domingo, 29 de abril de 2012

EU E OUTRAS POESIAS





Longe de consensos, apesar dos elogios de Carlos Drummond de Andrade, entre outras autoridades da literatura brasileira, a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914) foi resistindo ao longo dos tempos como uma das mais lúgubres expressões da natureza humana produzidas em língua portuguesa. Que me recorde, por cá, só António Nobre (1867-1900) se lhe compara, embora o que neste surge como manifestação saudosista, naquele aparece enquanto pessimismo declarado. Distante dos meios culturais urbanos, Augusto dos Anjos nasceu e foi criado em Paraíba do Norte. Viveu numa propriedade familiar, o Engenho Pau d’Arco, até 1908. Foi educado pelo pai, um advogado que faleceu de paralisia cerebral em 1905, e manteve com a mãe, a qual padecia de graves crises nervosas, uma fortíssima ligação. O crescimento do poeta coincidiu, deste modo, com o declínio financeiro da família e a experiência da ruína em sentidos diversos. É natural que este ambiente tenha contribuído para a formação de uma personalidade sombria, a qual encontrará nos versos uma autêntica expressão das dores íntimas, do desalento e da desesperança que o perseguiram toda a vida.

Apelidado pelos colegas de Doutor Tristeza, Augusto dos Anjos foi descrito como histérico, neurasténico, desequilibrado, isolado, misantropo, neurótico, desajeitado, feio, doentio. Estreou-se nos versos ainda adolescente, publicando em jornais da época. O único livro editado em vida apareceu em 1912 com o título Eu. Esta é a 48ª edição da obra, aqui acompanhada por variadíssimos outros poemas (mais de 200 no total), na sua maioria sonetos, fac-símiles dos originais, uma cronologia biográfica, exaustivas notas explicativas, três ensaios de autoria diversa (António Houaiss, Orris Soares, Francisco Assis Barbosa), entre outras curiosidades. A polémica em torno de Eu instaurou-se desde a sua publicação. Considerado por uns de livro aberrante, foi elogiado por outros. Para tal contribuiu o carácter ainda hoje inclassificável desta poesia. Podemos falar de decadentismo sem que Augusto dos Anjos tenha sido um decadente:

DECADÊNCIA

Iguais às linhas perpendiculares
Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
Nas suas 33 vértebras gastas
Quase todas as pedras tumulares!

A frialdade dos círculos polares,
Em sucessivas atuações nefastas,
Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
Estragara-lhe os centros medulares!

Como quem quebra o objecto mais querido
E começa a apanhar piedosamente
Todas as microscópicas partículas,

Ele hoje vê que, após tudo perdido,
Só lhe restam agora o último dente
E a armação funerária das clavículas!

Paraíba, 1909


O que aqui está em evidência é o tema mais recorrente na poética de Augusto dos Anjos, ou seja, a “transitoriedade da matéria”, a presença da morte enquanto inescapável destino que tudo subjectiviza ao mesmo tempo que reclama sentido para uma vida, deste modo, tornada absurda. Podemos também evocar o satanismo de Baudelaire ou o onirismo de Edgar Allan Poe (o tema da amada morta aparece várias vezes na poesia do poeta brasileiro), mas nenhum destes conceitos classifica na perfeição o reflexo omnipresente da morte em cada verso de Augusto dos Anjos. O poema inicial de Eu, intitulado Monólogo de Uma Sombra, é uma orgia de vermes, sanguessugas, vírus, larvas, micróbios, bactérias, que evoca as lições de anatomia de Rembrandt. Logo a seguir, num soneto intitulado Agonia de um Filósofo, são chamados à liça os textos do antigo Egipto, a literatura sagrada hindu, Anaximandro de Mileto, Haeckel e Goethe, para daí retirar nenhum consolo. O que a consciência procura reside na própria consciência, o Tempo impondo-se como realidade última e a carne como ontologia derradeira. É a morte quem (co)manda a vida:

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


Nada a fazer, portanto. Não há como escapar aos apelos desesperados da consciência perante a voracidade do verme. Para dentro do poema o poeta traz um léxico improvável de doenças, putrefacções e sombras que não admira ter sido considerado de mau gosto: «Escarrar de um abismo noutro abismo, / Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, / Há mais filosofia neste escarro / Do que em toda a moral do Cristianismo!» (do longo poema As Cismas do Destino). Colocado na posição de ouvinte, imerso entre a realidade e a alucinação (o encontro com Poe é impressionante), o poeta exprime as suas visões; não evita, sem dúvida, filosofar quando nesse filosofar vive adormecida a verdade que o poema acorda. Não é propriamente um visionário, muito menos um místico, é um mártir entre a natureza humana que expõe a dor e desnuda o medo, dando a ver a sua intimidade sem máscaras, mostrando enquanto se mostra, recusando a hipocrisia de uma maquilhagem que pretende disfarçar o que nele, poeta, é verdade e alimento:

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d’Arco, 1906


Perdido em cismas filosóficas, dialogando com as fontes, olhando à sua volta e perscrutando na intimidade das coisas, Augusto dos Anjos não procurou negar ou disfarçar nos seus poemas aquilo que sentia. Por vezes deixa-nos curiosos («Não sou capaz de amar mulher alguma / Nem há mulher talvez capaz de amar-me», in Queixas Noturnas; «E eu nunca sairei desta Sodoma?!», in Insónia; «Mulher nenhuma afagará meu tronco!», in Minha Árvore) sobre as autênticas razões da sua poesia, uma necrofilia mística sem par (leia-se o poema À Mesa), um «poeta do hediondo» (p. 193) capaz de deixar desconfortáveis as próprias pedras sobre as quais seus poemas venham a ser declamados. Mas mais do que a tristeza e uma certa mistificação da dor, o que nele há de verdadeiramente tocante é a sensação de uma vida perdida sem ter sido possível vivê-la, uma sensação implícita em toda a obra e explícita em poemas que, ficando de fora do livro principal, convém manter debaixo de olho:

SENECTUDE PRECOCE

Envelheci. A cal da sepultura
Caiu por sobre a minha mocidade…
E eu que julgava em minha idealidade
Ver inda toda a geração futura!

Eu que julgava! Pois não é verdade?!
Hoje estou velho. Olha essa neve pura!
- Foi saudade? Foi dor? – Foi tanta agrura
Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!

