quarta-feira, 21 de março de 2012

TARZAN DOS MACACOS




A personagem de Tarzan dos Macacos surgiu em 1912 pela pena de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), conhecendo a primeira adaptação a BD, com desenhos de Harold Rudolf Foster (1892-1982), em 1929. Pouco tem que ver com o aventureiro popularizado pelas séries de televisão ou com o romântico patético das versões cinematográficas, muito menos com o herói fantasioso que a Disney se encarregou de injectar na cabeça das criancinhas desprevenidas de todo o mundo. O Tarzan original não fala com os animais nem exerce sobre eles nenhum poder telepático, limita-se a comunicar com os símios que o adoptaram mas não anda com chimpanzés pela mão. A história passa-se em 1888 e reflecte toda uma série de questões, de resto muito em voga nos finais do século XIX, sobre a problemática da identidade e da natureza humana, sobre a construção da personalidade e a sua indissociabilidade do meio natural envolvente. Tarzan é filho de humanos abandonados nas enigmáticas florestas africanas. À época, o que se sabia acerca desses territórios estava contaminado por uma perspectiva ocidental ainda muito pouco expurgada de estereótipos mais resistentes que o próprio Tarzan. Curiosamente, Burroughs estabelece ao longo da sua narrativa vários paralelismos entre a vida na selva, com a sua moral subjugada aos instintos de sobrevivência, e a barbárie instalada entre “homens brancos amotinados”. Os verdadeiros pais de Tarzan são, precisamente, vítimas dessa barbárie. Acabam sozinhos no meio da floresta virgem por culpa da selvajaria reinante no navio que os transportava para uma colónia africana. Instalados numa cabana que os protegia de várias ameaças, têm um filho. Nada de idílico ali se passa. Tanto a mãe como o pai de Tarzan são vítimas, em circunstâncias diversas, de um grupo de ferozes símios. E o bebé acaba por ser adoptado por Kala, uma grande macaca. A criança vai crescendo no seio da sua nova família, enrijece os músculos e torna-se robusta, forte, híbrida. Esta hibridez é o fundamento de uma duplicidade identitária que caracterizará toda a personagem. Como muitas outras estranhas criaturas, Tarzan reconhece-se diferente daqueles entre os quais cresce, acha-se semelhante a outros com os quais se cruza, mas descobre-se único e singular na sua incomparável natureza. Não é macaco, mas também não é homem, sabe que Kala não é a sua mãe verdadeira, sabe que o seu pai fora um estranho homem branco que vivera na cabana entretanto revisitada, descobre mundos e seres para lá do seu círculo antropóide, descobre sentimentos que o distinguem das feras, a um passo que esteve de se tornar canibal, experiencia um autêntico conflito edipiano quando mata Kerchak, o macaco dos macacos entre o grupo onde crescera, e ascende a Rei dos Macacos, apaixona-se por uma mulher branca como ele, descobre as suas verdadeiras origens e resolve regressar à selva quando podia ter uma vida de Lord no mundo civilizado… A descoberta da identidade, no Tarzan original, não se dá com a descoberta do amor na figura de Jane, mas sim com o afastamento desta paixão branca e o regresso à selva africana. Este herói é, no fundo, aquele que regressa a si depois de se ter encontrado na perdição do amor civilizado, numa viagem paradoxal que nos deixa a todos perplexos perante os dúbios e intrincados caminhos da natureza humana. É uma espécie de cristão ao contrário, a sua identidade/natureza não é compatível com o objecto amado, por isso resolve afastar-se na direcção da selva onde, afinal, está o meio que lhe permite sentir-se autêntico, ou seja, o oposto de civilizado. Porque ser civilizado não é senão aprender a ser inautêntico, é aprender a amar de um modo domesticado. O que Tarzan nos ensina é que mais importante do que ter um lar é ser-se no lar. E ser, poder ser, é o último reduto dos verdadeiros heróis.

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