sexta-feira, 30 de março de 2012

AS JUNÇÕES





Há imagens que nos afectam de tal maneira que as gravamos na memória com uma intensidade inexplicável, basta um pormenor para que as retomemos em associação com outras imagens. Por exemplo, sempre que vejo tranças lembro-me de uma cena do filme Alexandra (2007), de Sokurov, em que um neto arranja o cabelo à avó que o visitara no aquartelamento onde se encontrava em missão. Ao olhar para o desenho reproduzido na capa deste livro de Hugo Milhanas Machado (n. 1984) foi dessa cena que me lembrei, da sua luz atravessada por finas camadas de pó, do movimento quase mecânico, mas afectuoso, com que um homem possante arruma os cabelos de uma velha. Trata-se de um gesto rotineiro em que a geometria é respeitada na demanda da beleza, um pouco como acontece com os poetas quando escrevem poemas e organizam livros. Não mais fazem do que tranças os poetas que organizam os seus poemas em livros.

As Junções (Artefacto, s/d) é, deste modo, um título muito feliz. Reúne três conjuntos de versos escritos entre 2008 e 2010, entrançados cronológica e tematicamente. Porém, resultam num todo harmonioso. O primeiro conjunto, intitulado As Montanhas Mágicas (2008), foi premiado com o Prémio José Luís Peixoto atribuído pela Câmara Municipal de Ponte de Sor. Nada que abone muito em seu favor, reconheça-se, mas logo ao primeiro poema reencontramos a palavra trança, desta feita em sintonia com o Tour de França, e não podemos deixar de ficar atraídos. As montanhas do título são as que podemos ver na Volta à França, conquistadas pelo esforço heróico dos ciclistas. Eis outra palavra que nos confunde os caminhos, agora atirando-nos para cima de um poema de Herberto Helder: «Lá vai a bicicleta do poeta em direcção / ao símbolo, por um dia de verão / exemplar». E que bem rima com este poema toda a poesia de Hugo Milhanas Machado. A segunda pessoa a que se declara entre vigoroso ambiente é dúbia, mas a sua essência metafórica permite-nos pedalar pela imaginação adentro. E com ela fazermos o que bem entendermos. Por mim, descanso os olhos/os músculos, na excelência da paisagem:

MONT VENTOUX

Adivinhas tu que entre tanta gente aqui na montanha
o amor que te tenho às tantas é tanto meu e teu
que to roubei como desta tanta e ainda ontem outra gente
esta gente que põe o coração no pedalar dos atletas?

O amor que te tenho às tranças às tantas confundo-o
com o serpentear das bicicletas rampa acima
quando as vemos pequeninas lá em baixo
e aqui passam em esforço os atletas e pedem água

E quando na curva ali em cima desaparecem
mas nem a metáfora ajuda que por aqui não há árvores

Vão mesmo lançados ainda que mortos derreados
amá-los é amar-te mais um pedaço
eu e toda esta gente aqui de coração na estrada


O que este poema também pode introduzir para os conjuntos subsequentes é característico de uma voz que tem vindo a saber-se afirmar pela ousadia no tratamento sintáctico dos versos. Longe da linearidade gramatical da maioria dos seus contemporâneos, Hugo Milhanas Machado só encontra par numa Margarida Vale de Gato. Estrelas Partidas (2010), o mais dispersivo dos conjuntos aqui reunidos, oferece-nos vários indícios de um trabalho gramatical que está mais preocupado com a respiração dos vocábulos do que com a musicalidade dos versos. Daí as dissonâncias, uma espécie de arritmia que estilhaça a sintaxe e obriga o leitor a encontrar a respiração própria das palavras. Não é propriamente difícil vislumbrar sentido(s) nestes poemas, chegando mesmo, por vezes, a parecer ligeiros e quase invariavelmente luminosos. O que eles fazem é desafiar-nos a respiração:

ESTRELAS PARTIDAS

Vou esperar as estrelas partidas
ver como se te apagam nos dedos
ver da luz se chega se está bem
e depois então és tu

É que agora que largas a voar
e vais ver diferente de todos nós
eu posso sabes se calhar esquecer

Mas dás asas com tanta força tu
os dedos são tão longos e escuros
passando nos meios a sobra

As estrelas partidas arranjadas no ar
ver horizontal e extremadamente
tudo assim disposto e memorável