Sei que durante toda a travessia
Da minha infância trágica, vivia,
Assim como uma casa abandonada.

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas…
Sei que na infância nunca tive auroras,
E afora disto, eu já nem sei mais nada!

Pau d’Arco, 1905



GOZO INSATISFEITO

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito…
Queimam-me o peito cáusticos de fogo,
Esta ânsia de absoluto desafogo
Abrange todo o círculo infinito.

Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a máquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo!

Pau d’Arco, 1906

quinta-feira, 26 de abril de 2012

CINEMA

AS PONTES DE MADISON COUNTY




Se é verdade que as casas começam a ser construídas por baixo, mentira não é que todas as vidas têm as suas paredes. Sempre que encontramos uma vida a descoberto sentimos medo e atrapalhação, ficamos sem saber onde pendurar os retratos. Um homem precisa de paredes onde pendurar os retratos, mesmo quando supõe poder passar bem sem casa própria, o aconchego infernal de um lar, essa gaiola acolhedora que impede os sonhos de voarem à altura das nuvens. Francesca tinha uma casa, era extremosa nos cuidados que punha em qualquer pormenor da vida doméstica. Tinha uma casa que lhe oferecia uma vida de pormenores, ou seja, um voo raso, quase rastejante, à altura de quem olha na terra as nuvens passarem no céu. Quando Robert se aproximou desorientado, ela tremeu enquanto lhe indicava a direcção certa para As Pontes de Madison County (1995). Desde o início que sentimos haver naquele estremecimento a perturbação de alguém que se prepara para atravessar a ponte, passar para o outro lado da margem sem saber o que vai encontrar. Quando ela abre o robe e deixa o vento refrescar-lhe o corpo suado, numa noite tórrida de verão, percebemos o desejo que acabara de ser acordado nas paredes do corpo. O estremecimento foi, precisamente, o acto de abrir os olhos, como se subitamente se abrissem janelas nas paredes da casa e o ar entrasse afastando o mofo doméstico, arejando a vida, oferecendo aos sonhos uma oportunidade. O que o ar oferece aos sonhos são penas que podem levantar o corpo da terra, erguendo-o à altura das nuvens onde vivem amotinados os sonhos. Depois ou troveja e nos escondemos atrás do medo ou deixamos o sol iluminar o caminho das sombras. A Francesca não restava outra oportunidade senão a segunda, deixar que as sombras fossem iluminadas pela luz de um encontro. Robert estava certo ao prever nesse encontro o grão essencial de uma vida. Ele sabia que uma vida inteira pode caber em quatro dias porque a vida se resume ao que o esquecimento não consome. Conseguimos imaginá-lo pelos anos adentro, a caminho da morte, recordando diariamente aqueles quatro dias, assim como acreditamos ter sido esse o destino de Francesca. A narrativa leva-nos a pensar isso mesmo quando revemos as fotografias, as cartas, as ofertas, os elementos materiais de uma união transcendente. Porque o que ali aconteceu, como a borboleta que não vemos, como o fervor que não sentimos, foi um encontro que extravasa os pormenores da vida doméstica, foi um sonho espreguiçado sob a sombra do tempo. O dramático desta relação não está na ausência perdurada até à hora da morte, ultrapassada pelo encontro das cinzas numa ponte que juntou as margens e uniu os corpos para não mais duplicar as vidas de ambos. Nada há de platónico nisto. O dramático desta relação está, afinal, em não ter também ela podido transformar-se numa vida de pormenores. Porque se acreditamos ser esse o destino de toda e qualquer vida doméstica, arrumada numa mesa posta e no silêncio que se intromete entre a prece e a refeição, não podemos deixar de acreditar que os sonhos serão apenas sonhos enquanto não forem concretizados. Sonhar é pois ficar na expectativa de como teria sido se não tivesse sido como foi, uma hesitação no semáforo, a porta por abrir, o sol lá fora e nós protegidos da chuva, afundando a dor em suposições, tentando agora o impossível: afastar para longe da memória o cheiro dos lugares, a voz da pele, a pele da pele, um vestido especial, o encontro dos corpos no primeiro toque, o som do silêncio quando alguém se aproxima, o sentido da caligrafia, o paladar ofertado por uma frase, por um gesto, pela dança das feridas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

PEELING




Dizer que Mário Soares precisa de protagonismo é o mesmo que dizer que a água tem sede. Já Cavaco tem toda a razão, devemos estar preocupados com a imagem de Portugal no estrangeiro. Para começar, devíamos enxotar do poder a corja que nos governa há décadas.

