terça-feira, 22 de maio de 2012

OS MEXICANOS DA GRÉCIA

Entrei na Grécia por Patras, depois de apanhar um ferry em Brindisi. 18 de Agosto de 1998. Uma noite de viagem passada no convés, ora lendo, ora à conversa com quem mostrasse vontade de paleio. Lembro-me de trocar algumas impressões com um inglês que andava a ler o Drácula de Bram Stoker, seis anos antes perdera-me várias vezes pelas salas de cinema de Lisboa a ver a adaptação do Coppola. Mas a maior parte do tempo foi ocupada na companhia de dois alemães, munidos com cerveja, e um indivíduo da Charneca da Caparica com um sentido de humor amplamente beneficiado pelas bolotas enroladas sucessivamente. Sempre soube escolher companhias. Ainda me enfiei no saco-cama e adormeci ao relento, iluminado por altas e românticas estrelas onde não vislumbrei conforto senão para divagações inúteis.

A alvorada foi crescendo envolta em nevoeiro, deixando perceber aqui e acolá ilhas não mais atraentes do que a Berlenga. A chegada a Patras deu-se em confusão, sem saber para onde me virar, com uma mochila às costas, sem postos de turismo por perto, o corpo maçado e sujo, a cabeça, já de si débil, desfeita em divagações. Lá encontrei o caminho para os comboios, uma estação velha e decadente, um corrupio danado onde contrastavam duas velhas ao largo vestidas de negro da cabeça aos pés. Pareciam viúvas da Nazaré, aspecto melancólico e passado, elegias ambulantes equilibrando sobre a cabeça canastras cheias de víveres.

O comboio para Atenas estava apinhado de gente, sobretudo turistas, malta dos inter-rails. Sentei-me ao lado de um tipo provavelmente de origem nipónica. Ofereci-lhe o melhor do meu inglês e ele pagou-me na mesma moeda, falámos muito sem entendermos nada do que dizíamos um ao outro. Com o italiano instalado defronte a conversa foi mais inteligível. Era arqueólogo, andava em investigações, o que, dada a sujidade espalhada pelo corpo, me pareceu evidente. Sem saber explicar porquê, olhava para ele e via uma personagem d’Os Caminhos de Katmandu.

Pouco tempo antes tinha avistado em Patras um porco com uma mochila às costas e, por instantes, julguei estar a ver-me ao espelho. A higiene não era, definitivamente, uma das nossas prioridades. Ainda assim, consegui do italiano informações valiosas sobre como lidar com os gregos. Era preciso desconfiar de tudo o que dessem por garantido, jamais sorrir para um homem na rua sem pretender engatá-lo, mostrar firmeza na hora das decisões mesmo que, do outro lado, nos chegasse a mais cínica das indiferenças. Interrompido o diálogo pelo espanto ao atravessarmos o Canal de Corinto, prestei alguma atenção a um Mexicano que há largos minutos tentava vender as vantagens de uma pensão chamada Aphrodite.

Segui os bons conselhos do italiano e não me deixei ir em cantigas, embora o procurador não fosse grego. Parvo fui ao deixar-me cair numa esparrela de nome San Remo; quarto por mil dracmas, terraço amplo, ao ar livre, por metade do preço. Tendo em conta a bofa, não me pareceu mau negócio. Ora experimentemos o terraço. Uma lixeira a céu aberto, gerida por um emigrante do Sri Lanka casado com uma indonésia. O procurador era mexicano. Da falta de cosmopolitismo não nos podíamos queixar. Havia também uma espécie de bar, frequentado sobretudo por nórdicos, enfeitado com canas verdes e uns bancos de palha, muito ranhosos, quase tão labregos como o arqueólogo italiano.

No amplo terraço, os inquilinos pareciam vítimas dum terramoto em busca de lugar num qualquer abrigo. Encontrei um canto onde podia pousar a mochila, mas era impossível esticar as pernas. Peguei num toalhão e dirigi-me à casa de banho para tomar duche. O cenário era surreal. Uma casa de banho que cabia no elevador do meu prédio em Chelas, um cubículo com sanita e chuveiro, um orifício numa das paredes, de onde entravam melgas enormes enquanto me tentava esfregar com sabão azul, batiam na água e escorriam-me pelo corpo abaixo em direcção ao ralo, para aí desfalecerem sem dó nem piedade. Nunca tomei um banho que me fizesse sentir tão sujo.

