quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PICABIA

Em 1924, François Martínez-Picabia herdou de um tio uma fortuna que lhe permitiu viver dos apetites até ao termo da vida. Tinha 45 anos, aguentou-se outros 29. Não consta que os primeiros tenham sido passados em graves privações, ou que tenha traído os instintos e as vontades em nome de uma moral que considerava «a espinha dorsal dos imbecis». Apoiado. Porém, a nós cabe-nos manter o despertador afinado para não chegarmos atrasados ao trabalho. Falta-nos a estatura do cínico que vergasta a sabedoria.

De certo modo, também pintamos quadros e atentamos contra os bons costumes. Somos, disso não restem dúvidas, leitores assíduos de Nietzsche. Alain Jouffroy, que conviveu com Picabia, chama-nos a atenção para essa influência nietzscheniana, materializada na relevância atribuída a conceitos tão anacrónicos tais como os de impertinência, iconoclastia e niilismo. Não só estes conceitos são anacrónicos, o próprio conceito de conceito tornou-se antiquado. Os conceitos são uma dor de cabeça, a malta não está para isso.

Os poetas de hoje preferem a razoabilidade da experiência, não entendendo que «a experiência não transforma um cretino num homem inteligente». Às vezes parece que preferem a experiência por serem carentes dela, vivem demasiado agarrados a vidas inócuas e furtivas, cultivam o misticismo da ruína, dando ares de melancólicos e fazendo rimar asneiras várias, escrevem poemas como se estivessem a desenhar bonecos enquanto mijam contra uma parede, buscam a aceitação universal fazendo por se sentirem integrados em comunidades anti-universo, ou seja, são uma espécie de desertores que julgam a guerra uma utopia démodé.

Vejo-os na rua onde por vezes vou beber café, e depois fico a pensar nas palavras de Picabia: «Como fenómeno estético, la existencia es insoportable, pero por médio del arte, lo extraordinario nos hace descansar de la vida, y es esta proyección la que nos relaja de nosotros mismos». Para os poetas da minha rua o extraordinário é ser referido nas colunas do António Guerreiro, apertar a mão ao Herberto Helder, ir ao Bombarral visitar o Joaquim Manuel Magalhães. Juntam-se numas caves a recitar poemas que são cópias a papel químico daquilo a que chamam vida, experiências entediantes, bailaricos de loucuras refreadas, o êxtase elevado a moca e bebedeira, a morte por horizonte imediato em distância preventiva, um passo de cada vez para evitar danos colaterais.

Não me revejo em nada disto, prefiro o Cristo que andava lado a lado com putas e vigaristas, o Goethe que preferia os indigentes à aristocracia do seu tempo, não enjeitando um pezinho de dança em confraria amigável, até porque isto de se dizer faminto de vida dá, na maior parte dos casos, em obesidade de morte. Mas Picabia era fixe. Consigo imaginá-lo a esculpir poemas na pedra como um homem primitivo a pintar figuras rupestres, vejo-o a caminhar entre árvores altíssimas numa noite escura, assobiando melodias que parecem saídas da imaculável garganta de um melro.

Percebo o seu fascínio pela velocidade e pelos carros que, muito provavelmente, lhe valeram respeitáveis facadas no matrimónio. Não o imagino a ter uma atitude que fosse de baixeza e mesquinhez, uma atitude palerma e infantil, embora esteja certo de que as teve, até porque tinha esperança de nascer amanhã. Eu não sou como Picabia, eu passo a vida a fazer um esforço imenso para manter as pálpebras abertas. Mas porque as tenho que manter em esforço, sempre vou dando ginástica ao pensamento fazendo da solidão um carreiro pedregoso onde sabe bem caminhar descalço.

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