quarta-feira, 16 de maio de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #52





O talento de Bernardo Sassetti foi sendo consolidado, ao longo dos anos, através de vários encontros. Aquele que é mais celebrado é o encontro da música erudita com o jazz. Mas Motion (2010), o último álbum em nome próprio publicado em vida, resume as confluências de uma actividade musical que nunca negou a sua matriz universalista. Há quem lhe chame ecumenismo e se oponha ou desdenhe desta capacidade de reunir. Aqui aplaude-se. Hoje, o álbum denota uma melancolia comovente. Sobre ele pesa o trágico, porque completamente inesperado, desaparecimento do autor. Sendo impossível a abstracção, façamos um esforço para nos concentrarmos apenas no essencial. Motion abre e encerra com versões. A abertura foi sacada aos Sparklehorse, projecto do malogrado Mark Linkous, que se suicidou em 2010. Uma melodia que aqui ganha imenso com a percussão “taqueteante” de Alexandre Frazão e a interpretação aveludada de Sassetti. O tema embala-nos para uma viagem com as cores de Lisboa, cidade onde as ruas respiram nostalgia e o céu sombreia vielas de tempos apenas reconhecidos como nossos por neles irmos vivendo. Já o último tema do álbum é um original do catalão Frederic Mompou, um tema onde pressentimos uma dança íntima, reservada, isolada do mundo, um tema algo romântico arranjado com impressionante delicadeza. Pelo meio, composições para peças de teatro e para cinema, por vezes mais próximas de um minimalismo experimental, outras vezes declaradamente jazzísticas, mas quase sempre num tom apaixonadamente acolhedor. O baixo de Carlos Barretto acompanha com clareza os momentos de maior libertação, concentrando a música num movimento tão consistente como o da cadência dos fotogramas numa tela de cinema. O quarto tema chama-se O Homem que Diz Adeus, é dedicado a uma personagem lisboeta por demais conhecida. É arrepiante ouvi-lo agora. A gente sente que daqueles dedos saíam frases como do coração nos sai o sangue, impregnado de pequeníssimas partículas químicas que ora aceleram, ora retardam, as sinapses, que solidificam a massa cinzenta sobre a qual, dentro da qual, construímos os abrigos da emoção. Se parece certo que música desta não se perderá, não nos percamos nós desta música.

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