OS DONOS DE PORTUGAL

NÃO COMEMORO A DEMOCRACIA PORTUGUESA

Não comemoro a democracia portuguesa, comemoro o fim da ditadura. Comemoro o fim de algo que não vivi senão através da memória histórica transmitida pela família, pelas leituras, pelos depoimentos públicos, por um interesse particular de ir à procura e verificar: seria mesmo assim? A democracia portuguesa, nas suas jovens 38 primaveras, são 20 anos de Cavaco. Isso não é comemorável. É desprezável. A democracia portuguesa é um país hipotecado. É uma oligarquia onde os filhos dos ricos são protegidos e constantemente favorecidos, enquanto aqueles que nascem em meios sociais pobres ou em ambientes precários, desfavoráveis ao desenvolvimento, continuam a ter que debater-se contra todo o tipo de dificuldades para poderem, pelo menos, imaginar um futuro. A democracia portuguesa é um SNS constantemente ameaçado por gente para quem direitos são privilégios, gente ao serviço de uma tirania fiscalista que cobra impostos sobre impostos para nada oferecer a quem os paga. É uma Escola Pública a saque, com professores transformados em funcionários de um sistema kafkiano, desapossados do seu estatuto docente, onde ensinar se resume a avaliar meras competências técnicas. E assim se enchem Universidades com alunos que mal sabem ler e escrever, quanto mais interpretar um texto, sem qualquer cultura histórica e crítica, meros clones da caterva tecnocrática e insensível que nos governa. A democracia portuguesa é uma Justiça tendenciosa, lentíssima porque afundada numa teia infindável de procedimentos. Os processos arrastam-se no tempo, obstaculizam as execuções, tornam impossível a prática do Direito. É uma Justiça que mais facilmente incrimina um jovem por este andar a partilhar músicas do João Pedro Pais do que um trafulha como Isaltino Morais. É a Justiça da ASAE, de autoridades persecutórias, caçadores de multas que tornam qualquer actividade económica um constante pesadelo de infindáveis pormenores burocráticos. A democracia portuguesa não pôs fim a um Estado centralizado, corrupto e desavergonhadamente ladrão, que alimenta, «à custa do erário público, os influentes, os caciques e o seu interminável cortejo de amigos, protegidos, parentes e parasitas» (VPV). O nepotismo não foi ultrapassado, os amigos de seus amigos continuam, à custa do trabalho das massas, a distribuir cargos e benefícios sem qualquer tipo de vergonha. Todos os dias as notícias nos dão conta disso mesmo: «o homem mais rico de Portugal, Américo Amorim, foi eleito na terça-feira presidente do Conselho de Administração da Galp, e leva consigo a sua filha, Paula Ramos Amorim, que ocupará o cargo de administradora não-executiva, com direito a um salário anual superior aos 45 mil euros. Recorde-se que, em 2008, a filha de Américo Amorim foi notícia pela acusação de fraude fiscal, quando vendeu um palacete, no Porto, a Filomena Pinto da Costa». Isto só é possível na democracia portuguesa. A democracia portuguesa é este resumo diário de ladroagem, vigarices, conluios, favorecimentos, onde um povo nefelibata, inculto, incivilizado e abambalhado, por inveja atávica, mais facilmente se revolta contra si próprio do que se indigna contra quem está no poder e manda. Por isso se suicida e não mata, por isso come e cala, por isso se mantém serena, paciente, inactiva, apática e aburguesadamente encafuado entre as orelhas, com o rabinho entre as pernas e ordeiramente reservado, votando de 4 em 4 anos, ou menos se assim calhar, nos mesmos impostores de sempre, nos mesmos discursos de sempre, nas mesmas soluções de sempre, no mesmo vazio, na mesma falta de conteúdo, na mesma e repetida indignidade de presidentes que ora não falam de boca cheia, ora não comentam de boca vazia, ora se reservam ao silêncio de boca seca. Eu não comemoro esta democracia porque isto não é, definitivamente, democracia alguma. Isto é um sufoco de primeiros-ministros que nos sugerem a emigração para não terem que nos governar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

MIGUEL PORTAS 1958-2012




Das poucas vozes de esquerda que ouvi sempre com agrado. As de direita já nem ouço, perdoe-se-me o sectarismo. Comecei a acompanhá-lo no/na , comprei-lhe um livro de crónicas intitulado E o resto é paisagem, não perdi um episódio de Périplo, cheguei a parar o carro para o escutar com atenção na Antena 1. Nestas alturas é costume falar-se de perdas, eu prefiro lembrar os ganhos. Obrigado Miguel Portas, descanse em paz.

domingo, 22 de abril de 2012

POSSO VIVER?

O maior inimigo da democracia portuguesa é um vírus chamado Moralismo, causa de vertigens legalistas e de febres regulamentares que tanto minam a liberdade como a possibilidade de haver justiça. Com tantas leis, normas, regulamentos, decretos, revisões, vêem-se os portugueses numa teia burocrática que arrasta no tempo querelas das quais raramente se retiram conclusões. O Direito fica, assim, Torto, não funciona, emperra, derrapa, patina interminavelmente no terreno pantanoso das suas próprias aberrações. As exigências que um Hospital de Braga impõe aos seus funcionários, como a proibição de penteados extravagantes e outras idiotices do género, ou a ávida perseguição aos fumadores que praticamente transforma o acto de fumar num gesto terrorista, são apenas exemplos caricatos de um Portugal que tem na ASAE o modelo de uma sociedade hipocondríaca, higienista, doentiamente obcecada com um conceito de salubridade que a todo o momento resvala no excesso de zelo e em arbitrariedades várias facilmente confundíveis com abuso de poder. É uma sociedade vítima de uma certa forma de entender a Moral, uma Moral transformada pelo Estado num vírus que vem sendo propagado pelos cidadãos sob a capa de civismo. Mas o civismo é outra coisa, bem distinta deste frenesi regulamentar das democracias higienistas.

Pego no exemplo de um Projecto de Regulamento Interno de Condomínio ao qual tive acesso recentemente. São 11 páginas de proibições, prevendo multas e sanções várias para com os prevaricadores, aqueles que reiterem na prática de «comportamento anti-social (duas vezes ou mais)» [sic]. Os tontos que redigiram este projecto de regulamento pretendem, entre outras coisas, proibir «a permanência de empregados nos halls, escadas sociais, garagens, excepto quando em serviço aos condóminos». Que eu saiba, o único empregado do condomínio é uma porteira que, não por acaso, também é condómina. Isto já diz muito da mentalidade subjacente ao regulamento. Não quero, porém, tecer comentários acerca de pretensões que só nos podem deixar boquiabertos de tão incrédulos. Limitar-me-ei a destacar algumas das alinhas do dito:

