quinta-feira, 31 de maio de 2012

JOVENS EMPREENDEDORES

Durante anos, foram-me falando de um tempo de gente sentenciada. A filho de pobre que pretendesse escapar à rudeza do campo, restava uma de duas soluções: ou ia para padre ou seguia a carreira militar. Como não sou filho de militares, muito menos de padres, aprendi a reconhecer o mérito do sofrimento imposto pelo trabalho das terras. Os meus pais cavaram, mas não se ficaram de enxada na mão. Como muitos, soaram as estopinhas por um negócio que lhes exigiu a vida inteira. Hoje o discurso é outro, as soluções padre ou sargento afunilaram no sentido de uma mesma constatação: jovem que tenha vontade de singrar, não terá hipótese alguma. É impossível, tendo o comércio sido asfixiado pelos galifões das grandes superfícies e pelos tiranos da fiscalidade. Um dia iremos acordar para o Inferno, e veremos como esses galifões andam a explorar não só quem empregam mas também quem os abastece. Dando cabo da economia com a mais estúpida da complacência generalizada. Mesmo assim, esperam os nossos políticos, completamente alheados da realidade sufocantemente burocrática por eles arquitectada, vivendo num mundo de gabinetes que é só deles e de mais ninguém, esperam esses promotores do optimismo aquilo a que chamam iniciativas e empreendedorismo, esperam mais produtividade, como se a produtividade se resolvesse com uns minutos de serviço grátis e menores remunerações mensais. Os trabalhadores permitem ser tratados de colaboradores e é no que dá. Por aqui, todos os dias me cruzo com vários jovens empreendedores. Ele é o arrumador de carros, de jornal enrolado na mão, apontando para os buracos que lhe garantirão, com boa vontade, uma moedita para a jola. Mais acima, junto ao cemitério, uma puta que mal se consegue distinguir de um cadáver ambulante. Ataca perto da mansão universal, porventura buscando nos mortos o conforto que não encontra nos vivos. E ainda há pouco, enquanto fumava o cigarrito da praxe, lá chegou outro jovem empreendedor aos cinzeiros do Centro Comercial. Vazou as beatas e escolheu, meticulosamente, com uma sabedoria economicista invejável, as que lhe poderão ser úteis em investimentos insondáveis. Três exemplos de jovens empreendedores, num só dia e numa pequena cidade, aos quais se chega facilmente: andando a pé pelas ruas, observando, abrindo os olhos. Tivessem ido para padres, ela para freira, e ainda chegariam a capitães. Ou mordomos, na pior das hipóteses.

SOBRE "A DANÇA DAS FERIDAS"




José Ricardo Nunes, in Colóquio Letras, Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 180, Maio/Agosto 2012.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

MIGUEL REAL SOBRE MICRONARRATIVA


Nos últimos anos do século passado e nos primeiros do nosso século, enquanto a prática do conto prosseguia gerando novos autores de qualidade (Mário de Carvalho, Luísa Costa Gomes, António Vieira, Maria Antonieta Preto...), o microconto (uma, duas, três páginas) e o nanocanto (três, quatro, cinco linhas, um parágrafo) irrompem de um modo brutal em Portugal, numa verdadeira explosão de autores, sobretudo de jovens autores, geograficamente dispersos, não possuindo ideologia estética comum.
Este movimento literário espontâneo encontra uma âncora estética comum (com exceções, sobretudo Adília Lopes) na dramaticidade expressiva do texto breve, na desvelação do sentido absurdo do mundo narrado através de um pequeno exemplo, uma espécie de pungência por que o autor, comovido, evidencia a adversidade geral da existência. Henrique Manuel Bento Fialho (Estória Domésticas, 2006; Estranhas Criaturas, 2009) é, talvez, o autor mais exemplificativo do estado atual desta vertente da microficção portuguesa.

Miguel Real, in Jornal de Letras, 30 de Maio de 2012.

terça-feira, 29 de maio de 2012

THE TREE OF LIFE



Quando informam Pocahontas sobre a morte do Captain Smith, ela fica inconsolável e tem aquele gesto poderoso de se cobrir com cinzas. O mesmo fazem os amigos de Job ao saberem do seu desespero, atiram cinza por cima das cabeças. Este tomo do Antigo Testamento é a chave para a compreensão do filme The Tree of Life (2011). Ninguém compreenderá com substancialidade o quinto filme de Terrence Malick sem ter lido o livro de Job. De resto, não é por acaso que aparece em epígrafe. Uma família honesta na américa dos anos 50 vê-se atingida pela maior das desgraças, a perda de um filho. O infortúnio instala a dúvida, golpeia a fé, atira cinzas por cima da dor. Lembramo-nos de Santo Agostinho, da sua dor confessada perante a perda de um amigo. Mas é Job quem ecoa no coração das personagens, é a sua incompreensão do sofrimento e a sua vontade de questionar Deus sobre a justiça das suas opções.

Este é, também por isso, o mais ambicioso e porventura enigmático dos filmes de Malick. Nele voltamos a encontrar a cidade de Deus em oposição ao mundo natural, a graça e a natureza enquanto caminhos opostos que o cinema procurar conciliar. Nesse sentido, The Tree of Life é um filme de fé na linguagem cinematográfica enquanto veículo de aproximação ao divino. Os diálogos são mínimos, várias falas em off revelando pensamentos, confissões, dúvidas, inquietações, conjecturas acerca das direcções que apontam para Deus. Mas é este quem fala quando se recria a criação do Universo, a partir de pressupostos científicos que têm tanto de cosmológico como de teológico. Porque Deus mostra-se através da Natureza ou, como em Job, através das montanhas por si deslocadas, da terra estremecida, das constelações, do mar profundo, da abóbada celeste.

O que nos leva a Deus é, pois, a questão essencial do filme, explorada a partir de exemplos clássicos aqui possíveis de reconstruir com o recurso a uma montagem rigorosa e imagens de uma beleza inclassificável. Apercebemo-nos com facilidade, ao revermos os filmes de Terrence Malick, do percurso necessário para chegar a este ponto. Reparemos nos inúmeros planos filmados de baixo para cima, como que em busca de uma luz proveniente das moradas do divino. Os troncos das árvores, e a luz que rasga as copas lá no alto, as quedas de água, um ritmo que acompanha meditativamente a longitude dos tempos, atravessando épocas e penetrando o coração da vida. No fundo, o flashback neste filme não é um mero recurso narrativo como noutros filmes. Ele é a própria essência da história aqui contada, é pura ciência, como a árvore evocada por Job quando questiona a triste condição humana:

Uma árvore tem sempre esperança;
mesmo que a cortem, brota de novo
e não pára de produzir rebentos.

A família pode ser o microcosmo a partir do qual se representa o conflito eterno entre a graça de Mrs. O’Brien (Jessica Chastain) e a natureza de Mr. O’Brien (Brad Pitt). Deus e a Natureza estão em conflito no interior de um dos filhos, o jovem Steve (Tye Sheridan). Mas este conflito não é de resolução fácil, não tem nada de simplista, desloca-nos para as forças que sustêm o mundo, lhe dão fundamento e fazem de nós, homens, ínfimas partículas efémeras, aglomerados de células, no centro da vastidão universal. O que torna tudo mais aceitável, compreensível e até lógico é a percepção de que o sagrado se manifesta, precisamente, onde ao longo dos tempos nos ensinaram estar o Inferno: na Natureza. As cenas finais são redentoras, poéticas, supõem um encontro improvável entre mortos e vivos, novos e velhos, como que numa confluência de universos paralelos, num mesmo espaço apaziguador, numa praia atravessada pela brisa ligeira da única mentira que ainda vale a pena alimentar, a mentira do amor.

PLANET CIRCUS

Foram precisos setenta e uns trocos de anos para que os alemães conseguissem, finalmente, tomar a Rússia nas mãos. A proeza deve-se à Chanceler que, ainda há dias, andava por Mykonos a dançar kuduro em trajes menores. Agora, a todo poderosa patroa da Europa foi a uma aula de Geografia apontar Berlim no centro da Rússia. Quando lhe disseram que Berlim era mais abaixo, o espanto perante a proximidade das terras de Lev Nikolayevich Tolstoy, que infelizmente ficará de fora no próximo europeu, não disfarçou o evidente: a Rússia é dos alemães, tal como Portugal é dos angolanos. A muitos quilómetros de distância, o nosso Presidente não quis comentar as inconsistências noticiosas. Preferiu explicar aos australianos que para fazer um bom vinho é preciso um bom caralho. Prevê-se um incremento significativo na louçaria das Caldas. Para que o absurdo seja total, só falta saber se Relvas se demitirá antes de Fidel Castro bater a bota.

sábado, 26 de maio de 2012

ESTE É O BOM GOVERNO DE PORTUGAL!

