quinta-feira, 24 de maio de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #53





Falemos de génio, a mais rara encarnação humana. Miles Davis deu-lhe rosto ao nascer no dia 26 de Maio de 1926. O jazz moderno confunde-se com o seu percurso. O be-bop dos anos 40, o cool jazz da Tuba Banda na passagem para os 50, o hard-bop dos 60 e Bitches Brew. Bitches Brew (1970) é todo um tratado sobre a arte de improvisar com um instrumento nas mãos, economizando evidências e destaques em prol de uma linguagem onde o múltiplo se torna Uno. Pura alquimia. Depois disto falou-se de free jazz (conceito que Miles Davis repugnava), de jazz de fusão, de cedências ao rock e à pop, falou-se de tudo. Os críticos falaram assim: «Miles tinha-se rodeado de um insólito formigueiro de sons, cruzamento entre o jazz, rhythm and blues e rock psicadélico, obtendo resultados de uma tensão altíssima que, após a surpresa inicial, convenceu os exigentes aficionados do jazz». Preferimos falar de uma dança aparentemente desorganizada, de movimentos caóticos, com os instrumentos a dispararem em todas as direcções. O tom inicial é algo enigmático, mas logo explode com uma energia onde não há lugar para perplexidades. Os solos emergem sob rumos diversos, conjugando-se sem predomínios numa atmosfera que nos transporta, na escuridão de uns olhos fechados, para remotas paisagens tribais. Talvez enraíze o exorcismo certo culto do voodoo, o mesmo que deu cor à anarquia psicadélica de Hendrix. A capa não engana. E o tema do título é um excelente exemplo dessa misteriosa evocação dos espíritos, com a trompete de Miles chamando a si a pronúncia dos salmos. Frases curtas, mas soantes, como quem por negras magias expurga a alma de demónios malignos. Tal como nesse portentoso Miles Runs the Voodoo Down. Além de Miles, tocam Wayne Shorter, Bennie Maupin, Joe Zawinul, Chick Corea, John McLaughlin, Dave Holland, Harvey Brooks, Lenny White, Jack DeJohnette, Jumma Santos. Já tive a felicidade de ouvir alguns deles ao vivo. Posso não vir a morrer feliz, mas infeliz também não hei-de morrer.

3 comentários:

manuel a. domingos disse...

fazer a A1, à noite, ao som deste álbum é uma "viagem"

hmbf disse...

E se for na A2?

manuel a. domingos disse...

a "viagem" é maior :D