sábado, 5 de maio de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #50





Oriundos de Düsseldorf, os Kraftwerk surgiram no início da década de 1970 com uma atitude futurista nunca mais conseguida. A aparição coincidiu com o advento de uma música essencialmente electrónica, que encontrou na estética da banda, mecânica, robótica, inumana, a expressão perfeita de uma realidade em transformação. Ao ouvirmos Trans-Europe Express custa-nos acreditar que tenha sido produzido em 1977, longe ainda das facilidades proporcionadas pela evolução do software musical em particular e das novas tecnologias em geral. Os temas minimais e repetitivos dos Kraftwerk anteciparam e definiram o curso de grande parte da música instrumental entretanto vinda a lume. Sobre ritmos hipnóticos, com vozes não raramente manipuladas, letras simples e directas sobre a distorção da realidade espelham a deformação identitária a que fomos sujeitos pelo progresso. É o futuro pós-humano em análise, num laboratório onde a reprodução se desorganiza e transforma em clonagem, onde a pele se plastifica e a carne é enxertada com silicone. Os olhos que nos olham já não nos vêem, são globos embutidos no crânio de um manequim dentro do qual a conjugação de vários sistemas permite decifrar gestos, atitudes programadas e programáveis, comportamentos tornados previsíveis para mais facilmente serem controlados e reproduzidos. É o paraíso da técnica em evidência, a busca da perfeição iniciada com o combate racionalista ao erro, prosseguido na Revolução Industrial e reanimado com a Revolução Tecnológica ainda em vigor. We are showroom dummies, cantavam os Kraftwerk em 1977. Tinham razão.

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