Luís Pedro Russo da Mota Soares chegou ao Governo de Vespa e logo se mudou para um Audi de 86 mil euros. Nuno Paulo de Sousa Arrobas Crato tinha todas as soluções para a educação antes de chegar ao ministério. Ao chegar, a amnésia varreu-lhe as ideias. Pretende reduzir a carga horária em vários anos e aumentar o número de alunos por turma. Por este andar, acaba como Ministro da Economia. Paulo José Ribeiro Moita de Macedo traz na lapela o distintivo de exímio gestor. Para não desfazer o mito, sugere o encerramento de uma das poucas instituições que funcionam bem neste país: a Maternidade Alfredo da Costa. Maria da Assunção de Oliveira Cristas Machado da Graça, a super-ministra, não se poupa em medidas ambientalistas: exige que no seu ministério ninguém use gravata porque há estudos que mostram que prescindir da gravata permite descer em 2ºC a temperatura do ar condicionado. Infelizmente, não sabemos de nenhum estudo que prove ser a “esperança que chova em breve” uma medida adequada no combate à seca prolongada. Álvaro dos Santos Pereira, o ministro romancista, quer ser tratado por simplesmente Álvaro e trata o desemprego por coiso. Roubaram-lhe o QREN, mas não faz disso assunto. Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas é amigo de seu amigo, sobretudo se seu amigo for ex-espião. Porque não gosta de ser espiolhado, embora não recuse uma boa espiadela, põe-se a ameaçar jornalistas. Já está mais fora do que dentro. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz não brinca com medidas do género Estímulo 2012. Contrariando a tendência para empregar licenciados com propostas de remuneração a rondar os 500€ mensais, nomeou, a 19 de Janeiro do corrente ano, o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos, para realizar estudos pelos quais auferirá uma remuneração mensal de 3892€, acrescida de subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de refeição, bem como despesas de representação fixadas para os adjuntos dos gabinetes dos membros do Governo. Fim de citação. Miguel Bento Martins da Costa de Macedo e Silvado, o esbugalhado, foi catado a receber um subsídio de alojamento por ter que se deslocar para Lisboa com morada em Lisboa. A vida está cara, mas o ministro renunciou ao subsídio para dar o exemplo. As suas polícias é que não ficaram satisfeitas com a renúncia e desataram à bastonada em cima de jornalistas no pleno exercício da sua profissão. José Pedro Correia de Aguiar Branco tem-se esforçado para manter as Forças Armadas sossegaditas. Tanto trabalho que nem damos por ele. Paulo de Sacadura Cabral Portas tinha urticária ao poder, jamais seguiria uma carreira política, acabou como Ministro do Mar a comprar submarinos aos alemães e é agora Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mantém activas todas as fotocopiadoras do seu gabinete, não vá o mafarrico tecê-las… Vítor Louçã Rabaça Gaspar anuncia medida de austeridade sobre medida de austeridade como se estivesse a ler aos portugueses A Crise Explicada às Crianças. No topo do bolo, qual cereja, Pedro Manuel Mamede Passos Coelho is a Portuguese politician que pede aos portugueses que não sejam piegas e aconselha-os a emigrar, porque o desemprego é uma oportunidade para mudar de vida. Este é o bom Governo de Portugal!

AMÉLIA PINTO PAIS (1943-2012)




Soube há dias, através do weblog picosderoseirabrava, que a nossa amiga Amélia Pais foi encontrada inanimada em casa, tendo dado entrada no hospital de Leiria. Comunica-me agora a Soledade, por e-mail, de mais uma perda irreparável. Conheci a professora Amélia pessoalmente, trocámos vários e-mails, era de uma simpatia e generosidade extremas. Pedia-me várias vezes para divulgar textos meus no seu weblog, o ao longe os barcos de flores. Dizia-se semeadora de versos. Assim era. Poderão ler neste post uma entrevista à autora e ficar a saber um pouco mais sobre quem estava por detrás da sementeira. Muitas das suas adaptações dos clássicos estão disponíveis nas livrarias, tornaram-se elas próprias clássicos da iniciação ao que de melhor tem a literatura portuguesa. Saudades. »»

sexta-feira, 25 de maio de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

NÃO É VIOLÊNCIA, É EDUCAÇÃO

Camarada Van Zeller, de vez em quando dou comigo a pensar que talvez fosse melhor emigrar para o Médio Oriente. Não é lá que olho por olho, dente por dente? Um palestiniano atira umas pedras, o judeu responde com mísseis, o árabe arremessa cocktails, o israelita replica com obuses… Imagine a coisa aplicada por cá, seria um descanso. Por exemplo, nas escolas. Volta não volta, vem à baila o problema da violência nas escolas. Que me lembre, opinei sobre o assunto aqui e acolá. Há quem não se sinta chocado por um professor responder com tabefes aos insultos dos alunos, esses delinquentes que é preciso pôr na ordem sob pena de virem um dia a transformar Lisboa numa qualquer Atenas, Madrid ou Londres. Nós somos um povo de bons costumes, manda o bom costume que o aluno seja tratado como merece: ao tabefe. A realidade justifica-o. As nossas escolas, ao contrário das americanas, são autênticos antros de maldade, os nossos alunos uns energúmenos enraivecidos. Isto não é Beslan, Bath School, Virgínia Tech, Maalot, Dunblane, Gutenberg, Columbine, Montreal, isto não é a Universidade do Texas ou a Escola Tasso da Silveira ou Toulouse, onde acontecem massacres motivados, certamente, pela passividade nas novas teorias da educação. Por cá, o belo do tabefe deve continuar a fazer escola na escola. Ora, o que se passa actualmente nas escolas portuguesas é uma pouca vergonha. Por certo as terríveis criancinhas nasceram assim, não se tornaram no que são em interacção com pais, sociedade, escola. Não, elas nasceram más. Logo, terão o que merecem. Os cães educam-se a pontapé, o mesmo deverá ser com as terríveis criancinhas do nosso país que andam para aí a ameaçar professores, aos empurrões e cuspidelas, jogando ao bullying como quem joga o berlinde. Não interessa a causa do problema, importa a solução: porrada em cima deles. Olho por olho, dente por dente, como no Médio Oriente. E se os pais vierem responder, que sejam lapidados. A escola deverá amarrá-los, apedrejá-los, a bem da boa educação do país, a que formou bons exemplos da nação tais como o ministro Relvas, o Duarte Lima, a “catrefa” do BPN e demais amigos de seu bom amigo. Esses sim, gente bem-educada, bons pais de família. Sei do que falo, fui professor durante dez anos, tenho Himalaias de amigos stôres e professores e professores doutores. Sei do que falo. Um reguila só se verga a murro, o pai do reguila a bastonada e assim sucessivamente. Mais sugiro que a mesma táctica seja aplicada nos hospitais entre doutores e pacientes, nos tribunais entre juízes e réus, nos quartéis entre capitães e magalas, nos próprios lares entre maridos e mulheres. Dantes é que era bom, mulher em casa a cuidar dos filhos, marido fora a cuidar-se com amantes. Dantes é que era bom, um país de gente bem educada que saía da escola a saber ler e com a tabuada na ponta da língua e os nomes dos rios de Portugal e tudo o que era rei decorado… A porcaria da Internet veio dar cabo disto tudo, devíamos voltar ao dantes. Quais competências técnicas, quais carapuça. Eu quero é que as minhas filhas saibam de cor as dinastias que nos trouxeram a esta miséria, e quero que elas saibam quem foi Salazar para que o culto lhe seja prestado pelos bons serviços oferecidos à nação. Olho por olho, dente por dente, e a PIDE com eles todos afiados, os olhos e os dentes, num país de populaça desdentada e olhos comidos pelas cataratas. Que o professor tem que dar o exemplo? Pois que o dê à traulitada! Seja ele um exemplo de como um bom par de estalos corrige os desvios e não causa traumas. Trauma é chegar ao século XXI observando o estado a que isto chegou, um estado de gente amorfa num país de ladrões bem-educados, todos eles saídos de escolas com excelentes professores, muita ordem e bonomia, e hordas de maltrapilhos a darem cabo da boa tradição: olho por olho, dente por dente. Não traumatiza nadinha, não custa nadinha, tudo à mocada pela ordem, pela autoridade, pela dignidade humana (pelo menos a de alguns). Eu, meu caro, vou já ali praticar: tenho duas filhas e uma mulher que estão mesmo a pedir. Não custa nada, não traumatiza nada. Não é violência, é educação.

SR. MINISTRO, ESPERAMOS QUE TENHA HUMILDADE SUFICIENTE PARA SE DEMITIR




Bárbara Reis esteve a ser ouvida na Entidade Reguladora para a Comunicação Social durante duas horas e meia, em conjunto com o director-adjunto Miguel Gaspar.

No telefonema que fez à editora de Política depois de ter recebido por e-mail uma pergunta da jornalista Maria José Oliveira, “o ministro disse que ia fazer queixa à ERC, aos tribunais, ia dizer aos membros do Governo para não falarem com o PÚBLICO e iria revelar dados da vida privada da jornalista”. Questionada pelos jornalistas, a directora afirmou que o ministro especificou os dados, mas Bárbara Reis adiantou que não é “o momento” para os identificar.

“Na sequência dessa pressão, a direcção entendeu por correcto e importante protestar formalmente junto do ministro [dizendo-lhe] que o telefonema e a pressão tinham sido inaceitáveis”, contou Bárbara Reis. Nessa conversa, “o ministro respondeu a uma série de coisas e disse que tinha humildade suficiente para pedir desculpa à Leonete Botelho e foi o que foi fazer”.


