quarta-feira, 18 de julho de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #60





Ao longo dos anos, as atenções vão-se voltando para coordenadas diversas — conforme movimentos, tendências, modas ou simples aparições momentâneas que nos fazem dar mais atenção ao que até então desconhecíamos. Foi assim, a determinada altura, com a música do norte da Europa, como já tinha sido com a pop de Manchester ou o rock de Seattle. Entre múltiplos projectos então revelados, os islandeses Sigur Rós impuseram-se como um dos mais atraentes. A seu favor jogava o facto de não cantarem em inglês, opção arrojada que contribuiu para o culto da diferença ao mesmo tempo que reclamava o valor da música por si só. Ágætis byrjun (1998) revelou-os num estado de consolidação musical irresistível. A capa remete para um universo intra-uterino, mostrando um anjo em estado fetal. E os primeiros sons introduzem-nos, precisamente, nessa outra dimensão da realidade. O “sonar” de Svefn-G-Englar e a pulsação de Starálfur, temas iniciais, abrem-nos as portas de um útero onde germina a célula de uma outra vida. O álbum aponta, então, para uma viagem às raízes, continuada no desenvolvimento e na expansão de uma musicalidade épica e comovente. Mesmo quando assume influências reconhecíveis — a harmónica de Hjartaõ Hamast (Bamm Bamm Bamm) é tipicamente bluesy —, a música dos Sigur Rós evolui para territórios virgens e, por isso mesmo, tocantes. Há neles uma estranha capacidade de insuflar emoção no imo das pedras. Só escutando, que ouvindo já não basta.

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