No último conjunto — Os Meses Agora São Uma Merda (2009) —, escrito para ser «lido em recital», estes aspectos chegam a extremar-se. Devendo ser interpretado como um longo poema, esta ode ao movimento é, muito provavelmente, das melhores coisas que se escreveram em Portugal nos últimos anos. As palavras assumem aqui uma importância fulcral, vão sendo lançadas como pistas num emaranhado de imagens onde percebemos um ambiente típico de época balnear. Resulta impressionante a forma como a anomalia é integrada sem esforço, deixando, assim, de ser anómala, passando a ser um terreno fértil onde a linguagem rebenta e dá os seus frutos. É um poema sobre o que ficou para trás (sol, praia, mar, alegria, marinheiros, cor, cervejas, beijos, etc.), reflectindo uma alegria encalhada na tristeza da perda. Não obstante a nostalgia que paira sobre os versos, o tom geral recusa o anúncio da catástrofe: «estão as imagens todas partidas / não tens mais que apanhar do chão / e atirar ao meio do mar / que as vozes levantam e vão com elas» (p. 69). Faz muito bem o poeta em deixar a memória contaminar-se pela alegria das experiências passadas, mesmo que “os meses agora sejam uma merda”. Assim a ruína ganha asas e deixa de ser o pastiche enjoativo e disfarçado que o António Guerreiro tanto gosta de elogiar nas páginas do Atual.

POESIA

Contaram-me que um homem já de certa idade viu a ex-mulher entrar de mão dada num café com outro homem. Foi a casa, vestiu uma gabardine e escondeu uma caçadeira debaixo do braço. Voltou para o café e disparou na direcção da ex-mulher, não a matando mas deixando-a gravemente desfigurada com estilhaços espalhados pelo rosto. A ser verdadeira, esta história passou-se num café das redondezas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

FAZ DE CONTA

Muita discussão inconsequente sempre se cultivou neste país de faz de conta. Permanece no ar, como se algo houvesse a pedir prova, o debate sobre a carga policial no decorrer da última greve geral. Diz-se que é preciso averiguar a cronologia dos acontecimentos para apurar responsabilidades. Já sabemos quais são os efeitos deste diz que, em breve o assunto cairá no esquecimento e continuaremos todos entretidos com mais uma edição dos Ídolos. A única coisa que é preciso averiguar é se o ministro da administração interna tem os tomates no sítio, porque já toda a gente viu que os heróis de colete fluorescente que arregaçaram as mangas para agredir jornalistas no exercício das suas funções os têm no lugar dos miolos. Nada há a provar que não tenha sido provado pelos factos, os únicos que interessa relevar: jornalistas impedidos de fazerem o seu trabalho à força da bastonada. Agora é agir, ó país de fantoches, e deixar o sexo dos anjos ao cuidado dos metafísicos.

domingo, 25 de março de 2012

ANTONIO TABUCCHI (1943-2012)





De Antonio Tabucchi li apenas um livro, uma colectânea de contos intitulada Pequenos Equívocos Sem Importância (Difel, 1988). Regressei hoje ao livro onde fui encontrar, entre outros, este sublinhado no conto Charada:

Às vezes, só no sonho é que uma solução se torna plausível. Talvez porque a razão é cobarde, porque não é capaz de preencher o vazio entre as coisas, de estabelecer a completude das coisas, que é uma forma de simplicidade, prefere uma complicação cheia de lacunas, e é então que a vontade confia a solução ao sonho.