(aqui)

terça-feira, 22 de maio de 2012

OS MEXICANOS DA GRÉCIA

Entrei na Grécia por Patras, depois de apanhar um ferry em Brindisi. 18 de Agosto de 1998. Uma noite de viagem passada no convés, ora lendo, ora à conversa com quem mostrasse vontade de paleio. Lembro-me de trocar algumas impressões com um inglês que andava a ler o Drácula de Bram Stoker, seis anos antes perdera-me várias vezes pelas salas de cinema de Lisboa a ver a adaptação do Coppola. Mas a maior parte do tempo foi ocupada na companhia de dois alemães, munidos com cerveja, e um indivíduo da Charneca da Caparica com um sentido de humor amplamente beneficiado pelas bolotas enroladas sucessivamente. Sempre soube escolher companhias. Ainda me enfiei no saco-cama e adormeci ao relento, iluminado por altas e românticas estrelas onde não vislumbrei conforto senão para divagações inúteis.

A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.

O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.

Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.

Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.

No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.

Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.

A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.

A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.

2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.

Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

JAMES THURBER

DALTON TREVISAN

Este ano, o Camões foi para um contista. Fica bem entregue... se ele o receber. Um conto aqui.

domingo, 20 de maio de 2012

PORTUGUÊS TÉCNICO

Tanta gente preocupada com o inglês técnico de Sócrates, e basta ver cinco minutos dos Globos de Ouro para percebermos que mais valia preocuparmo-nos com o português técnico dos apresentadores da SIC.

SHORT SHORTS

Short Shorts: An Anthology of the Shortest Stories, originalmente publicada em 1982 no Reino Unido, conheceu esta edição da Bantam Books um ano depois. Os seus organizadores foram Irving Howe e Ilana Wiener Howe. Do primeiro há basta biografia disponível na Internet. Socialista moderado nascido no Bronx, tinha descendência judaica e serviu no exército norte-americano durante a II Grande Guerra. Depois tornou-se crítico da Partisan e escreveu inúmeros ensaios. Foi professor de literatura Yiddish, pelo que não é de estranhar a presença nesta antologia de algumas figuras proeminentes desse universo. Dos menos conhecidos entre nós há a salientar Sholem Aleichem e I. L. Peretz. O primeiro nasceu em Hasidic, na Rússia, país que abandonaria após o pogrom de 1905. Considerado um dos maiores humoristas da literatura Yiddish, escreveu várias peças de teatro, romances e, claro está, contos. Aparece aqui representado com uma história intitulada A Yom Kippur Scandal, onde podemos perceber uma ironia especialmente direcionada para as questões judaicas: «Squeezing is a Jewish custom. If no one squeezes us, we squeeze each other» (p. 57). Contemporâneo de Sholem Aleichem, I. L. Peretz nasceu na Polónia e estreou-se numa antologia organizada por aquele. If Not Higher, o conto aqui recolhido, não destoa. Num estilo abertamente humorístico, coloca em acção um rabi e um “litvak” (judeu lituano, à época representante de uma das maiores e mais influentes comunidades judaicas em toda a Europa). Autores como estes, porventura menos conhecidos do público português, partilham o espaço da antologia com nomes consagrados ou bastamente conhecidos: Leo Tolstoy, Heinrich von Kleist, Anton Chekhov, Stephen Crane, Guy de Maupassant, James Joyce, D. H. Lawrence, Luigi Pirandello, Franz Kafka, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Giuseppe di Lampedusa, Isaac Babel, William Carlos Williams, Yukio Mishima, Doris Lessing, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Gabriel García Márquez, Augusto Monterroso, Heinrich Böll (mantenho a grafia anglo-saxónica). A única voz da língua portuguesa seleccionada é o brasileiro João Guimarães Rosa. Há ainda autores algo esquecidos, mas já publicados em Portugal, tais como Katherine Anne Porter, autora do romance A Nave dos Loucos (Livros do Brasil), Varlam Shalamov ou Grace Paley, ambos com livros no excelente catálogo da Relógio d’Água: Contos de Kolimá, o primeiro, e Pequenas Contrariedades da Existência, a segunda. Entre as surpresas, pelo menos para mim, contei o suíço Gottfried Keller, poeta, romancista e contista de quem nunca ouvira falar; o russo Mikhail Zoschenko, cujo conto me aventurei a reproduzir aqui; a argentina Luisa Valenzuela, a mais nova dos autores coligidos; a alemã Maria Luise Kaschnitz, essencialmente poeta; os norte-americanos Jerome Weidman, Paula Fox e James Thurber. Fiquei especialmente impressionado com o último. Cartoonista de primeira linha, publicou as suas histórias de tom satírico, sobretudo, na The New Yorker. Nunca conseguiu afirmar-se enquanto escritor, mas o conto que o representa nesta antologia é muito bom. If Grant Had Been Drinking at Appomattox satiriza factos históricos com incrível sentido de humor, abrindo hipóteses caricatas para eventos dramáticos. No caso, a célebre rendição do General Robert E. Lee, rosto de um dos mais célebres selos dos states, perante um ressacado Ulysses S. Grant. Este olha para Lee e confunde-o com o poeta Robert Browning (a piada é óbvia, dada a semelhança física entre ambos), acabando por lhe colocar a espada nas mãos como se fosse Grant, e não Lee, quem estivesse a render-se. Por fim, remata: «We dam' near licked you. If I'd been feeling better we would of licked you» (p. 147). Vale a pena descobrir James Thurber, mais que não seja pelo seu olhar cómico tragicamente ironizado pela realidade: era cego de um olho.

sábado, 19 de maio de 2012

THE NEW WORLD



O menos aclamado dos filmes de Terrence Malick recupera a história de Pocahontas, uma índia powhatan que, depois de ter sido expulsa da sua tribo na sequência de uma relação com o lendário capitão John Smith, acabou casada com o explorador inglês John Rolfe e transformada em celebridade do Novo Mundo pela aristocracia britânica. Factos cuja veracidade terá sido moldada, ao longo dos tempos, por uma grande dose de oportunismo. The New World (2005) não escapa incólume ao mito, oferecendo uma perspectiva alegórica, para não dizer ingénua, da colonização das américas e dos violentíssimos processos de aculturação que a acompanharam. No entanto, safa-se da desgraça quando se concentra nos dilemas de Pocahontas (representada por uma desconhecida, mas belíssima, Q’Orianka Kilcher que, à data das filmagens, tinha apenas 14 anos).

A evocação inicial do grande Espírito da Terra estabelece o contacto com a forma de pensamento índio, ao mesmo tempo que mapeia a formação de um Novo Mundo erigido sobre as cinzas duma existência humana fundada na comunhão com a Natureza. A chegada das caravelas às terras agora conhecidas pelo nome de Virgínia, em 1607, marca, precisamente, o princípio do fim de um mundo primitivo e selvagem. São óbvias as relações com The Thin Red Line (1998), sobretudo nas cenas onde se recria a vida dos indígenas no seio da floresta. Porém, quem leia um pouco sobre o assunto apercebe-se da visão adulterada que a história nos fez chegar em dois sentidos divergentes. Os colonos ali aportados não encontraram nem o Inferno, desse andavam fugidos, nem o Paraíso, que, sabemos hoje, só existe na imaginação celestial dos crentes. O que ali havia era um modus vivendi sem conflitos com a Natureza, porque conflitos entre os homens sempre se viram em todos os lugares.

São, pois, simplórias as descrições do malogrado capitão John Smith (Colin Farrell) quando fala de um povo sem maldade. Não são tão simplórias quando chama a atenção para o essencial: os índios viviam em função da necessidade, entre eles não predominava o sentido de propriedade, que já o sargento Edward Welsh havia denunciado, em The Thin Red Line, como causa dos infernos para os quais o homem se atira. Rebelde e desobediente entre os seus, John Smith tem a pesar sobre si uma insuportável condenação. Falhará toda a vida, mormente onde menos deveria falhar: no amor. A sua paixão por uma indígena colocou-o no centro de um conflito onde, muito provavelmente, nunca pretendeu estar. Percebe-se a metáfora quando Malick o filma entre a tribo aberta dos powhatan e o forte dos colonos, a destruir árvores que servirão de paliçadas, uma fronteira traçada por obrigação contra as vontades de um estranho sentimento.

Os filmes de Malick estão repletos destas contradições, embora neste a atitude dicotómica seja talvez mais evidente. Onde se vivia em liberdade, passa a viver-se com medo, constroem-se torres de vigia, impõem-se leis severas que prevêem castigos cruéis e desumanos para os desobedientes. Pocahontas desobedece e é afastada da tribo, John desobedece e é chicoteado, obrigado a trabalhos forçados após vigílias permanentes pendurado pelos pés. Quem são os selvagens? Talvez não seja esta a dúvida essencial. Não o será, certamente, e disso nos apercebemos quando vemos Pocahontas deitada nas ervas e a confundimos com o tronco de uma árvore. Aqui, os opostos estimulam sentimentos diferentes, dúvidas antagónicas, emoções paradoxais. Não é por isso de estranhar que Smith abandone Pocahontas e regresse a Inglaterra com a missão de novas descobertas.

Pede o capitão que informem posteriormente a sua amada de uma morte inexistente, quer ser esquecido sem poder esquecer. Julga ser possível a felicidade dos outros sem se oferecer a quem o anseia para ser feliz. Mais uma vez, o que ressalta é a degradação da pureza no coração dos homens, o assalto da loucura que leva Smith a pensar se não seria melhor voltar a subir o rio, amar Pocahontas na natureza selvagem, soltar-se, ser livre... acabando por fazer exactamente o contrário. Porque entre o desejo e a acção há algo que o tolda, algo muito mais forte do que os grilhões a que o vemos preso no primeiro dos planos em que aparece. O quê? Talvez amar sem perceber o amor.

