quarta-feira, 4 de abril de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #46





Na confusa família a que é costume dar-se o nome de spoken word este é, muito provavelmente, o filho mais desassossegado. Mas é também o mais intenso, algo que não deve causar espanto. A poesia assinada por Nicole Blackman, voz doce e aveludada como um bom vinho do Douro, oferece textos sufocantes sobre crimes kafkianos e situações existenciais claustrofóbicas, uma feeria alucinante de agressões, traumas, recalcamentos puxados à superfície em sessão psicanalítica. O suporte musical tem no comando Anton Fier (bateria/ programações) com a cumplicidade de Knox Chandler nas guitarras ou Bill Laswell no baixo. No entanto, importa destacar os ritmos ora fantasmagóricos, ora veementes, de acordo com as narrativas e em absoluta sintonia com a voz da declamadora. Talvez um dia alguém se ocupe da genealogia destas experiências musicais, mas convém não perder do horizonte a influência de Laurie Anderson e Anne Clark. Ainda assim, os The Golden Palominos estão na origem de qualquer coisa (o primeiro álbum é de 1983) que logrou em Dead Inside (1996) uma singularidade sem precedentes. Em certos momentos, como no tema The Ambitions Are, chega a ser agressivo de tão fotográfico - pese embora a evocação de anjos em fúria, depenados e rasteiros. O contraste entre os ritmos dançantes e o cenário desolador de uma cidade em queda pode causar danos em corações desprevenidos. Sai a ganhar a pele, como sempre nestas coisas. Sugere versos saídos do lixo e ao lixo regressados:



Uma pequena matilha
fareja restos no lixo,
dobram-se, empurram-se,
afastam-se, a ver quem
mete primeiro a boca
nas sobras dum jantar
mais olhos que barriga.
Enquanto nos aproximamos
daquela confusão de patas
em fúria, com os olhos postos
no nevoeiro da dúvida,
não foi de espanto
mas de raiva a constatação:
era de homens a matilha.

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