segunda-feira, 16 de julho de 2012

DESEDUCAÇÃO DE PORTUGAL

Pouco tenho que ver com o messianismo optimista de Agostinho da Silva e, para mal dos meus pecados, sempre que o releio entristeço-me com o facto de a actualidade ir confirmando o meu desespero contra a Fé, Esperança e Caridade do filósofo português. Por culpa desta lista, voltei a pegar em Educação de Portugal. Escrito em 1970, é um texto revelador do lugar onde a pedagogia se cruza com a filosofia. Tendo por base uma reflexão sobre um possível sistema de educação, o texto transcende os seus propósitos e surge como uma espécie de síntese de um pensamento voltado para a acção e empenhado na defesa dos povos e da Liberdade como princípio fundamental da existência humana. O culto açoriano do Espírito Santo é evocado quase como parábola de um caminho na direcção do ambicionado Paraíso, um mundo onde a língua portuguesa unisse os povos nas suas divergências e recuperasse para os adultos a bondade perdida das crianças. Agostinho da Silva acredita que o homem nasce bom, pelo que qualquer sistema de educação correcto deverá ocupar-se na restituição, tanto quanto possível, dessa bondade. A educação tem, pois, os objectivos de «salvar a criança que nasce e de proteger o mais possível o que da criança sobrou no adulto». É uma premissa como outra qualquer, sobre a qual nenhuma discussão surtirá qualquer efeito. Estamos perante um Ovo de Colombo, já que afirmar que o homem nasce bom vale tanto quanto afirmar que ele nasce mau. Certo é que, nascido, o homem faz-se, actua, age, em sentido construtivo e em sentido destrutivo. Neste sentido, ele faz-se, antes de mais, aprendendo; e faz-se trabalhando, embora o trabalho, de facto, seja «apenas uma desagradável necessidade enquanto nos não é possível viver em tempo todo livre». Mas porque nenhum tempo livre é sustentável de barriga vazia, o trabalho impõe-se como necessário (não o discriminamos da mendigagem, uma forma de trabalho ao nível da escravatura sem o chicote da coacção). A defesa da não-propriedade contra a propriedade privada - «que consiste essencialmente em que a minoria priva de propriedade a maioria» -, assim como das cooperativas, e não das corporações, e de um municipalismo voltado para as populações, parecem-nos excelentes alicerces. Está o problema em que, hoje em dia, os municípios deram lugar às câmaras, uma espécie de fornos de onde saem deformados, com consentimento popular, cozinheiros do calibre de um Isaltino Morais, de uma Fátima Felgueiras ou de um Avelino Ferreira Torres. Três exemplos, para não nos estendermos muito na exemplificação, de como ainda estamos longe, muito longe, de atingir um estado descentralizado de comunhão onde faça sentido esperar do povo uma lucidez mínima na consecução do futuro. Viciadas as regras do jogo, pela estupidificação em massa das populações, com uma escola voltada para a mediocridade, sem padrões de exigência e elites exemplares no que de pior há em ser-se humano, sobretudo humano e português, fica o Quinto Império em águas de bacalhau. O povo já não é uma massa de gente humilde que anseia por uma vida melhor, mas sim uma massa de gente assoberbada e ignorante, ignorante inclusive da sua própria ignorância, julgando-se alguém por ter conseguido, por via da esperteza saloia ou da submissão economicista, subir materialmente enganando, ludibriando e desrespeitando o seu semelhante. O caso português é, a este respeito, digno de um estudo aprofundado de psicologia social, na medida em que vamos conseguindo perpetuar, décadas a fio, a mesma corja de que passamos a vida a dizer mal. Tomem-se de exemplo Cavaco Silva mais sua comitiva de ex-ministros e secretários e conselheiros de Estado, tudo gente sem vergonha na cara nem a mínima consciência moral do que é estar-se ao serviço de um país. Cada vez mais alienados do espectáculo social por si mesmos alimentado, os portugueses tornam-se escravos de um trabalho mal pago pelas chefias para poderem continuar a acreditar num poder consumista que jamais terão. Prescindem do tempo, em prol do consumo, não necessariamente do usufruto, de tecnologias inicialmente pensadas para que o homem pudesse ter mais tempo livre, tempo esse que poderia ser ocupado com a ânsia do saber e do conhecimento não fossem as maiorias meros animais sem qualquer desejo de conhecer e de saber. Basta-lhes o exercício exibicionista do ter, a fazer dar voltas na tumba, certamente, os idealistas de um Paraíso cada vez mais transformado em bordel de energúmenos.

2 comentários:

Silvia Mota Lopes disse...

Se os portugueses fossem um pouco do que ele foi....seriam mais educados:)

hmbf disse...

Muito mais.