sexta-feira, 23 de março de 2012

NOS SONHOS COMEÇAM AS RESPONSABILIDADES

Nem uma tradução paupérrima pode demover o entusiasmo com que recebemos a notícia da primeira edição portuguesa dos contos de Delmore Schwartz (1913-1966). O prefácio de Lou Reed, chamado à capa como se fosse autor, compreende-se enquanto táctica comercial, mas não adianta absolutamente nada. Sabíamos da admiração que o ex-Velvet nutria pelo seu professor predilecto, a influência foi sempre assumida. Não podemos deixar de considerar triste sina esta de alguém fazer valer um autor por ele ter sido professor de um astro do rock’n’roll. O prólogo de Irving Howe e a introdução de James Atlas acabam por explicar o problema, contextualizando o autor e ajudando a perceber a importância de uma malograda obra. Schwartz não representa apenas um anjo em queda, o escritor de sucesso caído em desgraça tão desgraçada que foram precisos vários dias na morgue até que alguém reclamasse o seu desaparecimento. Schwartz, o contista mas também o poeta, foi um exímio retratista do «ambiente claustrofóbico da família» (Atlas) e das angústias existenciais que facilmente levam ao desespero qualquer homem consciente de si. As fobias que o atazanaram estão patentes no primeiro dos seus livros, este In Dreams Begin Responsibilities (1938), que a Guerra & Paz deu à estampa em Fevereiro passado. Marcado pelo divórcio dos pais quando contava apenas 9 primaveras, o autor de Nos Sonhos Começam as Responsabilidades exorcizou o trauma neste conto inicial. Tinha 21 anos quando escreveu a história e já se dera a conhecer enquanto poeta. Um sonho transporta um indivíduo para uma sala de cinema onde vê percorrer no ecrã a história de vida dos seus pais; quando chega ao ponto em que pai e mãe se apaixonam, levanta-se e grita: «Não façam isso. Não é tarde para ambos mudarem de opinião. Nada de bom vai sair daí, apenas remorsos, ódio, escândalo e dois filhos cujas personalidades são monstruosas» (p. 39). Os contos de Delmore Schwartz estão infectados por estes “mistérios da vida familiar”, entram em ruptura com uma suposta paz doméstica questionando a solidez da tradição familiar. É verdade que também podemos vislumbrar neles o sentido de um conflito geracional entre famílias de origem judaica no ambiente da grande depressão norte-americana, mas o que mais se evidencia é o sufoco instaurado pelas expectativas dos filhos relativamente aos pais e dos pais relativamente aos filhos. É como se esse castelo, essa muralha, esse abrigo a que chamamos família acabasse dinamitado pelas fragilidades dos seus constituintes, importando questionar se a família, enquanto construção social, é mais um abrigo ou uma ameaça à sanidade dos indivíduos e um atentado à liberdade de cada ser. O rancor fragiliza os alicerces, a hipocrisia e a mentira fazem estremecer as paredes, as ambições tornam o chão sinuoso e levam ao desmoronamento da casa: «A classe média-baixa da geração dos pais de Shenandoah tinha criado perversões da sua própria natureza, crianças repletas de desprezo por tudo o que era importante para os pais» (p. 54, do conto América! América!) Estas perversões que são consequência de uma degeneração geracional fazem emergir a desilusão e o sentimento de fracasso. Num conto intitulado O mundo é um casamento são nítidas as dúvidas que distanciam os jovens de origem judaica de tudo o que os rodeia, deixando-os num limbo existencial sem referências onde procurar amparo. Não se revêem na família nem na comunidade, sentem que a cidade não precisa deles, fecham-se em pequenos círculos de amizade também ela questionável. As personagens destes contos espelham o que julgamos saber do seu autor, vivem mergulhadas em dúvidas cujas respostas vão sempre dar a cruzamentos sem orientação possível. Nos seus momentos mais hilariantes, como nos contos O Discurso do dia da Formatura e Screeno, revelam um desespero insuportável, explodem em acções e afirmações e pensamentos que só não julgamos anormais por sabermos terem sido impelidos por uma enlouquecedora contenção. E note-se como num só parágrafo, neste caso o primeiro do conto A criança é o significado desta vida, estão contidas todas as causas do mal:

Samuel Hart era o filho mais novo numa família de quatro crianças. O pai, que fora um homem forte e ambicioso, morreu de excesso de trabalho, que é como quem diz, de tanto tentar, e com tanto fervor e intensidade, enriquecer. Quando morreu, a filha mais nova, Sarah, já estava casada e a filha mais velha, Rebecca, já tinha iniciado uma carreira como estilista. Leonard, o jovem senhor da família e o terceiro dos filhos, estava a estudar para se tornar médico e a sustentar-se sozinho ajudando a gerir uma loja de charutos à noite. Desse modo, a morte do pai deixou a família intacta enquanto família, em especial tendo em conta que a mãe, Ruth Hart, era um ser humano poderoso que vivia pela devoção aos filhos.

O resto só lendo. Os sublinhados são meus.

PRIMEIRO PASSO



Perante o vergonhoso silenciamento das agressões policiais ocorridas durante a manifestação de ontem, cabe-nos fazer o maior estardalhaço possível com o assuno. Caso contrário, corremos o sério risco de passar a ter uma comunicação social conivente com as forças que se lhe opõem e um Estado onde a palavra democracia é apenas uma fachada para um exercício autoritário do poder. Não deixa de ser curioso notar que, noutras circunstâncias, bem menos gravosas, os jornalistas portugueses foram de um corporativismo ferrenho, falando-se inclusive em asfixia democrática e atentado à liberdade jornalística. Ontem, alguns fotojornalistas foram cobarde e injustificavelmente agredidos no exercício da sua profissão. Hoje os seus colegas calam os factos, atiram para trás das costas o evidente, remetem para rodapé as ocorrências. Porquê? Só encontro uma razão para que tal aconteça: manipulação informativa. Não há outra. Como não fazer notícia de primeira página destas agressões? Elas configuram o que de mais grave aconteceu ao jornalismo português nos últimos anos. Não se pode fugir a este facto como fogem os responsáveis da PSP, alegando que «qualquer manifestante pode dizer que é jornalista». Pois pode. Mas cabe à PSP averiguar da veracidade desse “dizer”, e não desatar à cacetada em tudo o que aparece pela frente porque desconfia que não seja jornalista quem apenas diz que o é. As autoridades policiais, pagas pelos cidadãos para a defesa da cidadania, não estão nem podem estar ao serviço do seu belo arbítrio. Não terem cumprido as mais básicas regras deontológicas a que estão obrigadas oferece um sinal à população: podem ripostar, vamos medir forças. Prevê-se, deste modo, um agradável braço de ferro em próximas manifestações. O primeiro passo foi dado pela PSP. Que fique registado.