2.5. Não é permitida a entrada a pessoas estranhas, excepto quando autorizadas por algum morador ou Condómino que as acompanhe, devendo esta autorização ser comunicada à Porteira ou a qualquer membro da Administração visando o controle e apuramento de factos eventualmente ocorridos neste período. Neste caso, o ingresso e a permanência dessas pessoas ficarão sob total responsabilidade do respectivo Condómino que os autorizou;
3.1. É proibido utilizar os elevadores quando em trajes de banho, sem camisa, ou de prática de desportos, bem como transportar bagagem, carga, objectos volumosos, equipamentos desportivos, bicicletas, veículos infantis e animais, que exceda em concreto a capacidade dos mesmos elevadores, que se encontra indicada no interior dos mesmos;
4.8. Fica proibida a guarda de animais, embrulhos, volumes, peças, acessórios ou qualquer outro tipo de material nas garagens;
4.9. Não é permitida a velocidade superior a 10km/h, nem o uso de buzinas, em toda a área do Condomínio [permito-me esclarecer que estamos a falar de um prédio, toda a área circundante é via pública];
7.2. É proibido lançar pelos tubos colectores de lixo objectos tais como: produtos químicos, munições, explosivos, pilhas, baterias, vidros, garrafas, entulhos, materiais sólidos de grande volume e tudo o mais que possa pôr em risco os equipamentos ou quem tiver de operá-los;
8.3. Fica proibido o uso da Piscina por portadores de moléstia infecto-contagiosa ou transmissível, podendo a Administração, quando entender necessário, exigir atestado médico dos usuários;
8.4. Os usuários da Piscina que se comportarem de forma atentatória à moral e aos bons costumes serão retirados da mesma;
8.16. Não será permitido o ingresso de pessoas em trajes desapropriados na Piscina;
9.2.1.4. Constitui dever dos Condóminos zelar pela moral e bons costumes;
9.2.1.7. Não alugar ou ceder as unidades e, ou autorizar a pessoas de vida duvidosa ou de maus costumes, nestes compreendidos a embriaguez e a toxicomania, em qualquer de suas formas;
9.2.1.15. É proibido colocar nas varandas, janelas ou áreas externas vasos, tapetes, cordas de roupas ou quaisquer outros objectos que prejudiquem a estética do Edifício ou que possam representar risco à segurança de pessoas e bens;
9.2.1.16. Estender ou secar roupas, tapetes, lençóis nas janelas ou em quaisquer outros lugares, visíveis ao exterior;
9.2.1.34. É obrigatória a comunicação imediata à Administração e à autoridade competente de ocorrência de qualquer moléstia infecto-contagiosa em morador do Edifício;
9.3.1.1.3. É obrigação de todos os funcionários cumprimentar respeitosamente os Condóminos, moradores e demais superiores hierárquicos;
9.3.1.1.4. As atitudes e as posturas relaxadas não são permitidas, principalmente nas dependências frequentadas pelos proprietários e/ou moradores;
9.3.1.1.5. Nenhum funcionário poderá ler jornais, revistas, livros ou ligar aparelhos sonoros durante o seu horário de trabalho;
9.4.2. É expressamente proibido falar em voz alta, proferir palavras de baixo calão, em qualquer dependência do Condomínio, bem como cantar, assobiar ou manifestações de despeito para os Condóminos;
9.7.2. A entrada de convidados no Edifício somente ocorrerá após o respectivo Condómino ter sido consultado pelo intercomunicador ou quando previamente autorizado pelo mesmo, através de comunicação à Porteira do Edifício, devendo o nome do visitante ser anotado em livro próprio, onde constarão o nome do visado, a pessoa que autorizou o ingresso do convidado, o horário da entrada e saída dos mesmos;
9.8.1. É permitida a permanência de animais de pequeno porte dentro de sua unidade, ficando limitada a um animal;
9.8.2. Não é permitida a permanência dos referidos animais domésticos dentro de sua unidade que atentem contra a segurança, bem-estar e tranquilidade dos demais Condóminos, em especial, quando a sua eventual agressividade se manifeste pelo continuado ladrar...

Resta esclarecer que se trata de um edifício em zona balnear, especialmente frequentado durante o Verão..ão...ão....aõ....aõ!!!!

sábado, 21 de abril de 2012

MANIFESTAÇÃO

Estarei presente na manifestação contra as touradas. Apareçam. No final, assaremos bifanas.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

DOUTOR TRISTEZA

Mão generosa fez-me chegar um livro (o livro) de Augusto dos Anjos, poeta brasileiro contemporâneo de Pessoa que, apesar de ainda distante daquilo a que por cá chamamos de modernismo, parece antecipar um certo sentido experimental no que conhecemos da poesia brasileira. Isso nota-se, sobretudo, numa estonteante riqueza vocabular, que alguns julgarão de mau gosto e outros entenderão como percursora da liberdade de linguagem que em parte caracteriza a modernidade. Só para dar um exemplo, o primeiro poema de Eu, o Monólogo de uma Sombra, é uma orgia de vermes, larvas, micróbios, vírus que resulta numa autópsia do tempo e da sua indelével corrosividade. No entanto, há como que uma estética da dor expressa nessa «elegia panteísta do Universo», uma estética da dor que torna bela a ruína e alegre a decadência. Augusto dos Anjos nasceu em Paraíba do Norte a 20 de Abril de1884. Descendente de famílias com propriedades, foi alimentado com leite de escrava e educado pelo pai, homem erudito, leitor de Marx e simpatizante das ideias abolicionistas. Terá sido ao pai que Augusto foi herdar as suas características mais conhecidas: a misantropia e a hipocondria. Cresceu num ambiente culto, mas em franca decadência. Assistiu à ruína financeira da família e à decadência física do pai, falecido em 1905. Supõe-se que o primeiro poema tenha sido escrito em 1899, um soneto intitulado Saudade:

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noute quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida
.

Convenhamos que, para um jovem de 15 anos, não eram estes versos saudável prenúncio. Eis o retrato do poeta deixado aos vindouros: feio, ausente de festas e convívios, isolado, misantropo, neurasténico, desequilibrado, histérico. «Homem de poucos amigos, enrustido, abrindo-se só com os íntimos, e com estes afável e prestativo, sua personalidade, contudo forte, como que se apagava diante de estranhos. Emudecia» (Francisco de Assis Barbosa). Não se lhe conhecem grandes nem pequenas paixões, apenas uma alcunha entre colegas de Faculdade, o Doutor Tristeza, e outra atribuída pelo crítico dos seus primeiros versos publicados, Poeta Raquítico. Terminado o curso de Direito, elegeu a profissão de professor por razões meramente materiais. Já casado, sem conseguir vingar junto da sociedade de Paraíba, decidiu emigrar para o Rio de Janeiro. Chegou em Outubro de 1910. No Rio continuou sempre a "vender aulas", vivendo em condições precárias, perdendo um filho nascido prematuro, escrevendo poemas ora desprezados, ora ignorados. Publicou o seu único livro, intitulado Eu (1912), com a ajuda do irmão. O livro foi recebido sem entusiasmo, apesar dos esforços elogiosos de alguns amigos. O poeta sentiu-se incompreendido e ao isolamento físico acabou por corresponder um mais profundo isolamento estético. «No Rio de Janeiro, ao contrário do que havia imaginado, as coisas não se processavam de modo diverso que na Paraíba. Apenas em ponto maior, tudo se reproduzia exactamente como na província» (idem). Em 1914 conseguiu um lugar no Grupo Escolar de Leopoldina, em Minas Gerais. Para aí se transferiu deixando para trás três anos de Rio de Janeiro passados em dez casas de diferentes bairros. Morreu, vítima de uma congestão pulmonar, a 12 de Novembro de 1914. Ficaram os poemas:

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas-
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

domingo, 15 de abril de 2012

ESTRUME

Camarada Van Zeller, a semana que passou foi rica em faits divers. O país parece um arraial de coscuvilhice, uma festa na Parque Escolar com suas picarescas personagens. Ali a histérica, acolá a carpideira, além a paranóica. E na sombra, eu e o camarada, a contar tostões para fazermos face às despesas. Queixa-se a histérica das restrições ao fumo, uma perseguição proibitiva sem precedentes, uma ditadura da salubridade só comparável à tirania fiscalista que vai torturando os portugueses com o beneplácito duma infinda paciência e viagens a Cabo Verde nas férias da Páscoa. Pois que anda o Governo preocupado com os fumadores passivos, nomeadamente com as nossas criancinhas, vítimas de negligência familiar e de abusos papais. Talvez fosse preferível fazermos como os chineses, nossos estimáveis parceiros económicos, e fechá-las em fábricas onde poderiam brincar aos operários a bem do crescimento económico. Ou então entregá-las à Casa Pia, para servirem de modelo em vídeos caseiros de domingo à tarde. Não sendo assim, proíbe-se os progenitores portugueses de fumarem nos seus veículos quando acompanhados de crianças, os filhos do Estado português.

É preciso entender isto, camarada, as minhas filhas não são as minhas filhas, são as filhas do Estado português que, por obra e graça do Espírito Santo, as concebeu, pariu e protege. A mim cabe-me apenas criá-las segundo os ditames do legislador, produzir para poder fazer face às despesas. Qualquer dia, de tanto paternalismo proteccionista, ainda veremos as nossas criancinhas de volante na mão e cigarro na boca enquanto, no bando de trás, devidamente acondicionados, seguirão os terríveis pais da nação, a maior ameaça ao Sistema Nacional de Saúde alguma vez conhecida. Por coincidência, ou talvez não, enquanto se protegem os petizes fecham-se maternidades. Como diria o outro, isto anda tudo ligado. E disso se queixa a carpideira. Não percebo nada de maternidades, só fui pai duas vezes e em nenhuma delas tive que parir. Mas o Estado lá sabe e terá as suas razões, o Estado está farto de parir. Sobretudo abortos. Assim como assado, se havemos de sujeitar as crianças ao fumo dos pais o melhor é mesmo impedi-las de nascer. Fechando maternidades. Mais e melhor se funcionarem bem.

De resto, é cultura muito portuguesa e deveras respeitável. Os portugueses não gostam do que têm de bom. Sempre que descobrem uma qualidade, algo de agradável e positivo, algo que funciona bem nas suas estruturas, pessoas, instituições, não descansam enquanto não descobrem algo equivalente no estrangeiro, mas muito melhor, para poderem dizer mal de si próprios. Os portugueses respiram de dizer mal de si próprios, e só expiram em sentido contrário quando alguém de fora se encarrega de fazer o que todos os dias eles fazem cá dentro. Não foi assim com os Finlandeses? Quem tem razão é a paranóica, essa astuta coscuvilheira que já topou os elos obscuros, as ligações invisíveis, a trama sombria que está a ser engendrada debaixo dos olhos de todos nós, cegos que andamos a contar tostões para fazermos face às despesas. Ora notem bem: na mesma semana ficamos a saber do fecho da Maternidade Alfredo da Costa, da proibição de fumar junto às criancinhas indefesas e do aumento da idade da reforma para os 67 anos. Não haverá nestas três notícias uma insuspeita ligação?

É tudo uma questão de poupança, uma fórmula cogitada em Excel para a gestão do país ou, como veremos, de algumas pessoas do país que, bem vistas as coisas, são elas mesmas o país inteiro porque o resto, o lúmpen, é resto, não conta, escumalha, estrume. Vamos, assim como quem suspende a democracia, fechar uma maternidade. É um gesto simbólico. Fecha-se a torneira. Barra-se a natalidade. Enquanto tal, protegem-se os que cá estão, os já nascidos, as indefesas crianças que serão a mão-de-obra de amanhã. Garante-se-lhes uma vida saudável e robustez física, investindo, desse modo, nas suas futuras capacidades produtivas. Serão escravos fortes e agradecidos pelo proteccionismo do Estado, boas máquinas de produção, contribuintes perfeitos, branquinhos, alvos, puros, pacientes, mecanizados, submissos. E poderão produzir, trabalhar, descontar já não até aos 67 anos, mas até aos 76, a idade da reforma nesse tempo vindouro que será o deles. Ora, isto permitirá garantir o mais importante de tudo, o fundamental, isto é, a reforma da Presidenta da Assembleia da República e demais conformes:

A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, recebe 7.255 euros de pensão por dez anos de trabalho como juíza do Tribunal Constitucional. Por não poder acumular esse valor com o ordenado de presidente do Parlamento, Assunção Esteves abdicou de receber pelo exercício do actual cargo, cujo salário é de 5.219,15 euros. Mantém, no entanto, o direito a ajudas de custo no valor de 2.133 euros. Assunção Esteves pôde reformar-se muito cedo, aos 42 anos, porque a lei de então contemplava um regime muito favorável para todos os juízes do Tribunal Constitucional. Podiam aposentar-se com 12 anos de serviço, independentemente da idade, ou com 40 anos de idade e dez anos de serviço. No Parlamento, mais 11 deputados e ex-deputados pediram uma subvenção vitalícia por terem exercido funções durante mais de 12 anos. As subvenções vitalícias dos deputados acabaram em 2005, mas o regime transitório faz com que ainda haja deputados mais antigos com esse direito. (fonte)

E é isto que importa, não mais do que isto, proteger essas criancinhas chamadas de deputados, presidentes e presidentas, garantir a felicidade dessa gente, trabalhar para que possam ser alegres, saudáveis, felizes e robustos, protegê-los do fumo de todos nós, protegê-los da poluição gerada pela nossa existência, paciente e submissa existência, existência- estrume, estrume-existência.

