sábado, 21 de abril de 2012

FETO MALSÃO

Talvez porque ainda ecoe com demasiada vivacidade, na consciência dos poucos que ligam a estas coisas, o canto do poeta “maior do que os homens”, vai sendo frequente encontrarmos quem atribua ao artista um estatuto que o diferencia da gente comum. De facto, existem diferenças que nos ajudam a distinguir os homens excepcionais dos homens vulgares. Essas diferenças não são exclusivas do artista, podendo ser encontradas nas mais diversificadas áreas da actividade humana. É também uma questão aritmética de fácil compreensão esta de ser possível encontrar entre homens vulgares um que se distinga por determinada característica excepcional, não sendo essa característica suficiente para que a esse individuo se atribua um estatuto semelhante ao que é atribuído ao artista. Só por graça dir-lhe-ão os camaradas: és um artista!

O problema reside num preconceito que julgávamos suprimido desde que Baudelaire deitou pela lama a auréola do poeta. Na verdade, o problema não foi suprimido. Só isso explica a tendência dos artistas para se fecharem em grupos ditos minoritários (que é o mesmo que dizer elitistas), recusando, ainda que inconscientemente, esbaterem-se entre as massas como gente vulgar que se levanta todos os dias para o trabalho e do trabalho regressa, todos os dias, ao conforto do lar. Excepções sempre houve, é certo. Mas hoje falamos de generalidades. E tomaremos de exemplo um pequeno poema de Natália Correia escrito na década de 1940:

DO DEVER DE DESLUMBRAR

A inútil tragédia da vida
Não chega a merecer um poema.
Só o poema merece, por vezes
A inútil tragédia da vida.

As pessoas caem como folhas
E secam no pó do desalento
Se não as leva consigo
A fúria poética do vento.

Para que se justifique a nossa vida
É preciso que alguém a invente em nós.
Os que nunca inspiram um poema
São as únicas pessoas sós
.

O título deste poema é toda uma ars poetica. Os dois primeiros versos bastavam para que concordássemos com Natália, e instituíam uma belíssima tensão entre o título e a expressão de um axioma por si só deslumbrante. O resto resvala, mais uma vez, nessa excepcionalidade da poesia e do poema e, por arrasto, daquele que o escreve, o poeta. Ainda que de forma implícita, o que aqui está presente é a ideia do poeta “ser mais alto”, homem “ultra-sensível” com capacidades visionárias, espírito incomum e trágico, porque “maior do que os homens” entre os quais o próprio se encontra. É verdade que a inútil tragédia da vida não chega a merecer um poema, mas também o poema não merece o poema. Porque, afinal, ele é parte integrante da inútil tragédia da vida. Nem o poema nem o poeta escapam a essa universal fatalidade.

Não admira, porém, a disseminação de tontos que anseiam ser tomados por poetas. Querem ser considerados de excepcionais sem que nada neles exista de verdadeiramente incomum. O que é curioso, e até paradoxal, é a constatação de que as diferenças resultam mais de uma consciência prática das correspondências do que numa dissimulada reivindicação das diferenças. Tanto pode estar aqui em causa a demanda de um estatuto como a ânsia do prestígio, uma muito humana necessidade de afirmação perante os outros e a mais rasteira necessidade de auto-estima. Nisso, nada há de verdadeiramente elevado. O homem mais alto do que os outros desce à terra e descobre-se minúsculo, tanto como as folhas que tombam no outono.

Podia dar-lhes para pior, é certo. Podiam fazer como Anders Breivik e desatar a disparar sobre jovens em retiro. Escrevem poemas, pintam quadros, compõem canções, actividades menos perniciosas, socialmente aceitáveis e igualmente apaziguadoras da consciência interna de uma inútil e trágica existência. Aquela que Augusto dos Anjos, em quatro quadras arrancadas às “cismas do seu destino”, descreveu com histriónica lucidez intelectual:

Poeta, feto malsão, criado com os sucos
De um leite mau, carnívoro asqueroso,
Gerado no atavismo monstruoso
Da alma desordenada dos malucos;

Última das criaturas inferiores
Governada por átomos mesquinhos,
Teu pé mata a uberdade dos caminhos
E esteriliza os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,
Análogo é ao que, negro e a seu turno,
Traz o ávido filóstomo nocturno,
Ao sangue dos mamíferos vorazes!

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes
A perfeição dos seres existentes,
Hás de mostrar a cárie dos teus dentes
Na anatomia horrenda dos detalhes!


(…)

1 comentário:

MJLF disse...

PuuuuXA, este Augusto dos Anjos!Raios que o parta ;)