sábado, 17 de março de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #44





A estreia a solo de Eric Mingus, filho do contrabaixista Charles Mingus, não entusiasmou a crítica especializada. Um… Er… Uh (1999) está longe de ser registo para entusiasmos e explosões de espanto, ainda que seja explosivo o suficiente para nos deixar inquietos. Talvez sobre este disco tenha pesado a sombra do genial Mingus Ah Um (1959), um dos grandes discos que Charles Mingus legou à posteridade, mas parece-me uma parvoíce e um erro crasso cair na tentação das comparações e esperar de Eric uma qualquer versão epigonal da obra paterna. Um… Er… Uh tem os seus próprios argumentos e não deve nada senão à realidade que retrata sem quaisquer subterfúgios. A base musical das composições de Eric Mingus também é o contrabaixo, ora acompanhado de uma percussão com tímidas incursões pela programação rítmica, ora buscando nos sopros, nas guitarras e na manipulação electrónica algum conforto. Porém, por cima da rede instrumental voa uma performance vocal em registo spoken word. São relatos limpos e directos sobre situações concretas, histórias que rebuscam nas memórias a denúncia do muito que ainda há por fazer em termos de direitos civis na América do Norte. É óbvio que Eric Mingus traz os blues e os espirituais negros nas veias, corre-lhe no sangue a soul com que os seus antepassados souberam contornar a crueldade do mundo. No entanto, Shake Up The World e I Reject This Reality, a título de exemplo, extravasam o leito da lamentação, penetram os campos da revolta e da denúnica com um despudor admirável. Por outro lado, temas como Grey... Was Never So Color... Full... e Jaki Did, estritamente vocais, obrigam-nos a aceitar que aqui a música é um veículo expressivo ao serviço da palavra e da sua mensagem política. Actual, relevante e pertinente… infelizmente.

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