domingo, 8 de abril de 2012

OPEN RANGE




De passagem pelo canal Hollywood, revi ontem Open Range (2003), um filme de cowboys (literalmente) realizado por Kevin Costner. Não é tão bom quanto Dances With Wolves (1990), mas é infinitamente melhor que The Postman (1997). E tem Robert Duvall no elenco, um dos enormes que o cinema norte-americano produziu. Fui espreitar a filmografia do homem e é impressionante a quantidade de papéis secundários que foram atribuídos a alguém que sempre que aparece enche um ecrã. É vê-lo em The Apostle (1997) ou Apocalypse Now (1979). Em Open Range volta a ter um desempenho primoroso. É a Boss Spearman que vou buscar a minha mensagem pascal, proferida depois de lhe terem sido pedidas algumas palavras no enterro de um amigo:

You want to speak with the man upstairs, go on and do it. I'll stand right here and listen, hat in hand, but I ain't talking to that son of a bitch. And I'll be holding a grudge for him letting this befall a sweet kid like Mose.

sábado, 7 de abril de 2012

CASTIGO DO VÍCIO

Camarada Van Zeller, o manuel a. domingos, comparsa das beiras que um dia se me chegou com poemas no bolso, está a comemorar dez anos, como sói dizer-se, de actividade literária. E pergunta você: que tenho eu com isso? Cale-se e ouça. Numa ânsia de arrumações, mandando para os caixotes dezenas de livros já lidos, reorganizando as estantes, vasculhando papéis velhos, deparando-me com dedicatórias inchadas da admiração e da cumplicidade de gente que hoje nem me fala, constatei que também eu comemoro, não dez, mas dezoito anos de escrita publicada. Tenho que começar a pensar em organizar a papelada para, daqui a dois anos, editar os problemas reunidos, com alguns inéditos pelo meio que logrem convencer um editor e não afastem o público por completo.

É verdade que o primeiro livro só apareceu em 1997, com direito a desatenção que só não foi geral porque uma alma caridosa do jornal Blitz fez o frete de mencionar o canhenho em indevido destaque. Mas Março de 1994 foi, para todos os efeitos, a data da estreia. Deu-se o caso em revista local, patrocinada pela edilidade da região e agências imobiliárias, com direito a crónica de página inteira, dois poemas tão péssimos que custa acreditar e mais dois, em extrema coerência com os primeiros, anunciando um livro que, felizmente, nunca viu a luz do dia. O director da publicação era o Mário Calado Pedro, entretanto apanhado pela teia dos humores à portuguesa. Eu era o director adjunto. Pois que foi na qualidade de adjunto que me estreei, camarada Van Zeller. Dos poemas não falo, estão enterrados sob o próprio enterro. Mas a crónica merece-me duas referências.

Primeiro, tem o mérito de aí ser citado o impagável A. Dasilva O.: «a política é cada vez mais um bordel onde a teoria geral do estado é estéril» (dito respigado num perfil aparecido, à época, no jornal Sete); segundo, foi rematada a prosa com uma evocação de Bocage: «é castigo do vício o próprio vício». O resto é prosa de saloio armado ao pingarelho. Seria de esperar, pois então, que passados todos estes anos algo tivesse acontecido. Nem por isso. O mais que consegui foi amealhar 350 followers num weblog onde assino «textos cultos, exigentes e incisivos» (palavra de Mexia no Atual de 09 de Julho de 2011, para que conste) que me valeram uma menção honrosa no balanço da primeira década do século XXI, levado a cabo por Eduardo Pitta na revista LER de Dezembro de 2009. Categoria.

Seja como for, dezoito anos é fruta. Pode-se argumentar que eu já devia ter juízo. A questão é que o país nunca esteve para tanto. E é mais que sabido que Bocage estava equivocado, por estas bandas a patologia compensa. Veja-se, a título de exemplo, o caso Teixeira Pinto, outro acólito de uma enorme procissão revelada pelos governos do professor Carranca. A confiar nas notícias, saiu de um Governo para um Banco (transacção costumeira), abandonou o banco com indemnização na ordem dos 10 milhões e pensão anual de 500 mil garantida até ao último dos seus dias, tendo passado de imediato à reforma em função de relatório de junta médica. Quis o destino que o enfermo, já depois de reformado, fundasse um grupo editorial, presidisse uma associação de editores e livreiros, conselhos fiscais disto e daquilo, assembleias gerais de mais não sei o quê, integrasse conselhos consultivos de A e de B e de C… Uma estafadela. Diz-se também que é defensor da liberalização das drogas. A ex-mulher o ouça.