Contudo, antes e depois de John Smith esta é a história de Pocahontas (baptizada Rebecca, aliás, em nome do pai do filho e do espírito santo). Levada até ao Velho Mundo por um viúvo identificado com a sua dor, o colono John Rolfe (Christian Bale), ela apercebe-se da contradição em que vive. As cenas finais oferecem-nos indivíduos perturbados por uma série de interferências que impedem a sintonia entre o pensamento, o desejo e a acção. São personagens marcadas por uma espécie de anomalia que as faz tropeçar na mentira quando apenas pretendem verdade. Ver Pocahontas devidamente trajada entre a aristocracia britânica, olhando animais selvagens engaiolados para deleite de nobres palacianos, é como assistir a um funeral sem defunto.

Pior quando o reencontro com Smith, nos jardins geometricamente desenhados de um palácio, nos atira a realidade às fuças. Encontraste as tuas Índias, John? – pergunta ela. E ele baixa os olhos de vergonha, talvez, frustração, quem sabe. Hás-de encontrá-las, acrescenta. Ao que ele responde com a mais cruel das evidências: Talvez lhes tenha passado ao largo. Nada mais aconteceu nesta história de amor. Rebecca escolheu ficar com quem a soube amar. Fez muito bem. Cada qual é para o que nasce, e o malogrado John Smith, como é evidente, não tinha nascido para o amor.

MIGUEL "MAU HÁLITO" RELVAS


Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas, que tem um currículo maravilhoso de secretarias gerais, deputânsias, presidências e afins, chega a Ministro dos Assuntos Parlamentares com a tutela da Comunicação Social. E o que faz o ministro da tutela? Telefona para um jornal, a ameaçar uma jornalista em particular, insurgindo-se contra a eventual publicação de factos comprovativos das suas relações promiscuas com as secretas portuguesas. A jornalista incumbida de investigar as contradições do ministro, vê-se, deste modo, pressionada com as ameaças de um blackout dos ministros do Governo ao jornal que a emprega (todos os ministros, para que se note o poder do n.º 2); e, como se tal não fosse suficientemente escabroso, com a ameaça de virem a ser publicados na Internet dados sobre a sua vida privada. De onde vieram estes dados? Quem os espiolhou? Qual a fonte? Como teve o ministro Relvas acesso a eles? Pelas secretas? Denunciada a pressão, o ministro desmente. Agora pede desculpas, como se estivéssemos a falar de crianças a disputarem um saco de berlindes na escola primária. O ministro não se dá conta da gravidade de tudo isto, é um imbecil com as costas esquentadas pela evidente inimputabilidade. Depois de andar a espancar jornalistas no exercício da sua profissão, este Governo fica marcado pela mais ignóbil das pressões alguma vez exercidas, no regime democrático, sobre um jornalista em particular. Consequências?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

UMA MEDALHA PARA O ZÉ POR TER LIVRADO DO COISO GERAÇÕES INTEIRAS DE POLÍTICOS QUE SE NÃO TIVESSEM NASCIDO TERIAM DE SER INVENTADOS

Camarada Van Zeller, a minha alma está parva. E pergunta você, com esse seu ar de Pluto apatetado: mas quando parva não foi? Tem razão, camarada. Porém, hoje está mais parva que nunca. Não por causa dos mil milhões encontrados na bagageira de um qualquer Zé Medalhas, enquanto os beneficiários deste PPR alternativo se mantêm tão intocáveis como os dalit da Índia. Milhões desses não me aparvalham, são feijões na minha camioneta. Eu estou aparvoado com outras realidades. Eu estou coiso como coiso está o Álvaro, com o desemprego cravado na garganta dos outros e muitas soluções à vista: não sejam piegas, uma, emigrem, duas, não façam disso um estigma, três, aproveitem a oportunidade para investir, quatro. Já disse à minha mulher, que está coisa, para não me chatear mais com as suas pieguices, siga os bons conselhos do PM e invista. Aproveite o tempo livre e faça crescer o dinheiro em investimentos de futuro, consulte o Zé Medalhas. Aconselhe-se. Mas a minha mulher, ai a minha mulher, ela não me ouve. O coiso não deixa. E sempre que fala é para me deixar abasbacado. Ela aprendeu com o Relvas, pressiona-me e ameaça-me, não me quer deixar dar voz às angústias e aos anseios da verdade. Ela é como aqueles opinantes da televisão e da rádio que se fartam de achar coisas, e eu tão pobre e azarento que nunca acho nada. A única vez que achei alguma coisa, levei um par de estalos nas trombas por ter metido mão em propriedade alheia. Mal sabia minha santa mãe ter ali gerado um pobre desgraçado, deitando por água méritos para uma promissora carreira política. Estou curado. Já nada disto me coisa. Nem mesmo ter ouvido um primata qualquer, que se não tivesse nascido teria de ser inventado, afirmar que a Grécia é um país inventado, uma ex-província do Império Otomano. Ai, caro Van Zeller, tanta estupidez nos governa e já nada disto me espanta, aparvoa, atrapalha. Nem Isaltino manter-se livre, nem ter o Estado oferecido uma pulseira ao Lima, nem as secretas ao serviço dos suspeitos do costume, gente bem empregada que nunca necessitou fazer do coiso uma oportunidade para mudar de vida. Camarada Van Zeller, sem mais rodeios, aqui lhe confesso que tudo o que me aparvalha neste momento é ter sabido, passados 20 anos, viver com uma mulher que já beijou o Primeiro Ministro Coelho. Foi nas tasquinhas do Landal, andava o jota, ainda de bibe, pendurado na comitiva do turco que governa as Caldas. Isto sim, é a morte de um homem em tempos de coiso exponencial.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

3 ENTREVISTAS/INQUÉRITOS

Ao Rui Costa, aqui, aqui e aqui.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ENTRAR NO NADA

É por vezes referido que a perda da mãe aos cinco anos, e da irmã mais nova dez anos depois, terão contribuído para uma crise religiosa em Stéphane Mallarmé, cujas implicações não são fáceis de descortinar. Para uns, estes eventos abriram no poeta as portas da descrença; para outros, inauguraram a busca de um mundo alternativo à realidade experimentada. Não tão referido é o facto de Mallarmé ter confessado a ausência de qualquer emoção perante a morte da mãe, a ponto de haver simulado uma profunda consternação como forma de convencer as pessoas à sua volta de um sofrimento que não sentia. É compreensível que assim tivesse sido, se nos atentarmos ao facto de se tratar de uma criança de cinco anos criada por uma ama de leite. Foi nesta ama que ele projectou os sentimentos geralmente guardados para uma mãe, e foi ao afastar-se dela que a dor da separação realmente se manifestou. Há nesta encenação primaveril uma curiosa coincidência com a obra do poeta francês. Mais do que exprimir um sentimento, que no caso seria a ausência de qualquer expressão, ele representa a realidade buscando uma concordância entre o que esperam dele e o que ele tem realmente para dar. É o poeta fingidor na sua máxima afirmação, fingindo ser dor a dor que deveras sente. Uma dor que, no fundo, se manifesta na incomodativa e insuportável ausência de emoção.

Não me parece demasiado rebuscado que um pequeno texto como Crise de Versos (Deriva, Agosto de 2011, trad. Rosa Maria Martelo) reflicta, de algum modo, este desconchavo. «Toda a alma é uma melodia, que urge encadear; e para tal servem a flauta ou viola de arco de cada um» (p. 19). O texto anuncia um novo estilo poético, moderno, liberto de constrangimentos formais como as métricas herdadas dos clássicos, muito mais preocupado em respeitar a respiração de quem escreve e a musicalidade das palavras. Na realidade não se trata de preocupação, pelo menos não tanto quanto parece tratar-se da declaração de um propósito onde na ruptura germina a necessidade da voz libertada. Cito a nota de leitura decorrente da tradução: «Crise de Versos mostra que a experimentação formal começa por ser vivida na figura de uma crise, como pathos. E não simplesmente crise de uma convenção, de metros entronizados numa cultura, mas crise da própria cultura e do pensamento ocidental como um todo» (p. 43). Seja como for, quando falamos de crise dificilmente escapamos à epistemologia de Thomas S. Kuhn. E assim somos levados a pensar na crise como uma fase de ruptura onde um paradigma dará lugar a outro paradigma, pretenda-se ele ou não enquanto negação do próprio conceito de paradigma.

