terça-feira, 8 de maio de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #51





Constato que não tenho trazido muita música portuguesa para aqui. Não é culpa minha que 90% da música produzida em Portugal seja profundamente desinteressante, ora porque decalca o vindo de fora, ora porque se repete com o nascido cá dentro. Não foi o caso dos fugazes Lucretia Divina, assinantes de um Mal d’Honor (1993) envelhecido com inegável requinte. O que dizer sobre a música desta banda? Talvez que unia um gosto pela desconstrução da tradição, por via das melodias de Rini Luyks, a uma atitude poética algo grotesca e irónica personificada, sobretudo, na pessoa de Fernando Alagoa. Se bem sei, eram de Viseu e participaram em alguns concursos sem grande efeito. Tiveram o mérito de nos colocar no centro de uma arena onde os cornos da vulgaridade eram fintados por uma ousadia tão rara que merece ser lembrada. Os temas mais difundidos terão sido Maria! e Cartel de Sevilha, ambos respigados numa herança tradicional a pedir para ser reinventava. Ritmos programados e urbanos, contrastando com melodias arrancadas à tradição (do fado ao flamenco, do cabaret berlinense à chamada chanson français…). Envolvia-os um imaginário arty que se foi perdendo ao longo dos anos, por culpa, talvez, de uma necessidade de afirmação imediatista que nada tem que ver com as exigências da criatividade. Às vezes é preciso parecer estranho para se ser autêntico. E os Lucretia pareciam estranhos quando surgiram, obrigando-nos a pensar para lá de estereótipos e preconceitos cristalizantes com admirável autenticidade. Ainda bem.

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