PUTA QUE OS PARIU! A BIOGRAFIA DE LUIZ PACHECO





Não era preciso ter lido Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco (Tinta-da-China, Novembro de 2011) — o artigo definido a antes do substantivo biografia é de uma saudável presunção — para perceber que o meio literário de hoje pouco mudou relativamente ao dos tempos da ditadura. Mudaram os tempos, não se mudaram as vontades. Na realidade, nos tempos da ditadura também não era diferente dos tempos da monarquia. Fialho de Almeida queixava-se do mesmo que Luiz Pacheco fez questão de denunciar. E antes de Fialho, Tomás Pinto Brandão. E antes deste, Camões. O problema será, então, cultural. Ainda que o chamado meio literário (uma partícula do meio artístico) faça questão de afirmar-se pela sua marginalidade relativamente ao meio social, o que observamos é uma adopção dos vícios apontados a este pelos actores daquele: elogio mútuo, arrivismo, jogos de interesses, intrigas palacianas (mesmo quando os palácios se transformam em currais), uma oligarquia movida por um nepotismo descarado. João Pedro George (n. 1972), sociólogo de formação, tem-se ocupado destes temas com méritos reconhecidos. Neste livro parte do exemplo outorgado por um sujeito particular para considerações gerais acerca do meio onde esse mesmo sujeito se moveu, seguindo, pois, uma lógica indutiva que não se furta a exaustiva fundamentação. Ao contrário de outras biografias, de cariz mais literário, em tom encomiástico ou crítico, esta é uma «biografia sociológica» que tem na sua origem uma pretensão específica: «analisar alguns fenómenos literários partindo da singularidade do percurso de um indivíduo» (p. 529). A vida do objecto de análise aparece, deste modo, organizada em grandes blocos temáticos: origens familiares, vida amorosa, actividade crítica, actividade editorial, afirmação enquanto escritor, os processos, as patologias, os últimos dias, o reconhecimento social. A grande vantagem desta organização é a possibilidade de explorar e aprofundar isoladamente cada uma das dimensões do indivíduo na sua relação com o meio. A desvantagem é um efeito de repetição ao qual a obra não escapa. Em capítulos diversos retomam-se situações já anteriormente abordadas, por vezes dificultando a leitura com imensas citações que não raro descambam para uma confusão de vozes nem sempre fácil de gerir. No entanto, esta não é uma obra fácil (nem isso era suposto). Ainda que os aspectos picarescos, anedóticos, cómicos ou tragicómicos da vida do visado possam estimular a procura do livro, cabe esclarecer que temos em mãos uma obra meticulosa e exigente no âmbito da sociologia cultural. Neste sentido, importa sublinhar a relevância de alguns aspectos que o estudo fundamenta: o esforço de Luiz Pacheco na sua afirmação enquanto escritor profissional resulta, em grande parte, de uma interiorização das frustrações patentes no contexto familiar; a sua grande obra foi a sua vida, a qual se confunde com os textos produzidos numa constante resistência aos diferentes agentes de socialização; a identidade de escritor maldito provém de uma paradoxal integração do autor num meio que legitima a marginalidade e, de certa forma, até a promove. O último capítulo deste livro é especialmente interessante na forma como aborda as representações identitárias no mundo dito literário. Pacheco não era marginal porque desde muito cedo penetrou o meio, ainda que em permanente relação de conflito com o mesmo. Esta relação de conflito acabou por lhe ser favorável em termos de afirmação de uma identidade, a do escritor maldito: «Colocar-se fora do meio ou das suas regiões dominantes é uma forma de estabelecer uma distância estando ao mesmo tempo dentro e fora. Dentro, porque se trata de agentes activos no meio, fora, porque, no discurso, reproduz-se uma das ideias necessárias para entrar — mesmo que superficialmente — no regime de singularidade» (p. 500). Em suma, «quanto mais marginal, mais central» (p. 501). O excêntrico/maldito é já uma personagem criada por aqueles que buscam modelos, símbolos, referências para a afirmação da sua independência. Entendidas as regras do jogo, talvez não seja má ideia termos em conta que o grande drama, se assim podemos dizer, de Luiz Pacheco foi a intransigência numa atitude coerente face às decisões tomadas desde muito cedo. Repare-se que as origens burguesas faziam prever tudo menos aquilo que sucedeu. Essa ruptura começa, ou pelo menos tem aí um momento simbólico, com o pedido de demissão da Inspecção dos Espectáculos, a 6 de Julho de 1959, após 15 anos de exercício de uma actividade ligada aos modelos de censura praticados pelo Estado de então. Com este gesto Luiz Pacheco iniciará um percurso na demanda da coerência, sobre o qual pesavam já 34 anos (nasceu em 1925) de existência em contradição consigo próprio e com a ambição de uma liberdade, autonomia e independência que extravasavam as normais convenções sociais. O resto é uma vida que esbofeteia a todo o momento as desculpas e os subterfúgios geralmente invocados por aqueles que, pretendendo ser livres (e também livros), não agem/arriscam para lá do razoável.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

PUTA QUE OS PARIU!

A páginas trezentas sinto necessidade de pausar. A biografia de Luiz Pacheco (1925-2008) não é remédio que se recomende a alma burguesa em permanente estado de negação. Nem as origens, de filho único nascido em ambiente dito favorável, talvez não tanto devido às zangas entre pai e mãe, permitem um distanciamento que nos desvie das repetidas bofetadas que a história nos vai dando. João Pedro George (n. 1972) sublinha a raiz sociológica que separa este trabalho de uma mera reconstituição biográfica em estilo encomiástico, mas não foge aos detalhes de uma vida transformada em obra – entrando por ela adentro, especulando o menos possível, fundamentando exaustivamente com citações do visado ou depoimentos alheios (menos), traçando linhas que nos permitem reconstituir percursos e compreender opções. Tendo em conta a enormidade de material disponível, devidamente inventariado em cinquenta páginas de fontes bibliográficas, supomos que o difícil tenha sido escolher, optar, organizar, colar. Dividir a obra em vários domínios de análise, partindo a história de vida em blocos onde essa mesma vida se foi consumando e consumindo, é opção com inegáveis virtudes mas alguns vícios, o pior dos quais o risco, nem sempre superado, da repetição (sublinhados, citações, casos, pormenores). Expurgados os elementos anedóticos, caricatos, risíveis, picarescos, por demais divulgados e promovidos, fica o eco de uma seriedade intransigente no tratamento ideológico da família (uma tribo de oito filhos e variadíssimas paixões) e da coisa cultural, assim como uma obstinada, tanto quanto desenfreada, busca de afirmação no meio literário português, o qual, paradoxalmente, foi sempre alvo das mais acirradas críticas pachecais: «a coesão da família (a par dos projectos literários) era uma das suas maiores preocupação» (p. 142, sic). São muitas as dúvidas que emergem ao longo da leitura: como pôde um corpo frágil e débil hospedar personalidade tão determinada e intransigente? Como foi possível conciliar essa intransigência ética (não moral) com uma flexibilidade e jogo de anca a que obrigavam a necessidade e as privações? Parece haver qualquer coisa de patológico na personalidade de Luiz Pacheco, uma espécie de orgulho desmesurado que deixaremos a cargo dos tratadores da psique, ao mesmo tempo que lhe admiramos a reivindicação de uma liberdade que só conhece paralelo na velha tradição cínica (uma vida de cão/gente também se aplica à vida de Pacheco). Desprendimento, indigência, vagabundagem, desinteresse pelas coisas materiais foram, afinal, as únicas leis respeitadas por Diógenes de Sínope e séquitos, tendo sempre por mira a afirmação de uma liberdade sem escusas (leia-se O Caso do Pai-Chocadeira, memorável manifesto anti-desculpas-esfarrapadas). E no entanto estamos a falar de um jovem aluno regrado, gaguejante (inseguro? nervoso?), que abandonou a vida académica por desinteresse familiar e inadaptação (desculpa? orgulho?), não seguiu em viagem recreativa para o Ultramar por não saber nadar, ficou-se por Roma numa fuga para o Egipto, engatava jovens mulheres iletradas (mais fáceis?), inspector de um organismo pidesco como o SNI durante quinze anos… A figura do pai (escritor falhado?) terá sido determinante na formação da personalidade de Luiz Pacheco, o qual terá projectado em si uma vontade de afirmação daquilo que o pai nunca conseguiu ser. Especulamos. Nos subterrâneos da vida íntima, ou o contrário, não sabemos, uma desmedida e desbocada ambição, uma vontade de dar nas vistas, desbravar um terreno de intrigas, polémicas fúteis, ânsia de poder e de admiração, ataques de orgulho contra capelinhas e disfarces ideológicos com o mesmo horizonte em vista: o frugal prestígio que um país de saloios como o nosso tem para oferecer. Tudo isto como se por fora de uma situação que alimenta(va) tanto os seus carrascos como as suas vítimas. Não é diferente hoje em dia, mudaram apenas os nomes (às vezes nem isso). O ambiente balofo de comunidade, com suas manigâncias e atençõezinhas, mantém-se inalterado, embora agora seja apregoado e desavergonhadamente fomentado como se fosse a mais natural das inevitabilidades. Retomemos a leitura.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