Sabemos hoje qual o resultado da acção libertadora das formas, embora nos pese constatar que, em imensos casos, essa libertação degenerou numa descarada falsificação do texto, isto é, numa completa mistificação do real. Isso constata-se, sobretudo, nos poetas onde a experiência mais supostamente pesaria enquanto matéria-prima do poema. Damos por nós, deste modo, a ler ruínas onde apenas sentimos salas almofadadas, uma revolta de café com encontro marcado na galeria para apresentação da mais recente promessa literária, uma experiência de Universidade com os sentidos roubados nos livros lidos verticalmente, corpos de plásticos, cheiros de plástico, vagabundagem desenhada em estúdio patrocinado pela família, erudição de amigos certos, no lugar certo para reconhecimento certo e imediato. Actualmente a crise está, pois, no desrespeito pela verdade, numa deturpação dos factos, na subserviência ao Estilo enquanto arquitecto mor das aparências que se tomam por essências. É uma crise claramente social transportada para o interior da criação, porque o poeta, neste caso, já não escapa à sociedade, não é um ser em confronto com mas antes um produto da mesma, não é um resistente, mas sim um desistente, resignado à inutilidade da sua produção. No fundo, uma comunidade de minúsculos Mallarmé encenando as dores que nunca sentiram, de modo a que quem está à volta reconheça um sofrimento que nunca se experienciou. Em nome do estatuto, de um prestígio situado e circunstancial, de uma estúpida e inglória canonização. Ainda bem para as pessoas que existem nos poetas. Triste destino, no entanto, para a poesia ela mesma.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

THE THIN RED LINE





Foram precisos vinte anos para que Terrence Malick voltasse a filmar depois de Days of Heaven (1978). Regressou com um filme de guerra baseado num romance de James Jones e com um elenco recheado de estrelas. Entre elas, Nick Nolte, Sean Penn, John Cusack, John Travolta, George Clooney, Woody Harrelson, só para dar alguns exemplos. Mas The Thin Red Line (1998) não é um filme de guerra convencional. O cenário apresenta-se como um palco privilegiado para trazer à cena os mais clássicos conflitos da grande tragédia humana, desde a relação do homem com a natureza ao medo perante a morte ou o eterno debate entre o ser e o dever ser. Podemos mesmo afirmar que a terceira longa-metragem de Malick é um tratado cinematográfico sobre essa coisa estranha e indefinível que os filósofos chamam de “o sentido da vida”.

Como nos seus filmes anteriores, Malick, que, recordemos, tem a sua formação de base na filosofia, recorre à “voz off” para revelar as características mais íntimas das suas personagens. Estas personagens são homens colocados na zona limite da sobrevivência, homens de acção em confronto consigo próprios e com a essência dos seus actos. São personagens pensativas que se questionam sobre o seu lugar na Natureza, sobre a origem do mal que os rodeia, procurando justificações que tornem menos absurdas as relações de poder definidoras das opções tomadas e delimitadoras do espaço de afirmação da liberdade individual. Neste sentido, The Thin Red Line tem muito mais que ver com um Apocalypse Now (1979) do que com um Platoon (1986), exemplos mais óbvios de recriações díspares da experiência da guerra.

O filme de Malick tem a rara capacidade de focar todas as questões fundamentais no domínio da existência, trazendo para o ringue indivíduos que de algum modo simbolizam perspectivas opostas sobre a realidade. Assim, temos o conflito entre a ambição desmesurada do coronel Tall (Nick Nolte), que, qual capitão Ahab, não se importa de jogar com as vidas dos homens sob o seu comando, e o humanismo do capitão Staros (Elias Koteas), sempre preocupado com as condições a que são sujeitos os seus soldados. Temos o pragmatismo materialista do sargento Welsh (Sean Penn), obediente mas intimamente revoltado, e a fé perturbadora do soldado desertor Witt. Temos a frieza e o entorpecimento do sargento Storm (John C. Reilly), que já nada consegue sentir perante a dor dos seus camaradas moribundos, e a dor do soldado Bell (Bem Chaplin), agarrando-se às memórias de uma mulher que lhe escreve a pedir o divórcio.

O desamparo que por vezes sentimos nestes homens, buscando conforto em monólogos interiores que geram mais dúvidas do que respostas, coloca-nos em relação directa com os mais íntimos anseios do ser humano. Transportam-nos para uma outra dimensão da realidade, porventura metafísica, onde o conceito de Deus surge enquanto última instância do desespero. A crueldade patente num cenário de guerra, onde a carne humana é transformada em arma de arremesso e tudo parece valer para que um alvo estrategicamente importante seja atingido, torna-se menos urgente de representar do que uma outra crueldade, não tão evidente, isto é, o mal que medra em torno do coração dos homens como as trepadeiras em torno de árvores milenares, obstruindo-lhes a visão, turvando-lhes a compaixão, transformando em pó tudo o que resta de humanamente moral e bom.

The Thin Red Line é, também pelo que foi dito, um dos grandes momentos plásticos da história do cinema. A beleza da paisagem natural onde ocorrem os confrontos agrava a ideia de um Inferno trazido ao interior do Paraíso. Num plano, uma borboleta atravessa a cena de combate onde vários indivíduos são exterminados. Noutro plano, um indígena de uma ilha no pacífico cruza-se impávida e serenamente com um batalhão onde o receio e a apreensão são os rostos mais evidentes. Não faltam exemplos de contrastes visuais expostos ao longo do filme, contrastes que não pretendem tanto explicar como logram produzir um efeito de dúvida e de espanto, de incerteza e de inquietação. Obrigam-nos a questionar o sentido, é certo, mas já não apenas o sentido da vida de um homem. Antes o sentido da humanidade inteira, o mais inextricável vírus no coração da Natureza.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

BERNARDO SASSETTI (1970-2012)




Pode não ser o fim do mundo, mas tem sido um ano catastrófico. Fiquei profundamente consternado com a triste notícia da morte de Bernardo Sassetti. Num país governado por medíocres, é o talento dos escritores, dos cineastas, dos artistas, dos grandes músicos, que nos salva os dias. O talento de Sassetti salvou-me vários, ora quando o ouvi ao vivo, ora quando lhe escutei repetidamente os discos. Um deles inspirou-me prosa para a série Redondo Vocábulo. Ainda está aqui. Tanta gente para aí que não faz falta alguma ao mundo, e morrem-nos estes. Triste fado.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

DAYS OF HEAVEN




Não são poucas as coincidências entre Badlands e Days of Heaven (1978), a segunda longa-metragem de Terrence Malick. Em ambos os filmes Malick recorre a um narrador presente, e em ambas as histórias o narrador é uma jovem púbere. Tal como Badlands catapultou as carreiras de dois grandes actores, também Days of Heaven foi o primeiro grande filme de Richard Gere e de Sam Shepard (à época mais interessado em escrever do que em representar). A música é um recurso essencial nos dois filmes. No primeiro, pelo génio de Carl Orff; no segundo, pela genialidade de Ennio Morricone. Mas se estas são meras coincidências de interesse relativo, o mesmo não podemos afirmar quanto ao facto de ambos os filmes começarem com uma fuga.

A fuga é uma presença constante em todas as obras de Terrence Malick. Por vezes associada à busca de felicidade, outras vezes ligada aos apelos da liberdade, ou ainda enquanto consubstanciação da vontade própria, a fuga é um elemento central nos filmes do realizador norte-americano. Não estamos certos de que isso se deva a um qualquer fundamento filosófico na raiz da obra, mas é muito provável que exista em Terrence Malick uma ideia da fuga enquanto acção de distanciamento relativa a um contexto opressor, castrador, paralisante, que barra a vontade dos indivíduos obstaculizando-lhes o desejo e, consecutivamente, impedindo-os de se afirmarem enquanto seres únicos e irrepetíveis.

Talvez seja por isto que Sam Shepard prefere falar de visceralidade, afastando o estereótipo de “filme intelectual”, quando se refere aos filmes de Malick (ver aqui). De facto, se é verdade que são filmes impregnados de reflexões filosóficas e de questões sobre o sentido da vida, também não deixa de ser verdade que são filmes onde a vida se mostra pelo seu lado mais cruel, físico e sensual. A metafísica de um filme como Days of Heaven desce à terra em sucessivos planos que provam não haver separação entre a matéria do pensamento e os anseios da carne. Daí que ao lado de uma manada de búfalos na pradaria possamos encontrar uma “manada” de trabalhadores rurais numa vasta plantação de trigo, ou que quando dois amantes passeiam num rio, acariciando-se discreta e anonimamente, sejam ladeados por um grupo de cavalos selvagens à solta…

Estes contrastes, eventualmente metafóricos, entre a vida animal e os dramas da pessoa humana não serão por acaso, sublinham uma relação nem sempre pacífica entre a normalidade a que se sujeita o ser e a anormalidade que o determina em estado bruto e natural. Neste sentido, Days of Heaven acaba por ser muito mais explícito do que Badlands. A primeira fuga de Bill, na companhia da jovem irmã e de Abby (a amante secreta), transfere-nos de um cenário industrial, típico do início do século XX, para uma paisagem rural em pleno decurso de uma invasão trazida pelos produtos da indústria. Esta transferência opera um contraste mas não impõe uma cisão, mistura as duas realidades, confunde os elementos como dentro de um coração humano se confundem bem e mal, amor e ódio, anjos e demónios.

