Sei que estou vivo neste belo dia deitado contigo. É verão. O calor das frutas na tua mão derrama o seu espesso perfume ao meio-dia.
Antes de nos deitarmos aqui não existia este mundo resplandecente. Nunca é em vão que ao desejo arrancamos o humano amor que as estrelas desafia.
Para o azul do mar corro nu. Volto a ti como ao sol e em ti me aninho, nasço no esplendor de te conhecer.
Sinto o suor ligeiro da sesta. Bebemos vinho tinto. Esta é a festa em que mais lembramos a morte.
Jorge Gaitán Durán (1924-1962), in Um País Que Sonha - cem anos de poesia colombiana, org. Lauren Mendinueta, trad. Nuno Júdice, Assírio & Alvim, Março de 2012, p. 142.
«Sabes o que gostava de ser? - disse eu. - Sabes o que gostava de ser? Quer dizer, se tivesse a merda de uma escolha?»
- O que era? E pára de dizer palavrões.
- Conheces aquela canção «Se alguém apanha alguém que atravessa o centeio? O que eu gostava...
- É «Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio!» - disse a miúda Phoebe. - É uma poesia. Do Robert Burns.
- Bem sei que é uma poesia do Robert Burns.
Mas ela tinha razão. É mesmo «Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio!» Mas naquele momento eu não o sabia.
- Pensei que era «Se alguém apanha alguém» - disse eu. - Mas enfim, ponho-me a imaginar uma data de miuditos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo... Quer dizer, se vão a correr e não vêem para onde vão, eu tenho de saltar de um lado qualquer e de os apanhar. Era só isso que fazia o dia inteiro. Só estar ali à espera, a apanhar os miúdos no centeio e tal. Eu sei que é uma coisa maluca, mas é a única coisa que eu gostava de ser. Bem sei que é uma coisa maluca.
J. D. Salinger, in À Espera no Centeio, trad. José Lima, Difel, 2ª edição, Março de 2010, pp. 186-187.
O ser da pre-sença é a cura. Ela compreende em si facticidade (estar-lançado), existência (projecto) e decadência. Sendo, a pre-sença é lançada, mas não foi levada por si mesma para o seu pre. Ela é em se determinando como poder-ser que pertence a si mesma, mas não no sentido de ter dado a si mesma o que tem de próprio. Existindo, ela nunca retorna aquém de seu estar-lançado de tal modo que sempre só pudesse desenvolver esse "facto de ser e ter de ser" propriamente a partir de seu ser si mesma e conduzi-lo ao seu pre. O estar-lançado não se encontra aquém dela como um acontecimento que de facto ocorreu e que se teria desprendido da pre-sença e com ela acontecido. Mas na medida em que é, e como cura, a pre-sença é continuamente o seu "facto". Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesmo colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira. Texto: Martin Heidegger.
Eu ainda não nasci; ó, escutai-me. Não deixeis o vampiro ou a ratazana ou a doninha ou o espírito de pés aleijados aproximarem-se de mim.
Eu ainda não nasci, consolai-me. Temo que a raça humana venha a emparedar-me, ou a drogar-me com drogas fortes, com finas mentiras me tente, com negros acúleos me torture, em banhos de sangue me enrole.
Eu ainda não nasci; abonai-me Com água para me embalar, erva que cresça para mim, árvores que me falem, um céu que me cante, pássaros e uma luz brilhante a guiar-me por detrás da mente.
Eu ainda não nasci; perdoai-me Pelos pecados que em mim o mundo cometerá, pelas palavras quando me disserem, pelos pensamentos quando me pensarem, pelas minhas traições engendradas por traidores além de mim, pela minha vida quando matarem através das minhas mãos, pela morte quando me viverem.
Eu ainda não nasci; recitai-me Nos actos em que hei-de actuar e nas deixas que direi quando um velho me ler. Os burocratas intimidam-me, as montanhas franzem-me o sobrolho, os amantes gozam-me, as ondas brancas enlouquecem-me e o deserto leva-me à ruína e o indigente recusa-me a esmola e os meus filhos amaldiçoam-me.
Eu ainda não nasci; Ó, escutai-me, Não deixeis que a besta ou aquele que se julga Deus se aproximem de mim.