Não quis saber de mais nada nesse dia. Procurei o mexicano que me trouxera à alfurja e comuniquei-lhe que só ficaria em troca de um colchão onde pudesse esticar as pernas e descansar, o que me foi prometido para a noite seguinte. A latrina estava sobrelotada, não havia como resolver o meu problema e imediato, se estivesse cansado que fosse até ao bar trocar impressões com os nórdicos sobre filósofos antigos e mitologia grega, os quinhentos estavam pagos e não havia como reavê-los. Cabrão do mexicano, pensei. Voltei-lhe as costas e fui até ao bar. Pedi uma cerveja e perguntei ao índio que geria o estaminé se serviam algo comestível. O tipo olhou-me desconfiado e respondeu três vezes, não fosse eu não perceber à primeira: no snacks, no snacks, no snacks. Paguei a cerveja, peguei num mapa e saí.

A caminho da Praça Victoria fui interpelado por um velho. Queria saber se eu andava perdido, se precisava de um guia. Disse-lhe que precisava de comer. Indicou-me alguns locais no mapa onde seria possível provar o melhor feta de Atenas e beber o melhor ouzo do mundo, a preço de vagabundo e com direito a música tradicional ao vivo. Se eu quisesse, poderia fazer-me companhia. Dispenso, disse-lhe, ao que me apalpou o cu, sorriu e despediu-se com um bye bye beautiful Apollo. Acabei num McDonald’s, julgo que, à época, o único de Atenas, a devorar um Big Mac como se estivesse a banquetear-me em casa de Ágaton. Depois vagueei pelas ruas, sem mapa nem direcção, observando os edifícios decrépitos, uma vasta panóplia de janados, metáfora perfeita de armaduras perdidas e civilizações caídas em desgraça.

A noite no terraço da pensão San Remo foi passada na conversa. Ainda consegui deitar-me sobre uma manta improvisada com caixas de cartão desfeitas, fechar os olhos por breves horas até um sol impiedoso começar a assar-me o corpo. De manhã, mudei-me para um quarto. Haviam providenciado um divã singular junto a duas camas de casal. Iria dividir os aposentos com dois polacos (um ele e uma ela), uma italiana e um norueguês chamado Klaus. Seguiram-se longas caminhadas pelas ruas da cidade, os olhos esbugalhados respigando os pormenores dos confins da Europa, mercados a céu aberto com vísceras atraindo a voracidade das moscas, vermes em acção, iscos por todo o lado aos quais não era difícil resistir dada a precariedade da carteira pessoal.

2000 dracmas para visitar a Akropolis e provar a inexistência dos deuses. Fossem eles reais, nunca aquelas ruínas engessadas teriam acontecido, nunca o teatro de Dionysus se teria transformado num monte de calhaus, numa curiosidade arqueológica onde imaginamos Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Aristófanes, para conforto da memória e desconsolo da realidade. Lá do alto, junto ao Pártenon, a vista sobre a cidade não podia desmentir o desconchego. Uma densa nuvem de poluição caía sobre os edifícios erigidos em torno do centro histórico, era como se estivéssemos ali para comprovar a porcaria em que nos tornámos. As raízes, as origens, transformadas em peças de museu. E nós a visitarmos a nossa própria decadência, pagando para ver como paga para ser açoitado o masoquista.

Nenhum vestígio de Sócrates, nenhum resquício de Platão, nenhum rasto de Aristóteles. Nos jardins de Epicuro regavam-se pedras. Mataram os cínicos, enterraram-nos sob a desmesurada ambição do catolicismo, reduziram a pó e cinzas o gozo da liberdade. Resta-nos o ouzo e o queijo feta, filosofias não dão jeito ao estômago. Não me repetirei com histórias já contadas noutras províncias. Como, a título de exemplo, a de pela noite dentro terem os polacos começado a foder e eu, no meu divã singular, sem saber se partir ou ficar. Acabei por partir e juntar-me ao Klaus no bar de San Remo. Era um tipo simpático, sereno, com quem passei umas boas horas numa esplanada perto, talvez, da Praça Sintagma onde agora os gregos bulham. Depois regressei a Patras para dividir um quarto com dois mexicanos, ambos deitados com as botas calçadas, como nos filmes do Sergio Leone, e sem conversa alguma para cambiar. Enfim, não posso dizer que guarde boas memórias dos mexicanos da Grécia.

2 comentários:

Tolan disse...

Viajei neste texto.

hmbf disse...

O melhor elogio que podia receber. :-)))9