A demanda do paraíso transforma-se, mais uma vez, num inferno do qual não se escapa. É pois interessante notar que a cena dos agricultores combatendo uma praga de gafanhotos, degenerando para um incêndio de proporções infernais, adquire neste filme uma dimensão simbólica inquestionável. A praga que ali se combate é a dos instintos, é a do ciúme que Bill sente quando constata o crescimento do amor de Abby pelo patrão, é a dor do patrão quando percebe ter sido vítima de um logro, de um cambalacho entre Bill e Abby para ficarem com os seus bens, os bens de um fazendeiro rico, materialmente bem-sucedido, mas doente e só. Aquela luta contra os gafanhotos é a luta dos homens contra a sua própria natureza, enquanto debaixo da terra as sementes rebentam e a espiga brota.

domingo, 6 de maio de 2012

BADLANDS




Terrence Malick (n. 1943) estreou-se nas longas-metragens com Badlands (1973), um filme cuja história foi baseada no caso verídico do serial killer Charles Starkweather (está disponível um documentário no YouTube sobre este caso, aqui e aqui). O título do filme, que remete para as terras baldias, áridas e inóspitas, da América do Norte, terá algo de metafórico. Apesar da paisagem natural que serve de cenário à acção ser outra, a paisagem humana revela-se igualmente árida e inóspita. A inclinação de Malick para as reflexões sobre o papel/lugar do homem na Natureza mostra-se já neste primeiro filme, embora ainda de um modo implícito. De resto, é provável que o interesse tenha na sua origem as influências de um pai geólogo e da formação filosófica levada a cabo em Harvard.

Seja como for, Badlands é um filme que pode ser visto sob várias perspectivas. No centro das atenções encontramos um casal peculiar que serviu para catapultar as carreiras de dois excelentes actores, Martin Sheen (Kit) e Sissy Spacek (Holly). Ele é um tipo desassossegado com espírito aventureiro, aspecto decalcado de James Dean, vítima da rotina imposta pelo ambiente social da pequena cidade do Dakota do Sul onde reside; ela é uma jovem adolescente que vive sozinha com um pai superprotector. Encontram-se, apaixonam-se e, por força das circunstâncias, põem-se em fuga deixando por onde passam um rasto de vários crimes sangrentos.

Malick não parece muito interessado em explorar a culpabilidade de ambos nos crimes cometidos ou a possível inocência da jovem rapariga, vítima de uma paixão funesta e da má influência sobre si exercida. O filme não tece juízos morais sobre as personagens e esse é, como em todas as grandes obras, um dos seus maiores méritos. Há, sem dúvida, uma relação de influência entre ambos, mas ninguém pode afirmar com certeza o maior ou menor grau de influência de uma das partes sobre a outra. A ingenuidade de Holly não contrasta com um certo vedetismo de Kit, são ambos produto de uma realidade que facilmente aliena o espírito humano.

O que se torna evidente é a necessidade de fuga que os aproxima e une, a busca de um mundo alternativo àquele que os gerou. O retiro para um cenário idílico, no meio da natureza, com uma casa construída numa árvore, permite-nos perceber isso mesmo. Podemos inclusive ir mais longe. Se repararmos, as únicas pessoas que o casal não assassina ao longo da fuga são, precisamente, aquelas que cedem, respeitam, aceitam as suas vontades. Todos os crimes cometidos surgem de um conflito que impede a vontade e ameaça a concretização de um sonho. Primeiro o pai de Holly, que os não quer ver juntos, depois os homens que se preparam para invadir-lhes o espaço na floresta, depois um ex-colega de Kit que tenta denunciá-los…

Que Holly não compreenda por que motivo Kit se entregou, interrompendo a fuga quando podia continuá-la sozinho, oferece ainda mais consistência a esta ideia paradoxal de duas pessoas que em busca de um paraíso particular causam um inferno geral. É como se a felicidade, esse ponto em que a vontade deixa de encontrar obstáculos à concretização dos seus sonhos, não fosse possível senão em completo isolamento social, na solidão que se procura fora do mundo ou, se preferirmos, no interior do seu e de mais ninguém universo.

O casal de Badlands é impossível por não haver território onde possa vingar. A normalidade que os rejeita socialmente impele-os para a loucura, oferecendo-lhes alguns bons momentos no meio da Natureza. A maioria nem isso almeja, suicidando-se diariamente entre quatro paredes e recusando-se a viver sem o consentimento dos outros. Não podemos admirar a dupla Kit & Holly, sob pena de nos tornarmos cúmplices dos seus crimes, mas, e nestas coisas há sempre um mas, partindo do seu exemplo, podemo-nos questionar acerca dos crimes que, também nós, cometemos contra nós próprios ao impedirmo-nos de lograr durante uma vida inteira pelo menos um momento de pura liberdade.

sábado, 5 de maio de 2012

30 ANOS NÃO SÃO 3, SÃO 30

Ao longo dos últimos 9 anos, não foram poucos os autores que me contactaram na sequência de textos que escrevi sobre os seus livros. O Amadeu Baptista foi um deles, depois desta prosa sobre Negrume. Não nos conhecíamos, nem sequer podíamos dizer que tivéssemos amigos em comum. Acabámos por nos conhecer, mais tarde, com o Rui Almeida a servir de intermediário. A história foi contada aqui. O curioso é que eu não tinha boa impressão do Amadeu Baptista, muito por culpa de um artigo publicado na revista Apeadeiro (n.ºs 4 e 5, Inverno de 2004) em reacção a uma crítica assinada por Pedro Mexia. Além do Amadeu Baptista, subscreviam o artigo, intitulado Crítica Pop-Corn ou o Al-Shaaf Lusíada, José Emílio-Nelson e Luís Adriano Carlos. Como aquilo resvalava para o ataque pessoal, misturava alhos com bugalhos e tinha a infelicidade de ser uma reacção a um texto crítico em particular, fiquei a modos que desconfiado da boa intenção por detrás do texto. Ora, os textos sugerem impressões a partir das quais nós construímos imagens. É sinal de maturidade, parece-me, resistir à tentação de formar uma imagem sobre um autor a partir daquilo que ele escreve. Se ambos não vivem um sem o outro, mentira não será que essa relação se manifesta frequentemente de um modo conflituoso. Daí que grande parte do que escrevemos não reflecte exactamente o que somos, mas apenas aspectos da nossa personalidade vindos à tona em ocasiões particulares. Todas as pessoas são, paradoxalmente, complexas e entediantes, vivem os mesmos anseios com maior ou menor intensidade e fazem com as suas experiências matéria de aprendizagem ou lixo reciclável. Esforço-me por adoptar a primeira das atitudes. Por isso me distancio dos homens e aproximo dos textos, não pretendo tanto cultivar os primeiros como faço questão de me cultivar com os segundos. Há quem me leve a mal por isso, talvez por não pensar como eu. Celebrem-se, então, 30 anos de textos:


APONTAMENTO, ENTRE AS PÁGINAS DE UM LIVRO DE JORGE DE SENA



Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia.
Mais longe ainda que o silêncio denso
onde tudo se amplia e se concentra,
seja o amor a expressão mais simples
do que se escreve e passa para o mundo
como mais nítida transparência entre os sinais
que nos entregaram um dia e soubemos
guardar inexoravelmente. Pode o vazio
vir despedaçar-nos, encher-se o coração
de solidão, enegrecer-se a alma
de não haver sentido, desesperar-se
o espírito por não ouvir o anjo,
seja a expressão do amor a poesia.
Onde quer que estejamos há-de estar o indizível,
mas menos insondável há-de ser o nosso nome
se entre o infinito em que estivermos
for a expressão do amor a poesia.
Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia
.

Amadeu Baptista, in Antecedentes Criminais – Antologia Pessoal 1982-2007, Quasi Edições, Abril de 2007, p. 45.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SUTTREE





Escritor reservado e não muito prolixo, Cormac McCarthy (nascido em Providence, 20 de Julho de 1933, e baptizado Charles McCarthy) estreou-se em livro no ano de 1965. Suttree, originalmente publicado em 1979, foi o seu quarto romance. Esta edição da Relógio d’Água tem tradução de Paulo Faria, que também assina um proveitoso prefácio, e foi editada em Fevereiro de 2009. Suttree é um romance exigente, em muitos pontos comparável ao Ulisses de James Joyce. Apesar da estrutura não ser tão complexa, também aqui os tempos se misturam em torno de uma personagem central e das suas deambulações por uma cidade. Neste caso a cidade é Knoxville. «A Knoxville desaparecida que Cormac McCarthy descreve nestas páginas (e muitos a compararam já à Dublin de Joyce em Ulysses ou à São Petersburgo de Dostoiévski em Crime e Castigo), todavia, nunca existiu. Poderíamos ter vivido nesta cidade em plenos anos cinquenta e nunca teríamos visto a urbe medieval que McCarthy aqui nos pinta, sulcada por uma Cloaca Maxima (assim mesmo, em latim, como tantos outros termos e expressões nesta língua que coalham o texto do romance e lhe conferem o seu deliberado e inconfundível cunho arcaizante)» (p. 8). Esta Knoxville é, antes, um cenário que oferece terreno para personagens desamparadas, microcosmo povoado por gente tão excluída que parece improvável, bêbados e putas, sem-abrigo, um violador de melancias e um índio especializado na confecção de tartarugas, aquele tipo de gente de quem hoje se diz viver na mais inumana das condições, «feios, porcos e maus» que dão consistência à palavra ruína. A paisagem descrita com precisão fotográfica mostra-nos a imundície onde os corpos deambulam, despojos da vida quotidiana com existência própria, charcos, lixeiras, bairros degradados onde a sobrevivência resiste à razão de migalhas. Não satisfeito com uma descrição meramente visual, McCarthy acrescenta-lhe os cheiros: «o odos fétido das roupas mesclado com um vago fedor a whiskey» (p. 30), «odores intensos a resina de pinheiro e a estrume» (p. 107), «um cheiro intenso e ácido a fumo de lenha e a gordura e a peixe» (p. 237), «um odor a leite acabado de ordenhar» (p. 362), «um cheiro fétido, qual bosta a fritar» (p. 432)… Podíamos encher várias páginas com estas evocações dos cheiros, dos odores e das fragrâncias quase sempre fétidas e bafientas. Suttree refugia-se no rio quando pretende escapar à cidade, mas o rio que atravessa a metrópole, como o tempo atravessa a vida, transporta no seu leito os detritos, os excrementos, os restos, o lixo da urbe. Há nele uma permanente vontade de evasão. Começa na mudança para a casa flutuante junto ao rio e termina com o abandono da cidade. Recluso já não só de um passado sobre o qual não tem tempo para se perder em conjecturas e elucubrações, ele está preso a uma cidade que não lhe permite viver senão escapando sempre por um fio, no limite da sanidade, com os ossos à mostra sob temperatura agreste. As preocupações das pessoas que o rodeiam são básicas. Onde dormir? O que comer? Como escapar? E entre elas mistura-se o coração solitário de Cornelius Suttree, a sua percepção da tristeza e da amargura que contamina a terra, uma criatura onde a esperança foi consumida pelas chamas da angústia e se transformou em cinza. Ao longo das quatro estações que marcam o tempo da narrativa, encalhada no ano de 1951, vamos acompanhando esta criatura de aventuras várias, por vezes escatológicas e caricatas, outras vezes assombrosas, comos e fôssemos largados no meio de uma espécie de esgoto humano onde o corpo de tudo o que respira foi tomado por uma única necessidade: safar-se. Finda a leitura, também Suttree deixa dentro de nós um «grito meio estrangulado», um rastro de sangue que anuncia apenas uma boa decisão: partir para não mais regressar.