Eu ainda não nasci; Ó, alimentai-me Com força contra aqueles que tentarão congelar a minha humanidade, forçando-me a ser um autómato letal, transformando-me num dente de roda na engrenagem, coisa de uma só face, uma coisa, e contra todos aqueles que dissiparão a minha integridade, soprando-me como lanugem de cá para lá ou de lá para cá como água levada nas mãos que me hão-de derramar.
Não deixeis que façam de mim uma pedra e que me arremessem. Caso contrário, matai-me.
Os movimentos estão sempre começados antes de começar, nas individualidades que os começam juntas. Álvaro de Campos
Ainda que seja de extrema importância a reunião da Prosa de Álvaro de Campos, é um manifesto exagero, como fazem os seus editores, considerar este «um acontecimento editorial tão relevante quanto a primeira publicação do Livro do Desassossego». O exagero atinge contornos hilariantes quando se coloca na mesma dimensão a prosa do engenheiro e o livro-projecto de Bernardo Soares. O engenheiro foi essencialmente poeta, como prosador deixou-nos ensaios e manifestos, notas avulsas de carácter especulativo, farpas e polémicas, alguma correspondência. Está tudo aqui reunido, até ver, em várias secções que podemos resumir a dois grandes grupos: a prosa não publicada e a prosa publicada em vida. No primeiro dos grupos, encontramos um conjunto de textos de interesse diverso onde aquele que é, muito provavelmente, o mais popular dos heterónimos de Fernando Pessoa foi ensaiando discursos, dialogando consigo próprio e com os outros do seu círculo (não deixam de ser o mesmo) sobre estética, política, epistemologia, numa inconstância derivativa que se aproxima, por vezes, do puro delírio criativo. A separação das artes, as relações entre arte, ciência e filosofia, a natureza da Poesia, parecem interessar a Álvaro de Campos mais do que quaisquer outros temas. Mas interessam num registo auto-justificativo que sugere uma personalidade megalómana e sincrética, onde o epicurismo se encontra com o empirismo e este com o niilismo e todos eles num só corpo, intersectivo, a que talvez devamos chamar sensacionismo. No entanto, evitemos generalizações: «Quando me designei como “sensacionista” ou “poeta sensacionista” não quiz empregar uma expressão de escola poetica (santo Deus! Escola!); a palavra tem um sentido philosophico» (p. 131). Tal como está errado chamar futurista ao autor da Ode Triunfal, por muito acima desse movimento termos que subir para o compreendermos, também será redutor considerá-lo sensacionista num sentido limitado do termo. A megalomania de Álvaro de Campos é proporcional à sua grandeza, o que, de certo modo, explica (e até nega) essa megalomania. Por isso se revelam tão importantes as Notas para a recordação do meu mestre Caeiro aqui compiladas. Temos aí acesso a uma ampla dramatização da personalidade que compreende toda a heteronímia pessoana. Embora assuma Caeiro como mestre, criticando Ricardo Reis e debatendo-se com Fernando Pessoa — «O Fernando Pessoa sente as cousas mas não se mexe, nem mesmo por dentro» (p. 99) —, ou até com o “malogrado” António Mora, Álvaro de Campos surge como o demiurgo (mais correcto será chamar-lhe médium) que organiza a teia de relações e de diferenciações entre as várias personalidades da obra Pessoa. Porque o EU do poeta é, neste sentido, uma obra que se constrói a partir da assumpção das oposições e das contradições que dão forma ao mundo, ou seja, é uma assimilação do OUTRO. A identidade é alteridade. É inevitável a tentação de supor por debaixo deste edifício uma qualquer sustentação patológica, mas o que ele tem de apurada reflexão estética revela-se na extrema coerência de textos essenciais tais como o Ultimatum, publicado no n.º1 da Portugal Futurista (1917), ou os Apontamentos Para Uma Esthetica Não-Aristotélica, vindos a lume na revista Athena (1924). Nesses textos, Álvaro de Campos reivindica um «artista cuja arte seja uma Synthese-Somma»: «O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais generos com mais contradições e dissimilhanças» (p. 158). Outra coisa não fez, claro está, Fernando Pessoa nas pessoas dos seus múltiplos heterónimos. Álvaro de Campos parece ser, assim, o guerreiro convocado para a defesa do Criador na batalha da legitimação estética de uma obra. Opõe-se a tudo e a todos, incluindo a si próprio, realizando tudo e todos, tendo por certo que «a unica compensação moral que devo à literatura é a gloria futura de ter escrito as minhas obras presentes» (p. 267). Um profeta, portanto.
