penso. Mas concordo contigo.
As pessoas, Henrique, perderam todas as referências. Ninguém mais tem autonomia para lidar com as coisas da vida. Elas não mais sentem, nem pressente nada. Apenas - como aquele personagem de Laranja Mecânica - reage aos estímulos de um mundo utilitarista, e seguem, como as moscas, para onde sentem o derramado mel.
Bom...eu já assim o faço :-P
csd
não digo que não tenhas razão, mas o "tudo ou nada" pode ser um caminho perigoso.
se acabassem com as efemérides, as pessoas que são relembradas agora eram pura e simplesmente esquecidas.
mesmo que sejam recordadas por um dia, é melhor que zero.
Todos os domingos são dias da Agustina.
"A tristeza nasce do facto de sermos interrompidos, sabem muito bem que é assim. Os comentários à obra dum grande artista não passam de vaidosas maneiras de o interromper."
Uma coisa não exclui a outra :-)
PB
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