quarta-feira, 21 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

TEORIAS

Nada foi deixado ao acaso neste afectuoso objecto, e esse é o seu maior defeito. Quem olhe a capa atentamente perceberá o contraste estabelecido entre a paisagem reproduzida e o título de índole racionalista. A ausência do nome do autor, desfeita apenas no cólofon, não é original. Pode, inclusivamente, ser entendida como uma espécie de homenagem à discrição de Fernando Guerreiro, poeta cuja sombra paira sobre estas Teorias (edição de autor, Novembro de 2011). Mas a poesia de manuel a. domingos (n. 1977) pouco tem que ver com a de Guerreiro, autor essencialmente reflexivo e torrencial. Neste caso os poemas são de uma verticalidade desnudada que lembra William Carlos Williams na forma, embora estejam muito mais próximos, em termos de conteúdo, do minimalismo de um Raymond Carver. De certo modo, a paisagem fria e melancólica (mas reconfortante) da fotografia que ilustra a capa pode induzir em erro. Há qualquer coisa de contemplativo naquele olhar que os poemas de manuel a. domingos recusam. Nos poemas o olhar como que se interroga desassombradamente, deixando o leitor no centro de uma ponte que liga a margem da dúvida à margem do vazio. Não sendo contemplativa, a poesia de manuel a. domingos é quase narcisista. Ilude-nos com a sua auto-ironia, rasteira-nos com um cinismo natural, deixando-nos caídos e desarmados perante uma essencialidade que a vida nos obriga a negar sob pena de parecermos superficiais. Mas a verdade é que somos, não podemos fugir a isso como da morte foge um ser vivo. As teorias tocam na ferida com a sua voz silenciosa, depurada, objectiva, directa, crucial. Arrumadas em jeito de tratado, com direito a bibliografia e tudo, as teorias aqui apresentadas resumem uma atitude, um modo de estar e uma perspectiva que enjeitam o lirismo expressivo de muita da poesia portuguesa actual, fugindo de conotações e de rótulos tanto à esquerda de um confessionalismo urbano-depressivo como à direita de uma metaforização académica do mundo. Falar de simplicidade não é suficiente, pois a simplicidade carrega demasiada complexidade no imo do corpo. A natureza da poesia, tanto quanto a cagança humana que a deforma, são aqui tema, mas em relação permanente com um quotidiano desdenhoso de si próprio. Note-se como, logo num dos primeiros poemas, três registos claramente frugais estabelecem entre si todo um clima de rara beleza: «Uma mulher / grita / contra um gafanhoto // Uma criança / mostra / um desenho ao avô // Uma andorinha / faz / o reconhecimento // dos telhados» (p. 17). Ou como a impossibilidade da poesia, minada pelos afazeres diários e a monotonia das obrigações, resulta paradoxalmente em poema: «Todas as noites / procuras escrever // um ou dois / versos // Hoje / essa hipótese // foi // por água / abaixo // Na televisão / alguém promete // bons / resultados // num redutor / abdominal» (p. 38). A ironia que anima estes poemas é, afinal, a mesma que nos permite manter o mundo suportável. No limite do tempo vamos desperdiçando tempo; ainda que nada tenhamos a dizer, dizemo-lo; decalcamos o passado como se tivéssemos presente, enganados que vamos andando acerca do futuro; emigramos dentro de nós mesmos, somos estrangeiros em casa própria para que doa menos. E nada disto garante o percurso simplista, mas deveras autêntico, denunciado numa das secções deste livro, a secção intitulada Teoria da Literatura. É aí que a figura do poeta pós-moderno irrompe como uma monstruosidade germinada no corpo do homem comum. Triste destino para quem procura apenas o ar respirável de uma paisagem fria e desnudada. Teorias pode e deve ser encomendado ao seu autor. Foram feitos 100 exemplares. Talvez ainda se encontre um ali.