Aquelle pae dos tratados, que manda o filho rachar lenha para o desviar de preocupações sexuaes, tem a justa intuição - mesmo que pensasse só nos effeitos do cansaço - do fim de toda a arte.
Camarada Van Zeller, fiquei hoje a saber que sou uma pessoa muito exigente. A revelação deixou-me, ao mesmo tempo e na mesma medida, orgulhoso e desiludido. Orgulhoso por julgar imprescindível ao progresso o elemento da exigência, desiludido por ter dado comigo a pensar deste modo. Afinal, que exigência haverá num desistente? Eu sou um pouco na vida como a velejadora Carolina Borges foi nas últimas olimpíadas, desisto ainda antes de ter começado. E nem sequer tenho por desculpa o mistério da gravidez.
Findos os Jogos, o que temos a constatar é a exuberância das cerimónias. A população da Serra Leoa deve ter adorado, pelo que não é de estranhar se viermos a encontrar alguns barcos com emigrantes clandestinos ao largo das ilhas britânicas. Também não duvido que a população da Eritreia tenha regozijado com a paz universal ali evocada e simbolicamente celebrada durante duas semanas. E sem querer parecer muito exigente, estou mesmo convencido de que as gentes da Somália podem considerar-se alimentadas (espiritualmente) com a implosão de virtudes que pudemos presenciar ao vivo, qual espectáculo de pirotecnia, nas encenações de paz, amor, alegria, fraternidade, solidariedade e etc levadas a cabo pelos bifes. Terá a Síria participado? Talvez no tiro ao alvo.
Portugal terminou os Jogos ao nível de potências desportivas emergentes como Marrocos e o Afeganistão, o que demonstra e prova ser justo o desporto. Fosse a cobrição, camarada Van Zeller, modalidade olímpica e teríamos arrecadado várias medalhas de oiro. Bastaria, para tal, termos destacado o nosso coelho, que fazendo justiça à sua leporídea natureza, anda a cobrir o número dois mesmo quando o número dois se priva de cobrir o número um. O calão, não só foi preguiçoso para os estudos como se mostra agora preguiçoso na arte da cobrição. Ou então estamos todos enganados, incluindo o professor Marcelo, e o segundo anda a cobrir 10 milhões de portugueses enquanto o primeiro patrocina a cobrição cobrindo-o a ele num promíscuo gang bang à portuguesa.
Pelo meio, vão desaparecendo documentos relativos a compras suspeitas. Sempre que me lembro de que fui multado por não terem considerado na minha declaração de rendimentos as facturas onde o meu nome não vinha discriminado, sinto-me um cobrido. Não sabe agora o Estado onde arruma os documentos dos submarinos que compra como se tivesse ido ali ao Mercado de Santana comprar um brinquedo. Ora porra, se calhar estou a ser muito exigente. Assim não chegarei a atleta olímpico.
Talvez me venha a safar, quem sabe, como se safaram os condenados do BPN. Levando pena máxima, que é como quem diz: acabando contratados como directores de fundos criados pelo Estado. Mas se calhar estou mesmo a ser muito exigente, o melhor é emigrar para o Níger ou para a República Centro-Africana ou para a Libéria ou para o Burundi ou para qualquer uma dessas milhentas nações no mundo onde a vida nunca mais será a mesma depois dos Jogos Olímpicos de Londres.
