segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

OBJECTO

Não é preciso ser-se marciano para aceitar a existência de Marte, mas ajuda. No entanto, quem pode compreender Marte senão um marciano? Há quem julgue que a experiência não ajuda à compreensão, antes vicia uma percepção que, à distância, teria outra imparcialidade. Mas há quem pense exactamente o contrário, ou seja, que um conhecimento sem experiência carece do mais consistente dos seus fundamentos. Os cépticos tinham alguma razão. Não a tinham toda. Caso contrário, o seu cepticismo não faria sentido. Tinham alguma razão porque, mais experiência, menos experiência, tudo o que podemos almejar é uma mera aproximação. Nada se permite conhecer por inteiro, e quanto mais mergulhamos na essência do que quer que seja mais somos levados a concluir que tudo o que podemos conhecer de um objecto é uma ínfima parte da sua inacessível teia de associações e da sua complexa rede de interacções. O conhecimento de si próprio, como qualquer outro tipo de conhecimento, é pois uma ingénua falácia. Tornados objecto de nós próprios, tudo o que encontramos é vazio e dúvida e inconsistência, volubilidade, morte, solidão.

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