quarta-feira, 11 de julho de 2012

AO PREÇO DE UMA BORLEIA


Poço do Bispo, Lisboa. 2011.




O país precisa de gajos sérios e sisudos, homens feios, de capachinho, fato e gravata, mulheres bem penteadas e vestidas com sobriedade, o país precisa de cientistas monocórdicos, economistas e filhos da puta, precisa de quem lhe queira bem, especialistas em tabelas Excel, não precisa de especialistas em tabelas de bilhar, o país precisa de homens com eles no sítio, o Sítio fica no alto da Nazaré, pelo que, seguindo a lógica das coisas, o país precisa de homens com eles na testa, o país precisa de fatos azul-escuro e de clepsidras electrónicas, precisa de pulsos onde caibam pulseiras, absolvições, juízes modelo na Moda Lisboa, o país precisa de casas construídas pelo telhado e de mais filhos da puta, eu estou seriamente preocupado com as necessidades do país porque o país não precisa de mim, por isso comprei um Mp3 para ouvir os Radiohead enquanto caminho pelas ruas necessitadas do país, ainda não rapei o cabelo, como fizeram a Sinéad O'Connor e a puta que ataca junto às muradas do cemitério em Caldas da Rainha, mas para aí caminho, para já retenho-me, contorço-me, respiro, porque o país não me tem dado descanso com tanta poesia e cultura, o país precisa de gajos cultos como o António Guerreiro e de jovens empreendedores como o artolas do baralho viciado, precisa de padrões de exigência e os meus padrões de exigência ficam-se por um contraplacado a fingir de palco, porque eu bebo até cair para o lado sempre que chego a casa do trabalho e me ponho a automatizar sobre as necessidades do país, o preciso país quer um cancro no lábio inferior esquerdo, ninguém o desmente, basta abrir os olhos e vê-se trazido pela trela o país mais a merda das suas necessidades, o país precisa de pais e de filhos e de avós e de netos capazes de fazerem vingar as boas práticas da família no país, e eu estilhaço os dedos nestas necessidades, escrevo como um doido sobre a febre aftosa do país, tento disfarçar a angústia declarando as tintas invisíveis das paredes e o cérebro cai-me pelas pernas abaixo do país como urina convalescente num velho país, ís, ís, o país precisa de ideias novas e eu tenho uma ideia nova, uma ideia inovadora, uma ideia inteligente, uma corrida de touros da RTP, no Campo Pequeno, com o Relvas a fazer de vaca e o Coelho a fazer de touro e o Sócrates a fazer de bandarilheiro e o Cavaco rabejador e o povo a aplaudir o Loureiro tresmalhado, o Lima cagalhão, o país riscado a giz, com anúncios do BPN em cada uma das bandeiras espetadas no cachaço do tourocoelho, bandeirinhas fluorescentes promovendo créditos ao consumo, faça as suas férias de sonho, compre o carro da sua vida, vá de casa para o paraíso, sem juros nem moras, o caralho que os foda mais ao país e os cartões de crédito e os bancos e essa merda toda que nos anda a roubar, sei lá, uma corrida de touros à séria, no Alvaláxia, ou na Luz ou nas Antas ou nas coxas do Cristiano Ronaldo, esse de quem o país precisa como de Mourinhos para a boca, porque o país precisa é de se sentir confiante e de inspirar confiança e de convencer os mercados, os mercados, os mercados, os mercados são difíceis de convencer por um país que nem a si próprio se convence de que o povo é a raiz do país e o povo não tem país porque o povo cresce à razão de um nariz por cada espectro a mais na podridão do país, o povo deste país tem, como se diz, razão, isto é tudo uma gatunagem e eu tenho guitarras fodidas a vibrarem dentro de mim, tenho o direito de gritar bem alto, à altura dos surdos, que estou farto desta merda, estou farto deste país, estou... como quem diz... numa de dar ao slide para as canoas d’alegria, chá de tília à hora do (d)esgo(s)to, bolinhos de manteiga a contrafazer a agrura da existência, uma mesa de países partilhada numa torrada, muita manteiga a escorrer pelos dedos e um café quente, um café da avó e filhós deste país, com vista para o mar onde todas as frustrações se afogam ao preço de uma borleia para fora deste coiso com nome de país.







Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.

1 comentário:

Ivo disse...

Foda-se. É muito isto.