terça-feira, 1 de maio de 2012

TRABALHO

Desconheço matéria mais clarificadora da oposição entre canhotos e destros do que a matéria do trabalho. É por todos reconhecido ser o trabalho essencial à sobrevivência. Ninguém satisfaz necessidades primárias sem o fruto do labor. Sucede que ao longo de milénios de evolução e progresso foram as necessidades primárias sendo substituídas por uma infindável “parafernália” de superficialidades. Curiosamente, para que tal fosse possível foi indispensável uma certa relativização do trabalho. A esta relativização do trabalho nós chamamos ócio, actividade sem a qual, como muito bem percebeu Robert Louis Stevenson (1850-1894) em Uma Apologia dos Ociosos, a curiosidade, o espanto, a imaginação ou a própria felicidade não seriam possíveis. «Por conseguinte, se não se pode ser feliz sem se ser ocioso, seja-se então ocioso» (RLS). O ócio não corresponde, porém, à suspensão das chamadas actividades úteis, ou seja, o trabalho. O ócio é, como queriam os antigos gregos e desejariam os contemporâneos, o gérmen da criação, o momento em que as máquinas param para que o pensamento do maquinista possa actuar na plenitude das suas faculdades. Impôs-se, portanto, que uns trabalhassem adicionalmente para que outros, porventura mais dados aos esforços do pensamento, pudessem dar largas ao ócio e gerar novas caras para velhos mundos. Assim, dispensados das chamadas actividades primárias, puderam alguns homens dedicar-se inteiramente às actividades secundárias. O resultado, muitos séculos depois, foi o mundo em que vivemos: filas de consumidores ávidos atraídos por promoções oportunistas. Quem trabalha num Centro Comercial 363 dias por ano sabe como é, não se espanta com a avidez da estupidez humana. Por isso defendo que o dia do trabalhador devia passar a ser o dia d'O Direito à Preguiça, em homenagem a sábios como Paul Lafargue (1842-1911) que há muito entenderam o rumo das sociedades capitalistas. É o rumo que levou à escravatura, ao tráfico ainda não eliminado de pessoas humanas, é o rumo em cujos trilhos fomos assistindo à promessa de salvação dos judeus encarcerados em campos de concentração. Claro que o cidadão contemporâneo está-se nas tintas para a História, interessa-lhe o frigorífico cheio, ter como pagar a prestação do MEO, fazer face às despesas fixas, sobretudo o carro sem o qual jamais a humanidade teria chegado onde chegou e nem se consegue sequer afirmar que um homem é homem. Também eu atendi esses cidadãos durante os últimos primeiros de Maio. Este ano safei-me, fiquei em casa a ler Cormac McCarthy e a tentar perceber como se sobrevive num mundo tornado irrespirável, uma cloaca máxima, uma latrina, um vasto aviário de frangos e frangas, carneirada mole, deformados pelo vigoroso prazer do consumo — o povo, esse animal fundador da democracia. Os destros têm sido mais inteligentes que os canhotos a interpretar este cenário miserável e a retirar partido dele, perceberam as vantagens da estupidificação das massas, olearam bem as molas do consumismo. Não se lhes pode criticar a percepção eficaz da desumanização dos povos, mas deve-se apontar-lhes com a maior clareza possível o rumo para onde nos leva(ra)m. Isto para que quando formos nós, se não somos já, os escravos, não virem eles com lamentações sonsas sobre “a crise de valores que nos assola” ou o “estado imoral a que chegámos”. É que a moral começa precisamente aqui, em saber respeitar o direito do outro a ser ele próprio sem lhe minar o caminho com o canto das sereias. O proveito imediato da astúcia, motivada pela ganância, pela ambição desmesurada, pelo lucro desesperado, há-de ser o maior desaire de todos nós. Sobretudo num mundo onde a riqueza continua a não ser distribuída em função do valor do trabalho. Mas esta é já outra história, a história de um slogan inspirador:

Ninguém na fábrica!
Boris Vian

3 comentários:

Marina Tadeu disse...

Como boa empregada de limpeza, acredito que, por prevenção, o meu trabalho salva tantas ou mais vidas do que, digamos, o de um neurocirugião. Como tal, porque não deveríamos ganhar o mesmo? Mas realidades à vista como as disparidades salariais pouco ou nada me atormentam. O que me embarga a garganta neste dia é o culto da toda virtuosa escravatura abafando no eterno jogo de forças um simples trunfo no baralho da economia. Se todos parássemos um dia de trabalhar, TODOS, o que aconteceria? Quem passaria a ter a faca na mão apesar de menos queijo? Se parássemos um mês, que aprenderíamos depois do pânico? Como alma simplória, que sou, apodero-me da frase de Vian fugindo do colectivo com ela. Que ela seja hoje o meu soporífero. O que nos detém talvez deva menos à ganância e quase tudo ao medo.

Nota pessoal: Por favor persevere. Dois anos depois este texto foi lido mesmo se mal interpretado. Já não é mau.

Marina Tadeu disse...

Bah, esqueça a redundância do desabafo anterior. Acabei de ler o texto sobre o Lafargue.

hmbf disse...

:-)