BILLY TWO HATS




Billy Two Hats (1973), baptizado em Portugal como Amigos até ao Fim, é um western sentimental de segunda linha realizado pelo desconhecido Ted Kotcheff (Canadá, 1931). Rodado em Israel, tem a seu favor Gregory Peck no papel principal, um bom vilão, de origem britânica, ligado por profunda lealdade a um rapaz mestiço. Do lado oposto, o Sheriff Henry Gifford, interpretado por Jack Warden, não consegue compreender a amizade entre brancos e mestiços. O tema do filme em maior evidência é, pois, o racismo, mas de um modo talvez mais subtil a degenerescência moral dos povos, aqui especialmente representada pelo sheriff racista e por uma pradaria árida onde já não se avistam búfalos e os índios, que eram aos milhares, juntam-se agora em pequenos gangues à cata do uísque dos brancos. A cena que acima se reproduz tem qualquer coisa de neo-realista. E não será exagerado afirmar que nos rostos daqueles índios é possível ver muitos dos portugueses que visitaram o Pingo Doce durante o último 1º de Maio.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

HÁ QUEM SUGIRA COMPARAÇÕES

Entre isto:



E isto:



Brutal.

PINGO DOCE

O caso Pingo Doce rapidamente resvalou para uma histeria que não anda longe, em termos de impacto, das anódinas crónicas humorísticas do Ricardo Araújo Pereira na Rádio Comercial. Arrancam-nos umas boas gargalhadas e depois passa. Tem sido assim com imensos casos em que as pessoas se indignam muito para dessa indignação não serem retiradas consequências algumas. A discussão está logo à partida inquinada pelos preconceitos sectaristas que levam os “parlamentares” a tomar o partido de uns em detrimento de outros, como se tudo tivesse que obedecer a uma lógica maniqueísta. Uns são pelos patrões, outros são pelos trabalhadores, outros são pelo povo, essa massa indefinível que tanta dor de cabeça dá.
Fala-se de atentado à dignidade humana, esquecendo-se que milhares de pessoas aderiram voluntariamente a esse atentado. A dignidade humana dos portugueses é a mesma que permite Cavaco 30 anos no poder, faz do Ídolos um dos programas televisivos de maior audiência, elege Salazar o mais importante português de sempre, etc, etc, etc… Sejamos honestos, os portugueses são quem mais tem atentado contra a sua própria dignidade. Estamos a falar de um povo que todos os anos manda dezenas de mulheres para o cemitério à conta de porrada doméstica, estamos a falar de um povo que se comporta ao volante como militares de metralhadora na mão em palco de guerra. Num contexto de incivilidade como este, promovida por um Estado negligente que vem transformando a educação e a cultura, pilares básicos do mundo civilizado, numa mercadoria tão facilmente saldável quanto os produtos que desapareceram das prateleiras do Pingo Doce, é extremamente difícil falar de atentados à dignidade humana.
Também nos falam de um regresso ao terceiro mundo, como se o terceiro mundo não estivesse entre nós todos os dias, manifestando-se em comportamentos, atitudes e opções que, ao passarem despercebidas, nos afundam ainda mais na apatia mórbida que vai corroendo pequenas (mas árduas) conquistas que permiteam falar de progresso nesta sociedade. O que este caso tornou evidente, mais uma vez, como se fosse necessário clarificá-lo agora, é que muitos portugueses sentem-se mais motivados a baterem-se vigorosamente por uma promoção do que pelos seus próprios direitos. Num país a saque não é de estranhar que assim seja.
Mas não duvidem os ingénuos que vieram falar da exploração das necessidades e de fome que os verdadeiros necessitados e esfomeados não puseram ali os pés, porque esses nem 50€ têm para poderem trazer 100€ de compras para casa. Falar de terceiro mundo é, neste contexto, perceber que vivemos num país em que a vitória do Real Madrid ocupa meia hora de um telejornal e o desaparecimento de Fernando Lopes um mero minuto. Falar de terceiro mundo é perceber que o valor do consumo superou, na nossa sociedade, qualquer outro valor. Falar de terceiro mundo é perceber a profunda crise ética, moral, para que temos vindo a caminhar como os cegos de Brueghel, cada vez mais brutos, cada vez mais estúpidos, cada vez mais sós.
Já aterrámos no fundo do abismo, isto não é de agora. O abismo é esta crise onde o viver foi substituído pelo sobreviver, o ser pelo ter, o necessário pelo supérfluo, o espiritual pelo material, é uma crise onde falar de ética empresarial é já estar contra o patronato e ser um perigoso comunista, como se todos os agentes operantes numa sociedade não fossem responsáveis pela evolução dessa mesma sociedade. Daí que a maior crítica que possamos fazer ao Pingo Doce e aos seus militares do marketing, certamente todos eles respeitáveis trabalhadores, é a de se terem borrifado para a ética empresarial e para as responsabilidades sociais de uma empresa. Seria bem feito que um dia destes os clientes e os próprios trabalhadores do Pingo Doce, as verdadeiras vítimas desta acção desumana (terem sido sujeitos a trabalhar naquelas condições é inquestionavelmente desumano), também viessem a borrifar-se para os donos do Pingo Doce, obrigando-os a emigrar para onde eles poderão competir com as suas regras típicas de um mercado selvagem. Selvagem de incivilizado.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

FERNANDO LOPES (1935-2012)





Calma, ainda não é o fim do mundo. Mas 2012 tem sido, sem dúvida, uma razia. Agora foi-se Fernando Lopes, autor de um Belarmino (1964) que me marcou para a vida. E de outros, tais como as adaptações da Crónica dos Bons Malandros (1984) ou d’O Delfim (2002). Gostava de ouver Fernando Lopes, estou a ficar mais sozinho, as pessoas que gosto de ouver neste Portugal-latrina-irrespirável estão a desaparecer. Belarmino inspirou-me um texto publicado no número 07 da revista Callema (Novembro de 2009), a que trazia, precisamente, Fernando Lopes na capa. Recupero o texto, em jeito de memória:



