quinta-feira, 22 de março de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #45





Por falar em soul, lembrei-me deste Ready For Us (2001) de uns tais Fug. Dos 11 temas, julgo que em apenas quatro se escuta voz humana. A essência é instrumental. Portanto, saltamos de um registo onde as letras e a voz que lhes deu cor eram o fundamental para um outro alicerçado, sobretudo, no talento musical de Tom Bailey. Estamos num território praticamente desconhecido onde a música vale por si só. Vale muito, diga-se, pois Ready For Us é das obras mais recomendáveis surgidas no séc. XXI. Estruturas construídas em torno de uma secção rítmica contemporânea, acompanhadas de arranjos de cordas ora épicos, ora românticos, ora elegíacos, ora trágicos. Ora, ora, ora… Aqui e acolá as guitarras oferecem um balanço contagiante, o corpo é puxado para o interior de paisagens clássicas, equilibradas, mas irresistivelmente sensuais. A voz de Jess Williams aparece no início, desaparece, regressa ao terceiro tema ajudando à respiração geral. É impressionante como um disco tão bom conseguiu passar tão despercebido. Talvez o problema tenha sido a dificuldade de classificar o que aqui se passa. Há toda uma cinematografia em incubação nestes temas, composições lançadas à terra como sementes espalhadas pelo vento, numa serenidade cuja lógica será apenas perceptível se nos empenharmos em expirar a ponto de nos ser possível reconquistar uma paz perdida, furtada, desfeita pelo caos do mundo. E não é por ser calmo que deixa de ser excitante. Antes pelo contrário.

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