sábado, 28 de abril de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #49





Muito se escreve e muito se lê sobre o ininteligível. É assim com o amor, com Deus, com a fonte de Duchamp ou com as peças para piano de John Cage. Perante quatro minutos e vinte e três segundos de uma primaveril ausência de som, a atitude mais inteligente talvez fosse a de Jacques-Yves Cousteau: mergulhar no mundo do silêncio e por ali andar a captar as cores submersas do desconhecido. Mas John Cage troca-nos as voltas, revolve a lógica do pensamento, obriga-nos a repensar a realidade. Subitamente um piano transforma-se num instrumento de precursão, a música de Viena aterra entre as tribos da Somália, sentimos uma vibração estranha, provavelmente semelhante à dos monges da “Grande Cartuxa” sempre que agitam as cordas vocais no interior da mudez adoptada. A questão que se nos coloca é sobre a natureza do objecto-piano, é sobre a natureza de qualquer objecto privado-afastado-desviado da sua função original, aquela que fundou a sua existência. E questionamos, na mais radical das hipóteses: deixa um corpo de ser corpo se for desviado da sua função? Não consiste a arte, precisamente, na manipulação da função original das coisas? Não consiste a arte, precisamente, na utilização do inútil? Não sei se está o leitor a acompanhar o raciocínio. Os pianos de Cage são como os objectos de Duchamp, questionam a tradição estética e transportam-nos para terrenos que nunca poderão tornar-se paradigmas (porque eles próprios vivem de subverter o paradigma). Agrada-me, no entanto, como uma gargalhada irreproduzível, esta ideia de uma música dependente da manipulação do instrumento, esta transferência do talento do intérprete para uma mui contemporânea arte da manipulação. Talvez seja isto que faz de John Cage um visionário, uma espécie de místico da dança moderna, com os nervos todos sintonizados no ritmo, na dinâmica, nos tempos. Porque a verdade é esta: já ouvi sevilhanas a produzirem mais melodia com castanholas do que este Markus Hinterhäuser a interpretar brilhantemente os Works for Prepared Piano (1998).

2 comentários:

ZMB disse...

A peça chama-se 4min e 33seg, e não 23 segundos.
Acaba por ser uma diferença importante quando escutada ao vivo.
Tive a oportunidade de há uns anos em Serralves a escutar na interpretação da cantora Joan laBarbara.
imagine uma plateia a ouvir esta peça que é originalmente dividida em três partes, separadas por um movimento rápido de respiração executado pela cantora com um cronómetro na mão.
Nos intervalos o silêncio? sim talvez porque sem partitura.
mas não um silêncio absoluto porque se podiam ouvir as respirações do público, um silêncio insurdecedor portanto!

hmbf disse...

Obrigado ZMB. Há várias interpretações dessa peça no Youtube, todas elas muito diferentes umas das outras. O "sonlêncio" também tem as suas variações. :-)