segunda-feira, 30 de abril de 2012

JAZZ

As paisagens feias também têm os seus intervalos de beleza. E se a lógica aristotélica não prevê que uma coisa possa ser e não ser ao mesmo tempo, isso acontece porque na Grécia antiga ainda não havia Jazz – o intervalo de beleza por excelência de uma paisagem feia, terrível, bárbara. Os historiadores atribuem aos negros norte-americanos a criação do género, mas eu há muito me convenci não haver alicerces para o espaço. Longe de simpatizar com as teorias do branco Nick La Rocca, que reivindicava para si, contra tudo e contra todos, a invenção de um género musical, não cedo nessa facilidade de atribuir a estes ou àqueles a paternidade (ou a maternidade) da respiração. O primeiro disco terá sido gravado pelos brancos da Original Dixieland “Jass” Band (em 1917), mas antes dos discos já havia a música, os músicos, os instrumentos. É curioso verificar que o jazz surge, precisamente, desse encontro entre os instrumentos sofisticados do mundo ocidental e a intensidade rítmica, a espontaneidade, a dança percussiva dos africanos, arrancados às suas terras e escravizados longe de casa. Joachim E. Berendt e William Claxton registaram, o segundo fotograficamente e o primeiro em crónicas cativantes, num calhamaço intitulado «Jazz Life – A Journey For Jazz Across America in 1960», vários momentos que vale a pena ir revendo. Num dos primeiros desses registos encontramos um negro chamado Butch Cage, sentando num balouço, a tocar violino para umas jovens raparigas que parecem estar a dançar. Butch Cage costumava tocar com o reverendo Willie B. Thomas para a voz da mulher deste. Ouçam-nos:




É impossível não sentir nestas preces um encontro muito especial do sofrimento com a esperança, o qual jamais seria tão expressivo se não tivessem chegado às mãos dos negros aqueles instrumentos de cordas. Uma coisa é certa, trata-se de uma música acessível, do povo e da rua, dos lupanares e das igrejas, da alma, das casas de má fama, da lama, dos pântanos, da urbe, é uma música que nos protege da monotonia e defende do tédio. Chegou aos grandes palcos por via de uma obstinação incalculável, deixando ao longo do percurso um rastro infindável de histórias tão trágicas quão caricatas. A mais curiosa de todas, para mim, dá razão a quem defende a necessidade do mito para que a História nasça. Só isso explica que consigamos admirar tanto um instrumentista que nunca ouvimos. É o caso de Buddy Bolden, nascido na mais imoral das cidades do mundo, Nova Orleães, a 6 de Setembro de 1877. Barbeiro de profissão, mulherengo e alcoólico, morreu prematuramente num manicómio, em 1931. Jim Godbolt, em «O Mundo do Jazz», diz «que a sua forma de tocar era tão forte que, numa noite clara, fazia-se ouvir a 14 milhas de distância». Imaginem numa noite escura. Ninguém da formação dirigida por Bolden sabia ler música. Tão competente como ele, só Freddie Keppard, que sempre se recusou a gravar as suas malhas temendo vir a ser copiado pelos rivais. Depois veio Louis Armastrong e tudo mudou, para bem dos vindouros – que somos nós. Vejam como sorri e como conduz a orquestra, o maestro. Fechem os olhos e imaginem-se jovens raparigas negras, numa pequena cidade norte-americana do sul, a dançar de mãos dadas. Verão que é refrescante:


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