sexta-feira, 15 de junho de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #56





Quando os Pink Floyd surgiram em meados da década de 1960, rapidamente se percebeu estar ali uma fonte de energia diversa da produzida pelos conterrâneos The Beatles ou The Rolling Stones. Tinham uma música complexa, subvertiam os cânones da canção pop e não se deixavam contaminar pela postura meramente provocatória do rock’n’roll. Muito por influência de Syd Barrett, o alucinado fundador da banda, tinham uma aparência misteriosa, enigmática, cabalística. Foram, assim, rapidamente associados ao movimento psicadélico que então seduzia grande parte da comunidade hippie. Com Barrett, lançaram um álbum histórico: The Piper at Gates of Dawn (1967). A Saucerful of Secrets (1968) ainda mantém um pouco da atitude inicial, mas abre já portas para uma nova dimensão. Seguiu-se More (1969), banda sonora para um filme de Barbet Schroeder, e, no mesmo ano, este duplo Ummagumma. É, desde os tempos do vinil, o meu álbum preferido dos Pink Floyd. Composto por dois discos, um gravado ao vivo e o outro em estúdio, afirma definitivamente a banda face à ausência de Syd Barrett. No primeiro dos dois discos, assistimos a uma recriação em tempo real de alguns dos temas mais progressivos dos primeiros álbuns. Ao vivo, a prolixidade instrumental obrigava a um esforço suplementar de todos os elementos. A estranheza intensificava-se, transportando-nos para paisagens espaciais com uma forte componente de improvisação. A música dos Pink Floyd marcava a diferença por ir buscar influências a territórios até então pouco explorados pela música rock. Exemplos: do jazz de inclinação free à música dita étnica, daquilo a que hoje se chama world music (são claras as influências árabes em Set the Controls For The Heart of The Sun) à música erudita de cariz experimental. O segundo álbum, gravado em estúdio, tornava tudo isso evidente sem cair por um segundo na vulgaridade, ao organizar-se a partir dos contributos individuais, na composição, de cada um dos elementos da banda. Cada tema reproduz um imaginário diverso, a partir da exploração de um instrumento base. Há um gosto pela abstracção que diferencia claramente esta música, sendo possível encontrar em vários momentos de cada uma das composições fases de maior clarividência harmónica. O êxtase alterna com a melodia, o romantismo com o pânico, a contemplação com a angústia, ó épico com o concreto, o mistério com a transparência. Deve ser isto a genialidade.

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