sábado, 14 de abril de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #48





E porque isto anda tudo ligado, toma lá do Iggy Pop. Podia ser outro, mas vai este: American Caesar (1993). Retrato implacável de uma sociedade fútil, perdida num labirinto de inutilidades, maquilhada com as bandeiras do supérfluo e da abundância, vivendo numa opulência que turva as vistas e atrofia os neurónios. É aquilo a que se chama um álbum de guitarras, rudes e imediatas como convém a um irónico grito de guerra contra imperialismos emergentes. Por vezes lá aparece a luzita pop ao fundo dum túnel rochoso, balada a inspirar os bons sentimentos, mas sempre em tom despojado e com as emoções adormecidas sob a sombra clara de uma linguagem simples: I didn’t have too much to offer / You didn’t have much to expect. — porque o problema está precisamente nos equívocos gerados entre as expectativas e as acções concretas. Um homem é mais o que faz ou o que esperam dele? Percebemos na política advogada pela iguana uma inclinação para o carácter trapaceiro dos junkies, aqueles de quem nada se espera a não ser que sejam eles próprios. Tal como são. Há aqui um tema que podia ser banda sonora para vidas inteiras. Chama-se Fuckin’ Alone. Sem que o seja por definição (as violas acústicas e a percussão tribal não o permitem), acaba por se transformar no mais punk dos temas de Iggy Pop (a solo, claro). Registo imediato, impressionista e de uma genuinidade que justificam a alusão. Não sei, por mim noto nestes temas um desabafo que os desvia de uma imensa maioria preocupadíssima, lá está, com as expectativas.

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