terça-feira, 13 de março de 2012

BARRY EGAN




Os filmes de Paul Thomas Anderson são exímios sob vários pontos de vista. Como não gosto de me meter por corredores técnicos, prefiro percorrê-los pelo território narrativo onde as personagens vão desabrochando. Infelizmente nunca consegui ver Sydney (1996), mas guardo impressões fortíssimas de todos os outros. Punch-Drunk Love (2002) talvez seja o menos celebrado dos seus filmes, uma incursão cínica pela comédia romântica com um sentido subversivo irresistível. Estou viciado pela personagem magistralmente interpretada por Adam Sandler, tanto quanto consigo estar pelo mosaico de Magnolia (1999) ou pelo decadentismo paradoxal de Boogie Nights (1997). There Will Be Blood (2007) é do outro mundo, não cabe aqui. Mas Barry Egan cabe, até porque tudo isto se deve a esta personagem. Caiu na minha vida como um piano súbita e inesperadamente abandonado no meio de uma rua. O que há em Barry Egan, o fantasma ao qual Adam Sandler deu corpo, que me atrai tanto? Desconfio que seja a sua manifesta inaptidão sentimental. Vive enclausurado num negócio medíocre, em voluntária solidão, sufocado pelo maternalismo insuportável das irmãs. É um concentrado de emoções pronto a explodir, o que por vezes acontece, em direcções contrárias e por motivos inesperados, com consequências imprevisíveis. Tal como noutras personagens de Anderson o que parece estar em evidência é a dificuldade de direccionar o amor. Não a impossibilidade de amar nem a recusa do amor, mas uma tremenda dificuldade em encontrar os alvos certos para a exteriorização desse sentimento. Talvez se busque nestes quadros algo paranóicos, mas deveras autênticos, uma explicação para o medo enquanto entrave ontológico. De facto, uma pessoa só pode afirmar-se enquanto pessoa que é quando consegue exteriorizar a sua humanidade. E o que acontece no dia-a-dia, independentemente de um hipotético romantismo pacóvio que possa estar implícito nesta constatação, é que a máscara que vestimos para podermos representar o nosso papel quotidiano impede-nos essa nudez terapêutica e condiciona-nos as decisões, impele-nos para uma loucura consentida, transforma-nos em fantoches, barra-nos o desejo, enterra-nos em amarguradas frustrações. O Barry Egan de Punch-Drunk Love é deveras libertador, é a fé que não tenho, um sinal de esperança. Curiosamente deixa-me a pensar na estúpida facilidade com que os indefectíveis da realidade se transformam em fervorosos adeptos das teorias de conspiração, como se essas teorias lhes oferecessem o cibo de ficção que rejeitam sempre que olham para uma pedra e não querem ver o sangue que lhe corre nas veias. Neste caso em que a rebentação amorosa desperta o magma torna-se claro o bom feitio do traje, ou seja, a roupa acaba por cair em absoluta coincidência com o físico que a suporta. Num mundo cada vez mais repleto de cadáveres sabe bem pensar que nem tudo são favas contadas, a qualquer momento podemos ser surpreendidos pelo acaso e ficarmos sem saber onde meter as mãos. Pena que aconteça tão pouco. Pena que quando acontece seja tão efémera a emoção.

ROGIL


Rogil
Desenhos do autor
Volta d'Mar
Março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

UMA CHUVA DE SAPOS E UM PIANO ABANDONADO




Canso-me com facilidade das pessoas que não conheço. Nem chego a cometer a imprudência de formar uma ideia sobre elas, esforço ingrato que, acredito, redunda invariavelmente em arrependimento. Neste tipo de matérias sou bastante intuitivo. E como não alimento qualquer desejo de proximidade mantenho-me onde sempre estive e de onde nunca pretendi sair, ou seja, na sombra. De resto, parece-me ser lugar abrigado e protegido. É verdade que tenho andado com pedras no bolso contra o mau-olhado, algo que se me afigura absolutamente ridículo por não entender como pode algo ou alguém atingir-me com o mortal quebranto. Confesso, porém, uma fé paradoxal. Acho que sou vítima do meu próprio mau-olhado. Isto é, olho-me à distância e, no íntimo, há em mim um qualquer ímpeto narcisista que me leva a ter inveja de mim próprio. Ou então sou um prestidigitador. A verdade é que o mundo é pequeno. A vida das pessoas cruza-se em lugares impensáveis. Ninguém suspeita que nas esquinas do tempo um facto encontra outro facto, duas existências supostamente distantes aproximam-se em pormenores quase irrelevantes. Quando menos esperamos, temos no ombro a mão de um desconhecido. É como se pesasse sobre nós toda uma fantasmagoria de afectos. Talvez exista em todas as vidas um momento em que a verdade nos cai em cima deixando-nos petrificados, atónitos, mudos, sem palavras, submersos em pensamentos, memórias, conjecturas, presunções que parecem não ter outra saída senão aquela que se surge como a mais evidente: não valemos nada, e por isso é tão importante não desperdiçar um segundo só de beleza. Nos filmes de Paul Thomas Anderson esta, digamos, debilidade ontológica é explorada no limite das situações. Veja-se, a título de exemplo, o menino-prodígio convertido em adulto falhado ou o nerd apaixonado de Punch-Drunk Love. Magnolia está cheio deste tipo de coisas, gente perdida no labirinto mítico da realidade que apenas acorda para uma verdade essencial, sem mentiras, nem disfarces, nem maquilhagens, após uma improvável, surreal e extraordinária chuva de sapos. É esta espécie de fé no inverosímil que faz de Anderson um realizador ímpar, muito possivelmente o mais autêntico e genuíno de todos quantos surgiram nos últimos 15/20 anos. O seu cinismo é a medida de todas as coisas, mas de um modo tão consciente que nos deixa a questionar o sentido da mensurabilidade.

terça-feira, 6 de março de 2012

Breve ensaio sobre “Breve ensaio sobre a potência” de Rui Costa, por Rui Lage.

