sexta-feira, 20 de julho de 2012

“COISAS VALIOSAS, APARENTEMENTE INÚTEIS”


Como o teu sorriso no meio de um sonho que nos acorda às quatro da madrugada, o esforço do cirurgião para descobrir a origem do problema, as asas dos anjos tombados num pântano de cinzas, a metáfora, o cheiro a baunilha incrustado nos estofes do carro e as impressões digitais no cachaço do homem falhado, um amigo que te pergunta pelo cansaço, e ouvir-te dizer: o cansaço está numa esplanada a beber imperiais e a comer tremoços, a lua pondo-se atrás d'um incêndio, a perspectiva do pirómano enclausurado na sua ambiciosa desmesura, um carro avariado e o condutor ficando-se nas tintas, dando volume à canção que passa na Antena 1 para poder, por uma vez, perceber a pronúncia da intérprete, o desespero da mãe perante o momentâneo desaparecimento do filho, o desespero da sombra perante o momentâneo desaparecimento do corpo, um oceano de sopros vibrando nos metais da casa, as paredes abrindo fendas a cada suspiro do coração, a vida doméstica refazendo-se com a clareza do bolor que cresce nas paredes e um trago de vinho branco gelado à hora de chegar, poder dormir em silêncio, abraçando apenas o vazio deixado pela ausência dos amores impossíveis, cartas trocadas às escondidas e a memória de havermos sido, como prenunciava o poema, um princípio sem fim, ah, pois, coisas valiosas, aparentemente inúteis, como a visita inesperada de um mestre inconfessado e a tinta das paredes escorrendo com o calor de Verão, o uivo dos cães durante a noite, uma salada refrescante à hora de almoço e o brinde que todos os dias te é oferecido pela luz das manhãs, a velha desengonçada que passa com um sorriso no rosto ao lado da mulher ginasticulada com trombas de Falópio, os carros parados, todos os veículos parados em hora de ponta (parece um sonho, eu sei, mas acontece), e o vinho, mais uma vez o vinho, e o pão, mais uma vez o pão, talvez as melhores e mais importantes descobertas da humanidade, e sim, claro, obviamente, sem dúvida, a boca calada das pessoas chatas, inconvenientes, presunçosas, insuportavelmente pedantes, coisas como um dia de trabalho honesto, de sorriso no rosto e rios de suor correndo nas veias a caminho de uma simples, mas gratificante, satisfação: fiz o meu melhor, foda-se, coisas valiosas, aparentemente inúteis, como atender o telefone e ouvir a tua respiração do outro lado, saber que és tu mesmo sabendo que do outro lado hás-de tu ficar pensando se eu saberia que eras tu, e eu sei e agora digo-o porque há coisas valiosas, aparentemente inúteis, que podem ser ditas: eu estou aqui e sou um corpo, não sou uma ideia platónica nem uma sombra projectada numa caverna, não sou um espírito, uma alma, sou um corpo desejante que respira, come, caga, bebe, mija, vem-se e sente, sou um corpo como corpo é uma pedra, um grão de areia na incomensurável vastidão do Universo, sou este ponto insignificante que vive consciente da sua insignificância entre biliões de existências insignificantes num incomensurável mundo de pontos insignificantes, sou uma coisa que pensa e diz: esta é a minha vida, não tenho outra, vou vivê-la o melhor que sei e posso, não hei-de perder um segundo da minha vida a avaliar as vidas dos outros enquanto não estiver plenamente seguro de que a minha vida, esta, porque não tenho outra, foi vivida de acordo com todas as coisas valiosas, aparentemente insignificantes, que atribuem alguma razão ao facto de eu estar aqui, agora, neste preciso momento, a dizer isto, a pensar isto, a escrever isto, enquanto noutros lugares outras pessoas estarão a fazer coisas muito mais ou muito menos úteis para a valiosa vida delas, coisas valiosas, aparentemente inúteis, como dizer: espero que ouças todos os meus pensamentos, porque é neles que tudo o que sinto vai dito.

2 comentários:

rff disse...

"espero que ouças todos os meus pensamentos, porque é neles que tudo o que sinto vai dito" muito bom...

Abraço

hmbf disse...

Abraço.