sexta-feira, 22 de junho de 2012

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA



Foram necessários dez anos para que Nuno Moura (n. 1970) regressasse aos livros, após uma primeira incursão pela prosa com Calendário das dificuldades diárias (&etc., 2002). Para trás ficaram quatro livros em verso. Este Prémio Nacional de Poesia (Abril de 2012), também em prosa, não vem só. Acompanha-o um CD dos Mau Sangue, projecto especialmente concebido para o efeito: música de José Ferreira, textos e voz de Nuno Moura, colaborações vocais de Beatriz Nunes e participação de André Neto com viola d’arco. Importa referir que o CD não reproduz o livro, são objectos autónomos mas interligados. É este o conceito da Mia Soave - editora fundada, entre outros, pelo próprio Nuno Moura -, que já antes havia editado Reality Show ou a Alegoria das Cavernas (Fevereiro de 2011), de Alberto Pimeta (n. 1937). Prémio Nacional de Poesia abre com uma breve nota explicativa: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo. / É uma versão de vários textos não editados em livro. / É dedicado às personagens que o escreveram. / Os vossos poemas fazem este». Devemos retirar desta nota dois importantes esclarecimentos. O primeiro é o de que estamos perante um trabalho de colagem com origem em textos concebidos para serem ditos em voz alta, não apenas escutados no silêncio da leitura. Este acto de escrever para dizer, não sendo novo, encontra em Nuno Moura uma voz ímpar dentro da sua geração. São múltiplos e dificilmente inventariáveis os empreendimentos do poeta nesse sentido, quer a solo, quer acompanhado, em duelo ou em dueto, com instrumentos ou socorrendo-se apenas das cordas vocais. Mais do que uma estratégia de promoção, podemos falar de uma atitude poética que só compreende o texto na relação que este mantém com o ouvinte. Esta relação distancia o autor da sua suposta produção, esvaindo-se o mesmo numa multiplicação de personagens que não são propriamente heterónimos. São, e este é o segundo esclarecimento que a nota introdutória nos oferece, fonte, alimento, terreno onde a experiência semeia as palavras e o texto germina. Daí que não nos surpreenda a ironia da pergunta projectada nas cortinas do palco onde a acção terá lugar: «Oom, já se pode?» Trata-se, obviamente, de um diálogo com a Actuação Escrita de Pedro Oom. É natural que uma leitura superficial desta obra, não só deste livro, nos leve a falar de elos à tradição surrealista, de uma prática em desuso da escrita automática, de uma inclinação para a experimentação dadaísta. Não está mal. Porém, é redutor. O que aqui se passa é uma mais depurada do que possa parecer encenação da realidade, é um teatro de sombras com bolas de cristal, é um modo de estar na poesia que se define por ser um modo de estar com poesia. A irrisão patente no título, cultivada desde Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (Signo, 1993), promete uma espécie de prolongamento daquele que é, talvez, um dos mais conhecidos poemas de Nuno Moura: o lançamento do livro de poesia que abria Nova Asmática Portuguesa (Mariposa Azual, 1998). Aí temos personagens arquetípicas como o escritor, o crítico literário, o poema, a própria poesia, o livreiro, a nova geração de poetas, os curadores de agremiações, os recitais e os encontros de escritores, entre nomes cujo realismo parece inventado e outros cuja destreza satírica torna absolutamente credíveis. Dentro de pequenos textos que se vão sucedendo como frames num documentário aleatório, revela-se o olhar sagaz de quem despreza sem concessões a pedantearia literária: «Para que a sua poesia não enjoe um surdo anote que a palavra gosto denota mau sentimento para começar um texto. Mas gosto de tem mais leitura» (p. 11); «As miúdas vão voltar a gritar nos recitais» (p. 12); «O poeta ocupa o lugar do chocolate no papel prata» (p. 23); «Todos os seus poemas sabem a arco-íris, diziam uns dos outros» (p. 36). Por outro lado, a música dos Mau Sangue revela um aspecto sociológico fundamental que o texto deixa apenas implícito. Há, sem dúvida, uma dificuldade tremenda em conviver com a diferença no chamado meio literário. O que o disco sublinha é, precisamente, a recusa de uma comunidade castradora da individualidade, onde todos cuidam uns dos outros para não terem que cuidar de si próprios. A própria expressão “mau sangue” é um achado, talha o cordão umbilical das famílias afirmando-se desviada de uma hereditariedade sufocante. «O poeta diz é meu, a criança diz trinco-te o nariz. O poeta é muito bom pai. Só gosta deles, são os poemas que mais lhe interessam, come com eles, dormem juntos, cuidam de uma família de raízes ao Parque da Cidade. Regras da paternidade: primeiro os livros, chá de segurelha e aguardente» (p. 42). Este dizer do poeta não é ingénuo nem tem nada de automático, é um manifesto libertador com razões de ser muito objectivas. Querem vozes de ruptura? Saiam dos gabinetes, abram os ouvidos.

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