Comecemos pelo começo. “Breve ensaio sobre a potência”, o título que o Rui Costa escolheu para este seu livro de poemas não é um título acidental, nem gratuito. A presença do termo “ensaio” indicia desobediência à compartimentação de géneros, ao mesmo tempo que convoca para junto do poético a modalidade do pensamento – um pensamento vadio, serpenteante, que lida com a diversidade e com o transitório. João Barrento apelidou recentemente o ensaio de “género intranquilo”. Intranquila é adjectivo que assenta bem à poesia de Rui Costa. Os seus poemas não são dóceis, nem submissos, o seu discurso não visa a normalidade, o bom comportamento, o estilo do período: a sua escola é uma escola de exigência, de trabalho, uma escola de amplos e variados recursos que visam a fulguração, quer dizer, visam mostrar o avesso das superfícies do mundo e dos relacionamentos humanos, e não decalcar essas superfícies. Este livro, tal como os anteriores, está cheio de fulgurações. O autor é daquela espécie de poetas que violenta a linguagem, que se compraz em torcê-la, em deslocá-la para os sítios que entende: para sítios que precisam de ser desafiados. Ele também foi, em vida, um semeador de desafios. Em livros anteriores, detectava-se uma vontade de conspurcar o visível e o finito com as heresias da linguagem. Diante deste livro, ainda podemos detectar essa vocação, mas há diferenças. O Rui escolheu aqui a brevidade (estrofes de sete versos formando um texto contínuo) e escolheu o ensaio, isto é, escolheu uma rota sem roteiro, intuitiva, tacteante, que investiga os sentidos possíveis da existência, não tanto para captá-los, como para fazer da investigação o sentido do que é investigado: “e assim ensaiamos o livro entre a/treva e a luz”, lê-se no último poema, em jeito de chave, de que faz eco a belíssima gravura de Maria João Worm reproduzida na capa desta primorosa edição da Língua Morta.

Que dizer da “potência” sobre que versa o “breve ensaio”? A física ensina que a potência é a energia dividida pelo tempo, ou, dito de outro modo, a rapidez com que a energia é transformada. A quantidade de energia diariamente consumida ou dissipada por um ser humano ronda, em média, os 100w. Um televisor transforma, em média, 120w. Nada que não soubéssemos: que a fonte luminosa do ecrã de televisão leva desde há muito a melhor sobre a fonte luminosa do espírito. Onde se lê televisão leia-se, por metonímia, tecnocracia, essa que “Breve ensaio sobre a potência” repudia em toda a linha: “acreditas mais num ficheiro/ Microsoft do que nas salmodias da tua avó” (26, p. 30).

Deslocado da física para um livro de poemas, o conceito de potência convida a equacionar a existência individual em termos de repouso e actividade. Não no sentido mundano, antes no sentido de uma ética do repouso e da actividade, a maneira como se nos apresentam como opções existenciais, em complemento ou em alternativa uma à outra. E leva-nos ainda à questão do livre arbítrio e da liberdade: somos donos da nossa potência? As forças que nos envolvem e que nos dominam permitem orientar a nossa potência, a nossa energia, o nosso trabalho, para o bem comum e para a felicidade? Somos seres fadados para o repouso ou para a “eficiência económica” e para as “preocupações com a excelência” (24, p. 28)? Para o tempo da lentidão ou para o tempo da rapidez? Será esse o sentido último do ser humano: dissipar energia? Será, pelo contrário, consumi-la? Conservá-la? O livro responde: o sentido, o único sentido, é a partilha: “na serra aliamos as tendas, aquecemos/ música. A luz é da tribo, a Grande Pedra/ escuta” (30, p. 34).

Podendo ser definida como a rapidez com que o trabalho é realizado, a potência faz-nos ainda reflectir sobre o tempo. Hoje roubam-nos o tempo. Ou, se quiserem, o tempo foi amputado do tempo, porque estamos reduzidos ao instantâneo, ao imediato, à urgência, à velocidade, às oscilações de temperamento do NASDAQ, do Dow Jones, do PSI 20, da Moody’s. O tempo deixou de ter sentido: deixou de se medir pelo futuro (e em certa medida pelo passado), e tudo é escravizado ao presente, impossível de fixar, de reflectir, de ponderar: “Não tens tempo para saber o que andas/ a contar”, lemos no poema 25 (p. 29). Destituídos de tempo, ficamos destituídos de memória, de cabeça perdida, sem lugar para as imagens: o mundo arrumado num disco externo. Eis, na minha opinião, algumas questões fundamentais colocadas por Rui Costa neste livro que não chegou a segurar nas mãos, mas que pode auxiliar-nos a compreender o mundo que nos coube em sorte.