Vejam bem como é relativo esse estereótipo de um país de poetas. Nascido em Belfast no dia 12 de Setembro de 1907, filho de um pastor protestante e de uma professora primária, Louis MacNeice perdeu a mãe muito cedo. Teria seis anos de idade quando esta foi internada com uma depressão profunda. Nunca mais a viu. MacNeice começou por estudar em Sherborne, mudando-se posteriormente para Marlborough. Aí que começou a desenvolver o interesse pela escrita, colaborando com as revistas escolares. Em 1925 conseguiu uma bolsa para estudar em Oxford. Conheceu W. H. Auden, de quem se aproximou por via do interesse mútuo pela poesia. Em 1929 publicou Blind Fireworks, dedicado a Mary Ezra – com quem veio a casar, um ano depois, apesar da oposição familiar. Em 1932 escreveu um romance recebido sem interesse. Influenciado por Auden, aproximou-se das teses comunistas com um permanente sentido crítico. À época, depois de um interregno na escrita de poesia, por julgá-la inconciliável com a vida doméstica, partilhou poemas novos com Auden e T. S. Eliot. Em Setembro de 1934, depois de Eliot publicar alguns dos seus poemas no The Criterion, conheceu W. B. Yeats em Dublin. Poems, publicado pela Faber and Faber em 1935, contribuiu para que se afirmasse definitivamente como um dos poetas da nova geração. Separou-se de Mary Ezra, entregou o filho de ambos aos cuidados de uma ama e fez algumas viagens (Espanha, Islândia, Londres...). Apesar de divorciado, e com a guarda do filho, continuou a escrever-se com a antiga mulher. Teve um caso com a pintora Nancy Coldstream, resultando este num livro com poemas dele e ilustrações dela: I Crossed the Minch. Cada vez mais dedicado à poesia, escreveu também peças de teatro e traduziu alguns clássicos gregos. Continuou a viajar, fazendo leituras, travando conhecimento com os grandes escritores do seu tempo. Fez carreira como jornalista para a BBC, publicou Plant and Phantom, dedicado a Eleanor Clark, com quem teve um caso em Nova Iorque, e, em 1942, três meses depois da morte do pai, voltou a casar. Hedli Anderson, cantora e actriz, foi a segunda mulher. Por essa altura, criou fortes laços de amizade com Dylan Thomas. Empenhado no trabalho para a BBC, viajou muito e escreveu fervorosamente. O casamento com Hedli Anderson começou a deteriorar-se devido aos problemas de MacNeice com a bebida e às relações com outras mulheres. Uma viagem à África do Sul levou-o aos braços da actriz Mary Wimbush, que havia actuado em várias peças do poeta. Cada vez mais dependente da bebida, acabou por separar-se de Hedli. Em 1963, numa viagem a Yorkshire, foi apanhado no meio de uma tempestade e contraiu uma pneumonia fatal. Morreu com 55 anos de idade, a 3 de Setembro de 1963. Foi enterrado em Carrowdore, junto ao corpo da sua mãe. Auden leu alguns poemas na cerimónia:
AUTOBIOGRAFIA
Na minha infância as árvores eram verdes E havia imensas para serem vistas.Volta cedo ou nunca mais voltes.
O meu pai fazia as paredes ecoar, Ele usava a gola do avesso.Volta cedo ou nunca mais voltes.
A minha mãe usava um vestido amarelo; Com suavidade, com suavidade, docilmente.Volta cedo ou nunca mais voltes.
Os pesadelos apareceram pelos cinco anos; Nada foi igual posteriormente.Volta cedo ou nunca mais voltes.
A escuridão falava com os mortos; A candeia junto à minha cama estava escura.Volta cedo ou nunca mais voltes.
Quando acordei, eles não quiseram saber; Ninguém, ninguém estava lá.Volta cedo ou nunca mais voltes.
Quando o meu pânico silencioso gritou, Ninguém, ninguém respondeu.Volta cedo ou nunca mais voltes.
Levantei-me; o sol fresco Viu-me a partir sozinho.Volta cedo ou nunca mais voltes.
O problema, diz Rebelo de Sousa, é que “o número dois do Governo tem, entre outras funções, a de cobrir o primeiro-ministro e o que tem acontecido é o primeiro-ministro a cobrir o número dois do Governo”.
