sábado, 16 de junho de 2012

LOJA DE CONVENIÊNCIA

Um feito, disse ela, com espanto, quando revelei nunca ter pago um tostão para ser publicado. Todos os escritores que conheço o fizeram, acrescentou. E então o espanto foi meu. É como um pintor pagar-me para vir cá a casa pintar as paredes. Não faz sentido, prefiro ficar inédito. O trabalho de um editor é editar, arriscar, investir, não é cobrar aos seus autores avultadas quantias pelos livros publicados. Sei que a questão é mais complexa, exige o esclarecimento de uma velha dúvida: porque quer tanto um escritor ser publicado, a ponto de se hipotecar financeiramente (e não só) para ver os seus escritos impressos? Lembro-me de ter esses desejos, essa ambição, para aí até aos meus 25 anos. Depois cresci. Compreendi um pouco melhor os modus vivendi e operandi e faciendi do mercado livreiro, que não dista verdadeiramente do Mercado de Santana. Não só não gostei do que aprendi, como fiz questão de enveredar por outros caminhos. O weblog tornou-se uma ferramenta fundamental na oficina e na divulgação da escrita, quebrou barreiras, coloca-me em contacto, de um modo muito directo e informal, com quem pretenda ler-me. Isso basta-me, o resto vem por acrescento. Consigo, deste modo, evitar vastíssimos incómodos, entre os quais o pior de todos seria o de ter que conviver fisicamente com os meus pares, ter de fazer sala só por conveniência e interesse. Não é isto ser escritor? Pois bem, que me importa o estatuto? Não gosto de salões, nem de festas, nem de feiras, nem de lançamentos nem de apresentações. Fazem-me mal à vesícula biliar. À sua maneira, este é também um mundo de negócios com lucros variáveis. Prefiro não fazer parte de nenhuma comunidade, a fazer parte de uma comunidade apinhada de gente chata e desagradável e enfadonha e seca. Mais vale só que mal acompanhado, diz o povo com razão. Chegam-me e sobram os leitores aqui caídos diariamente. O resto são ilusões facilmente desfeitas quando se percorrem ficheiros intermináveis de saldos e se encontram, a cada linha que passa, as grandes estrelas da companhia agora comercializáveis a meia dúzia de euros (formato pack).

6 comentários:

Luis Rodrigues disse...

Herberto Helder vs Zé Saramago, cada um escolheu o seu caminho, é uma questão de feitio acho eu.

Resta um ponto comum, a vontade de ser lido, e não ser parte do exército de que não resta a história.
O que na verdade é uma prisão, tal como os salões.

hmbf disse...

a vontade de ser lido ou a necessidade de se sentir ouvido?

o "exército de que não resta a história" é interminável. também um dia farão parte dele herberto e saramago.


ou então é uma cena de sexo, desejo, massagens ao ego, auto-estima, um querer sentir-se bem por se sentir alguém entre os demais.

seja o que for, é estúpido. melhor seria mesmo deidicarmo-nos definitivamente à pesca.

Mário Galego disse...

...e enquanto se pesca, pode-se ler tranquilamente. boa solução. é, sobretudo, por estas e por outras opiniões qe venho aqui todos os dias. abraço, mg

je suis...noir disse...

...e continua-se a saber "crescer"! (seguindo os posts)

ps: não me parece ser necessária intervenção psicológica (clínica- ando tudo ligado:)). O autor está a safar-se bem:)

hmbf disse...

Ainda assim, pondera seriamente retirar os sapatos da caixa e pôr-se a caminho de Amesterdão. :-)))

ZMB disse...

Amsterdão pode ter sido boa há vinte anos atrás, hoje pouca gente lá gosta verdadeiramente desse turismo. tornou-se apenas comércio e, ao mesmo tempo, politicamente as liberdades têm vindo a ser diminuidas: muita hipocrisia e burocracia.