Uma vez que os interesses do autor deste livro iam muito além da poesia e da literatura, e entravam na ciência, na sociologia e na filosofia, não podemos esquecer a teoria aristotélica do acto e da potência que ressoa no título. Para Aristóteles, a potência é a capacidade de uma coisa se transformar em outra, porque não pode permanecer indefinidamente constante. A única coisa que pode existir sem ser transformada é, para o estagirita, o Bem. Claro que esse é também um predicado de Deus, totalmente acabado e perfeito, que não depende de mais nada a não ser de si mesmo. O contrário dessa perfeição auto-suficiente é o ser humano: somos nós. A semente é o exemplo paradigmático do objecto em potência, que pode, ou não, actualizar ou realizar uma árvore. O ser humano, como a semente, é sempre um ser em potência, um conjunto de possibilidades múltiplas e contraditórias.

A consciência de que o ser humano, sempre incompleto, sempre imperfeito, sempre indeterminado, tende constantemente a ser outro, a apresentar-se com novas características (sem que tenha de haver nisso infidelidade à sua substância), é algo que no meu entender está no cerne deste livro. Mas ensaiar a transformação e realização do ser exige uma incursão na floresta escura da existência, e pede um certo faro: o faro da luz.

Não há, salvo erro, poema deste “Breve ensaio sobre a potência” que dispense a palavra “luz”, símbolo por excelência do que nasce ou está para nascer, do que revela e do que se revela, do resgate, da redenção, da saída das trevas. Este livro começa por nos colocar debaixo das pálpebras o filme de um génesis mínimo e humilde. A luz começa por germinar a partir de coisas em repouso, de coisas elementares, de pequenos seres: água, peixes, plantas, pedras, nuvens. Mal se distinguem entre si os reinos animal, vegetal e mineral. A energia transformada e consumida ainda não é a das coisas complexas. Há uma espécie de nostalgia do momento inicial, do fio de luz originário, que, depois, ao atravessar a lente dos poemas, vai sendo desviado e desfocado. Não tardam a surgir indícios de impureza, primeiras tentações, primeiros desencantos com “caminhos isentos de afecto” (5, p. 9).

Ora, a partir do poema 9, “há um homem que pede para nascer”. Há, neste “Breve ensaio sobre a potência”, um homem a transformar-se, a sair do repouso, a manifestar-se, um homem em trabalho de parto. O que nos primeiros poemas se ensaia é a possibilidade de um novo ser, ou do renascimento num novo modo de ser. Ainda provisório, quase o efeito de uma evaporação, muito anterior à literatura, “este homem/ é um fantasma calmo descansando/ na margem. ainda não é o sonho” (9, p. 13), “por sobre a erva comove-se e/ os bichos escutam-no” (10, p. 14), “entretém-se/ com uma luz que lhe sai da barriga” (10, p. 14). Um homem ainda puro. E já ameaçado, vulnerável, surpreendido no centro da roda (12, p. 16). A partir do poema 13, a luz começa a desfocar, surge uma trama de destruição. A civilização do artifício, despossuída de alma, as ladainhas da eficiência e do “Sucesso” (24, p. 28), procuram abortar o nascimento, fazem adivinhar uma metamorfose violenta e dolorosa: os homens “refugiaram-se da sua própria/ condição de seres predestinados ao amor./ Inventaram mapas e destinos” (14, p. 18), queixam-se da alma que nunca souberam onde fica (17, p. 21), “fabricam-se punhais para matar/ com menos requinte do que as mãos” (19, p. 23). Instala-se a descrença: nas instituições, nas finanças, nos bancos, na tecnologia, na informação, nas universidades: porque só a dor ensina (22, p. 26). A luz que “provoca a primeira/ nostalgia”, do segundo poema do livro, dá lugar, num dos últimos, a“bolinhas de luz com expertise multimédia” (25, p. 29), e “ser adulto é quase impossível no mundo/ só imberbe” (26, p. 30).

Voltando às interrogações. Somos mais livres quando nos arrancamos ao repouso e nos transformamos, a nós e ao mundo, em energia, ou somos mais livres quando escolhemos o repouso, a imobilidade, quando nos furtamos aos ditames colectivos e às metas impostas, quando legitimamente optamos por desistir? “Ser dono dos homens ou escravo de mim”, como se lê no poema 13? Não é segredo que se pode resistir desistindo. Um objecto imóvel possui outro tipo de energia: a energia potencial, e é sempre, por isso, reserva de futuro, promessa de movimento. Temos aqui, apesar de tudo, uma poética da esperança, bem explícita no carpe diem do poema 30: “Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,/ esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as/ mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar” (p. 34).