UMA BOLA-DE-BERLIM E UM COPO DE LEITE


«É realmente uma desgraça ter nascido em Portugal. Sentimo-lo quando nos nasce um filho. Parte para a vida em desvantagem» (Ruy Belo). Aqui tudo é ínfimo e efémero. Aqui, logo que nasce, tudo nasce com ferrugem. Tu és o meio de nada, eu sou o nada do meio. Aqui não importa, não interessa. Aqui o esquecimento marcha e pronto. Somos o esquecimento a marchar, em solene parada, pelas auto-estradas da (des)informação. Aqui o que importa só importa a quem importa. A quem não importa, bate-se com a porta. «Belarmino podia ter sido grande», sentencia o ex-manager. «Se tivesse nascido noutro país?» - indaga o entrevistador. Mas naquele tempo, como hoje, as medidas e as grandezas neste país eram relativas. Elas estavam relacionadas com a capacidade de resistência dos combatentes, não se reduziam ao star system que torna universais vedetas quase sempre temporárias. Porque depois o tempo encarrega-se de as rasurar da memória colectiva. Neste sentido, Belarmino Fragoso podia simbolizar qualquer um dos resistentes – um boxeur nesse combate contínuo que é a vida dos espíritos vadios -, dos guerreiros, dos batalhadores. Ele podia significar, inclusive, um cinema em estado de resistência ao fundo convencional, moralista e censório das academias instaladas. Não serão por acaso aquelas cenas de rua, o plano do porteiro, Belarmino a passear junto às salas da época, lembrando que o boxe começou quando ele quis arranjar dinheiro para ir ao cinema. Passados todos estes anos, como dialogar aqui e agora com Belarmino (1964), o filme de Fernando Lopes?
Em 1959, Les Quatre Cents Coups foi apresentado no festival de Cannes. A data assinala o advento da Nouvelle Vague francesa. Uma Nova Vaga portuguesa terá nascido com Belarmino. De resto, encontro algumas coincidências entre o boxeur português e o jovem rebelde de François Truffaut. Também o malandro de A Bout de Souffle podia ser chamado à liça. Sento-os numa mesa de café, os três à conversa, e o que observo são personagens vivas e marcantes, vagabundos, cada um à sua maneira, que desafiam com o corpo o sempre irritante aqui. Mas porque irrita o que irrita, aqui? Porque comove o que comove, aqui? Porque ecoa o que ecoa, aqui? Porque o aqui vem de acolá e o acolá é também já o aqui. Digamos que, na verdade, não há aqui. Aqui é tudo um acolá em construção, é um diálogo, uma entrevista, uma encenação. Quem de acolá chegar aqui, quem de acolá vier para aqui, vem por quê? Que motivos trará aqui os que vêm de acolá? ConfirmArem, reafirmarem, verificarem o quanto aqui são o aqui de acolá. Redondo, este discurso? Talvez... Mas já alguma vez te perguntaste, caro leitor, o que fazes aqui? Por que não ficas do lado de lá, do lado de fora, do lado do leitor? Por que insistes em penetrar o texto como o espectador penetra a película? E por que te necessita tanto, a ponto de não resistires, o dizeres-te daqui ao mesmo tempo que te dizes de acolá? Por mal que te pergunte, lembras-te de alguma vez os olhos se te encheram de lua? Algum dia o peito se te rebentou para dentro em fogos-de-artifício? As pálpebras ardem de emoção sempre que entramos em diálogo com uma obra que nos afirma o aqui. Há uma distância que separa o criador da obra, a obra do, digamos assim, espectador. Mas essa distância é como que ultrapassada por uma espécie de simpatia, por um reconhecimento que a obra gera ou não naquele que desfruta dela. Qualquer um dos filmes supracitados é de há muito. No entanto, parecem ser de agora, do tal aqui, porque lograram traduzir, testemunhar e reflectir não um tempo, mas o tempo, sentimentos com os quais facilmente nos identificamos para lá das horas.
Com Belarmino, engraxador, ardina, colorista de fotografias, segurança, biscateiro, boxeur, comovemo-nos e, de certa forma, identificamo-nos. «Não era o Belarmino Fragoso que estava a jogar, era apenas a necessidade de ganhar quinze contos». Aí estamos no lugar da sobrevivência, um combate travado por muitos, por vezes apenas com uma bola-de-berlim e um copo de leite no estômago, Um combate travado com os punhos e com o sangue, com a cabeça e com os olhos, com o corpo todo, um combate que sempre foi o nosso, o dos portugueses com uma vida de dificuldades, o dos obstinados, aqueles que teimam em fazer alguma coisa, em criar para lá dos limites impostos pelas bengalas dos padrinhos, daqueles que nasceram sem apelido e, por isso, tiveram de se fazer à vida. Ainda hoje, neste país de caciques e de apadrinhados, a sociedade funciona por exclusão de partes. São os cachecóis em hélice, os cânticos do guerreiro, a afinada pantomima das palmas. São os devotados gritos da turba, a comunhão de um símbolo e um pingo de suor escorrendo-nos das fontes aos ombros. E nesta correria esquecemo-nos da brasa que grelha o mundo. Porque há também a indiferença, o deixa andar, o soslaio. O esquecimento cresce à medida que a fantasia toma o lugar dos pés. Olha o soco em falso como um poema falhado. Olha o murro nas arcadas em sangue. Olha o tapete como a batalha da folha em branco. «Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?» (Alexandre O'Neill) É um combate para trezentos leitores. Olhemos, pois, a defesa instintiva como um verso caído do coração, o drible como uma metáfora. Vejamos no soco certeiro, naquele que levanta a plateia em participado delírio, vejamos nesse soco um caminho para a perenidade. Mas nunca esqueçamos, há horas em que o melhor é mesmo passar a bola. Passar a bola assim como quem passa a palavra. Porque o aqui é um jogo, o jogo que nos predispusemos jogar indisciplinadamente, com as nossas próprias regras.
Há um preço a pagar pela indisciplina: a solidão. O filme de Fernando Lopes é exímio enquanto testemunho desse preço. Belarmino começa por ser filmado a treinar isolado dos restantes pugilistas. As cenas no balneário vazio, no corredor fantasmagórico que dá acesso ao estádio sem público, são o rosto desse preço. São cenas perenes num país ínfimo, são cenas que combatem a efemeridade do mero espectáculo. A solidão apenas é quebrada quando o nosso anti-herói aparece na companhia da família, sobretudo da mulher, que lhe inspira elogios ternos e amáveis. E depois, quase a terminar, o contraste entre a Lisboa do cabaré e a Lisboa do clube de jazz, o contraste social que reforça esse clima de isolamento e de solidão envia-nos para uma verdade das personagens que não deixa de ser minada ao longo do filme. Godard dizia: «De uma maneira geral, a reportagem só tem interesse quando é inserida na ficção, mas a ficção só tem interesse quando se verifica no documentário». Esta relação entre ficção e realidade percorre Belarmino, uma espécie de documentário encenado onde se trava um combate permanente entre entrevistador (Baptista-Bastos) e entrevistado (Belarmino), uma mise-en-scene que sugere um debate irreal entre ex-manager e boxeur, afinal, um «cinema verdade» em «estado de fraqueza». Vá lá, confessemo-nos de uma vez. Mesmo por trás da palavra, o ego enche-se quando o soco é certeiro. Mas às vezes o corpo vai às cordas, o murro sai em falso, a alma esvai-se pelo tapete. Sempre houve muitas derrotas a cadenciar a vida dos heróis. E o pretexto para o filme sobre Belarmino é, precisamente, uma falsa-notícia sobre uma eventual derrota. Verdade e falsidade estão no ringue desde o início, é esse, precisamente, o principal combate do filme.
Passados todos estes anos, como dialogar, então, aqui e agora, com Belarmino? Dirijo-me ao eventual leitor sem qualquer formalidade. Sabes que às vezes a bola vai-te ao poste. É que lá fora, lá fora é bem pior. Rostos queimados, corpos degoladas, cidades extirpadas. É do baril. Tudo porque a presunção deforma a vontade das forças que decidem por nós o destino do mundo. Se fôssemos nós a mandar, seria tudo perfeito. Se fosse tudo como nós queremos, seria perfeito. Mas não é. Por isso mesmo vens aqui. Por mais nada, vens aqui e por aqui vais ficando. Milhões de anónimos votados à fome e à miséria jamais deixarão de ser anónimos. Guerras que pretendem resolver nunca saberemos bem o quê. Guerras que pretendem reorganizar, destruindo. Reformar, desfazendo. Guerras que pretendem salvaguardar-nos de vírus menos ameaçadores que os remédios. São as nossas lutas, aqui. A luta por uma verdade constantemente ameaçada pela mentira. Agora. Guerras ínfimas, pequenas, as possíveis. Nós, os ingénuos, sabemos que neste jogo de poder apenas duas partes sairão vencedoras: o ódio e a incúria. Sob dissimuladas capas, assistiremos perpetuamente aos desfiles de medo e de morte que a guerra, o motor do poder, imprime. Calados. Resignados. Quietos. Que se matem, matando-se. Que se nomeiem, nomeando-se. Que se afrontem, afrontando-se. Que se assassinem, assassinando-se. Os nossos filhos saberão dar valor ao nosso silêncio. Mas nós jamais saberemos dar valor à arte de fingir que não se vê, que não se sabe, que vai tudo correndo na boa... É do baril. Fica sabendo: isto não tem nada que ver com lutar. Isto é apenas e tão-só: estar aqui.

A. PEDRO RIBEIRO

Gosto do que escreve o A. Pedro Ribeiro. Sei de quem o leia com indiferença e encolha os ombros, mas eu não consigo encolher os ombros perante palavras tão claras e objectivas. Há não muito, o Ribeiro dizia-me que também tem os seus telhados de vidro. Acredito, um homem não é de ferro. Reconhecê-lo só fica bem. Mas os poemas do Ribeiro não são de vidro, tudo o que ele escreve é tão essencial que pouco mais importa:


A barbárie já chegou a Portugal. No 1º de Maio, Dia do Trabalhador, uma massa de gente agrediu-se e atropelou-se a troco de uns descontos no “Pingo Doce”. Bárbara é a atitude do dono do “Pingo Doce” que põe os trabalhadores a trabalhar no 1º de Maio em condições miseráveis. Bárbaro é o seu oportunismo financeiro. Mas bárbaros são também aqueles que, sem qualquer ponta ...de dignidade, invadem os supermercados no 1º de Maio e se batem por um naco de carne. Passos Coelho e o Alexandre do “Pingo Doce” conseguiram levar o país até à barbárie. Afinal, o respeitinho, os brandos costumes e as boas maneiras são só de fachada. Bastaram umas promoções para virem ao de cima, além da pobreza e da miséria, os instintos básicos do salve-se quem puder, do egoísmo, do fechamento na família, do primitivismo intelectual, da inveja, da falta de humanidade. E isto ainda está no princípio… (aqui)