quinta-feira, 12 de julho de 2012

SENTIDO CRÍTICO

Há classes profissionais mais expostas à crítica do que outras. É natural que assim seja, dada a exposição das próprias profissões. São exemplo os jornalistas ou os políticos. O que não é muito natural, parecendo-me até infantil, é um jornalista desculpar-se das críticas apontadas ao jornalismo com o mais falacioso e capcioso dos argumentos, ou seja, que quem não tem experiência de jornalista, deverá pensar duas vezes antes de apontar o dedo na direcção das falhas observadas. Imagine-se um mundo assim: a crítica apenas poderia ser exercida, ou, pelo menos, apenas teria credibilidade quando exercida num contexto autocrítico. As críticas ao jornalismo apenas seriam válidas quando feitas por jornalistas ou alguém com experiência nessa profissão. Sentir-nos-íamos, deste modo, inaptos a criticar o que quer que fosse que ultrapassasse o mínimo que fosse de competência na área sob observação. O cidadão Henrique Manuel Bento Fialho poderia criticar os jornalistas porque já teve experiência na área, poderia também criticar os professores porque já foi docente, poderia criticar os operadores de telemarketing, os livreiros, os escritores e a malta que anda nas vindimas porque teve experiência em todos esses ramos. Mas não poderia criticar um médico por mais incompetente que este lhe parecesse, pois não tem qualquer experiência profissional na área; e não poderia criticar políticos porque nunca andou metido na política activa; nem filmes, porque não é cineasta nem actor nem nada que se pareça; e não poderia criticar serventes de pedreiro, serralheiros, pasteleiros ou chefes de cozinha porque nunca o foi. Os exemplos multiplicam-se, ficando assim restringido o campo sobre o qual a crítica poderia ser considerada minimamente aceitável. Todas as profissões têm as suas dificuldades, todas as actividades profissionais obedecem a limitações de gestão e são alvo de pressões diferenciadas. Criticá-las sem ter tido qualquer tipo de experiência pessoal nelas parece-me bastante saudável, porque a crítica parte de uma relação estabelecida entre, digamos assim, produtor e consumidor. Se uma das partes não entender isto, deve, quanto a mim, ser alvo das mais severas críticas.

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