É tentador afirmar que todas as misérias e alegrias humanas, toda a energia consumida ou dissipada, cessam com a morte. Na morte, ou em face dela, apenas há impotência. A energia deixa de ser dividida e repartida no tempo, porque o tempo deixa de existir. Quando se esgota a potência de um ser humano, quando toda a sua energia foi transformada, ele não é senão puro acto: na morte, o ser não depende de mais nada, é, de certa forma, algo totalmente acabado e perfeito. Como Deus.

Aqui estamos nós, depois da perda de um amigo, a transformar ainda a sua energia em tempo e em luz.


Rui Lage

segunda-feira, 5 de março de 2012

O QUE NÃO LI


Há vegetais com filhas grafitadas nas paredes do coração, aprendem a chorar com a morte dos outros, descobrem a dança nas sombras da dor, semeiam tempestades, colhem ventos. Deles se aproximam piratas com poemas na bagagem, vêm das ilhas e dizem coisas como pão. A gente desconfia sempre dos piratas até nos transformarmos em pernas de pau, depois abrimos os veios e deixamos escorrer pelas folhas o alimento da sede. O sono vai-se-nos e perguntamos: queres ser? Foi mais ou menos assim que tudo aconteceu, e um dia se fez prémio o produto dessa máquina de produzir texto que era o homem em indómita respiração. Eu digo que são metáforas vivas, a realidade voltada do avesso, porque tu metes as palavras a fazerem amor umas com as outras e geras tensões onde há pouco mais do que cuidados, vergonha, timidez, subserviência. Ficou o teu poema branco por debaixo da terra devastada e os críticos manifestaram-se: Rui Costa e T. S. Eliot, o mesmo campeonato (Mexia); não conheço o Sr. Rui Costa (Pitta). Foi então que constatámos a absoluta necessidade de conferir vida aos livros com a biografia dos seus autores, badanas onde possa aparecer pouco mais do que a manifestação de um desejo e capas que não mostrem apenas o olhar sabiamente juvenil de um irmão. Como ler um livro cujo autor se desconhece?

Vieste mais perto, comemos peixe e bebemos vinho branco, demos um mergulho, visitámos a casa do Ruy Belo, acabámos nas salinas a cantar canções dos ABBA. Havia clivagens, tu rabo de saia, eu sem corpo para isso. Tu voltado para fora, eu voltado para dentro. Tu minando a terra, eu furando um covil. Havia o encontro da verdade, um gosto que aproxima quem vê para lá do arrivismo pacóvio das múmias, uma incontrolável inclinação para o terrorismo poético que junta piratas das ilhas e solitários pistoleiros do Oeste. E tudo isso num longo poema em prosa premiado de romance, as relações de poder entre agentes sociais num cenário futurista, fantástico, a alegoria da caverna de pernas para o ar, a verdade nas sombras, ficção científica com emoção nas leis porque uma lei científica pode ser tão comovente quanto um verso. Não há lugar para homens azuis nas editoras portuguesas, os leitores são estúpidos e não entendem as dificuldades do coração, os editores são merceeiros preocupados com a sustentabilidade das empresas que os contratam, os editores deixaram de ser o suporte dos autores para passarem a ser conselheiros de imagem. Estamos feitos. Resta-nos um minuto de antena na televisão nacional, pouco mais que isso para dizer ao mundo que não há dificuldade alguma nas sombras, apenas e tão só a sabedoria da música.


Irmão cosmológico, a poesia morreu. Um dia far-se-ão exposições em sua honra no Palácio de Cristal, teremos poetas agrupados por classes, fadas e feiticeiros, bruxas malvadas e princesas virgens, só as crianças poderão compreender-nos. Talvez venhamos a merecer uma escultura de areia num festival algarvio, cabeças de dinossauro antropomórfico. É o lado para onde durmo melhor. Andamos todos tão angustiados com a falta de chuva, olhamos para o relógio e contamos os minutos que nos faltam para um silêncio absoluto, e enquanto assim o mundo rodar negligenciaremos o amor sem vontade alguma de voltar a perguntar: queres ser? Delmore Schwartz esteve vários dias na morgue sem que alguém reclamasse o seu corpo. Muitos de nós passarão uma vida inteira sem se verem reclamados. Escreveremos por razões inúteis, sim, e soltaremos os dedos pelas páginas como quem solta leões na praça de um Coliseu. Mas há a lógica das coisas que é preciso minar, questionar, há essa organização mental do mundo que importa provocar com uma dúvida ou, talvez, uma aporia ou, porque não, um paradoxo: as limitações do amor são infinitas.