NOVA TEORIA DO MAL

Miguel Real (n. 1953) confessa que este livro teve na sua origem «a revolta moral contra o estado de vida degradado, autenticamente terceiro-mundista, de mais de 2 milhões de habitantes de Portugal» (p. 12). Sem pretender questionar a legitimidade da comparação, parece-me algo exagerado trazer o chamado Terceiro Mundo (categoria quotidianamente deturpada do seu sentido original) à realidade portuguesa. Seja como for, o ambiente vivido por terras lusas vai sendo propício a este género de comparações. E aquilo que o título Nova Teoria do Mal (Fevereiro de 2012) sugere podia muito bem fundamentar-se nesse ambiente, directamente relacionado com a degradação do modo de vida de milhões de cidadãos nas democracias ocidentais, ou numa outra qualquer realidade internacional: quer na emergência de novas potências económicas à custa de uma escravatura disfarçada de capacidade de consumo, quer na globalização do capitalismo selvagem, quer no agravamento das assimetrias que vão tornando uma ínfima parte da população mundial cada vez mais rica e uma imensa maioria tendencialmente mais miserável.

Basta atentarmo-nos a esse teatro hipócrita da realpolitik, que obriga a apertos de mão entre líderes democraticamente eleitos (defensores de direitos humanos supostamente universais) e tiranos perpetrados no poder pela força das armas (responsáveis pelas mais cruéis violentações da dignidade humana), para aceitarmos como pertinente e até desejável uma nova teoria do mal. Temos, então, um ensaio organizado sob a forma de tratado, nem fragmentário, nem aforístico, onde uma série de deduções agrupadas por temáticas ajudam a reflectir o problema do mal, arriscam previsões e propõem novos paradigmas de pensamento. O autor parte de uma distinção entre corpo, mente e espírito, fundamentada em teses algo simplistas da antropologia filosófica, para concluir que «o mal, contemporâneo da evolução do homem, é, assim, anterior ao bem, que se desenvolve biológica e socialmente contra ele» (p. 37). Esta contextualização cronológica do problema não é inocente. A partir do momento em que aceitamos a primazia do mal relativamente ao bem, vemo-nos obrigados a questionar a própria natureza humana. É isso que Real faz, afirmando o mal enquanto «essência do mundo» e sintetizando parte das suas teses em três parágrafos que convém citar na íntegra:

«3.8. O mal existe, é universal e não pode ser eliminado. As intensidades do mal são variáveis e o seu grau de afectação (as consequências) relativo. A sua existência, porém, é absoluta.
3.9. Neste sentido, o homem é por natureza mau, como todos os seres vivos, dominado pelos desejos ou pulsões de posse e domínio, expressão analógica da adaptação biológica nos restantes seres vivos.
3.10. A humanidade do homem reside na capacidade de fazer o bem, diminuindo, controlando ou evitando o mal. A morte é absoluta, universal e substancial; aumentar a esperança média de vida dos povos e das pessoas é um acto bom»
(p. 112, sublinhados nossos)

Abandonado o paradigma judaico-cristão de um Deus supremamente bom, criador de todas as cosias, um Deus, segundo Miguel Real, moribundo e em franca decadência, suporte de religiões às quais devemos «orgias de sangue» e a banalização do mal, parece querer perpetuar-se nesta tese a ideia do homem enquanto hóspede do mal. No entanto, não é bem assim. Porque ser mau por natureza não é o mesmo que ter sido contaminado, através de forças obscuras ou pela degenerescência social, pelo vírus do mal. Reconhecer o mal na natureza humana é admitir um princípio cuja validade é tão improvável/discutível quanto a proposição inversa, ou seja, afirmar que o homem é por natureza mau vale tanto quanto afirmar que ele é por natureza bom. Isto é, vale pouco. E o que fica por explicar é como podemos atribuir à natureza do homem uma categoria que está única e exclusivamente dependente da sua capacidade de avaliar a realidade. Miguel Real não o faz, essa é a sua grande lacuna. Será aceitável a pressuposição de que naturalmente os seres possam ser algo que resulta unicamente de uma abstracção do pensamento humano?

Nem boa, nem má, a Natureza talvez simplesmente seja. O que a tornará boa ou má será a consciência do outro, não apenas motivada pelo “instinto de rebanho” (Nietzsche), mas muito mais na base de uma percepção do direito à afirmação individual. O resto caberá à Política que, como afirma o autor desta Nova Teoria, «é a ciência, não de fazer o bem, mas de evitar, prevenir ou minimizar o mal» (p. 181). Ensina-nos a História que de boas intenções está o Inferno cheio e de tanto pretenderem fazer o bem Estados diversos chacinaram milhões com suas políticas de bondade, instaurando a barbárie, regrando o caos, atribuíndo à crueldade uma lógica éticamente insuportável. Neste sentido, o livro de Miguel Real é um interessante apelo à reflexão, uma reflexão que nos ajuda a libertar mais um pouco daquilo a que o próprio chama um «estado de infantilidade e barbárie» da humanidade. Dito de outro modo, a darmos um passo na direcção de um estado expurgado do “indiferentismo, passividade ou permissividade” que vão justificando no Poder uma oligarquia de tecnocratas «totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade» (p. 19).