Não saber o que trago dentro de mim, nem o que deixei perdido pelo caminho. Olhar o arraial onde não estive a noite passada e rever todos os arraiais onde alguma vez estive. Porque os dias repetem-se e com eles as mesmas sombras deixam no pó marcas de solas imaginárias. Deito o corpo no sofá, vejo um filme, folheio um livro. Estranha companhia, vertida no cálice. Para quê sair de casa? Os rios podiam até não ter secado, o açude podia manter a mesma vida de outrora, o lixo, o entulho, as silvas, as árvores caídas podiam nunca ter acontecido, os caminhos podiam não ter sido barrados e à volta das casas podiam os muros nunca ter sido erguidos. Mas em toda a paisagem encontramos pessoas, as mesmas pessoas de sempre, pessoas cuja companhia jamais será tão enriquecedora como o vinho vertido no cálice. Porque dentro delas a poluição ganha forma, materializando-se depois na paisagem desleixada onde nunca devíamos ter regressado. As pessoas transportam dentro delas a poluição do mundo. As estações passam, as épocas recomeçam, as pessoas não mudam, permanecem ácidas como o pó. Desprezíveis.
Passados 70 anos sobre o nascimento e mais de 50 sobre o primeiro livro — O Perfil da Estátua (1961, col. Sílex) —, Eduardo Guerra Carneiro permanece esquecido. Seria de supor uma reunião da obra ou algo do género em nome, vá lá, de uma memória menos circunstancial, mas este é um país de poetas com memória curta e vistas grossas. Natural de Chaves, onde viu pela primeira vez a luz do dia em Outubro de 1942, Eduardo Guerra Carneiro frequentou as faculdades de Letras do Porto e de Lisboa sem nunca ter concluído qualquer curso. “4º ano incompletíssimo de História”, ao que parece trocado por uma dedicação precoce ao jornalismo e aos versos. Escreveu para O Século, Se7e, Portugal Hoje, Match Magazine, República, TV Guia, O Primeiro de Janeiro, ABC, Diário Popular, Europeu, Tempo, Agenda Cultural da Câmara de Lisboa, tendo sido, por duas vezes, distinguido com o prémio Júlio César Machado. As suas crónicas, «um diário de bordo na constante, mas custosa, procura dos outros, neste difícil ofício de viver», ficaram registadas em dois volumes, ambos editados pela Teorema: O Revólver do Repórter (1994) e Outras Fitas (1999). Além do supracitado, publicou os livros de poesia Corpo Terra (1966, col. Espaço), Algumas Palavras (1969, Nova Realidade), Isto Anda Tudo Ligado (1970, Ulmeiro), É Assim Que se Faz História (1973, Assírio & Alvim), Como Quem Não Quer a Coisa (1978, & etc.), Dama de Copas (1981, &etc.), Contra a Corrente (1988, &etc.), Profissão de Fé (1990, Quetzal), Lixo (1993, &etc.) e A Noiva das Astúrias (2001, &etc.). Diz quem o conheceu que «era boémio, mas não era da boémia». Sobre a sua poesia, escreveu Manuel João Gomes: «poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos». Vejamos:
AUTO-RETRATO
Quantas horas não choras a pensar em ti — quando ando, desando, neste viver sem mim. Quantos anos sem tino. De mim este cantar desencantado — assim. Embora os dias me afastem já de ti procuro saber do teu espaço, nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal de outro tempo em que ainda rias, espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado. Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras, já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes, nem queres, do teu ao meu, essa coisa chamada amor.
In Contra a Corrente, com capa e desenhos de Carlos Ferreiro, & etc., Setembro de 1988, p. 37.
A BARBA
A barba é o meu gato. Afago-a neste jeito de quem passa os dedos pelo dorso de um bichano. Eu sei que estou a tocar num tigre: a barba encrespa-se, revolve-se mesmo. Ondas, campos de milho, searas, também conhecem afago igual. Mas este gato rebelde, a minha barba apenas, é agora tudo a que me prendo. Mestres já me dizem do excesso de assim me virar para dentro. Não! É para fora! Mora a barba noutras eras, noutro espaço. É ela que me afaga a mim: a última ternura.
In Profissão de Fé, capa de Rogério Petinga, Quetzal Editores, 1990, p. 28.
ESPELHOS E VULCÕES IV
Dos vulcões gostava de falar, em tom de arrepio, como se um vento de fogo cortasse de súbito os sonhos.
São esses os vulcões do imaginário, acesos quando menos se espera, ao olharmos o negro borralho que julgamos ser apenas cinza morna.
Já voei por cima de um vulcão, na realidade ou na noite dos prodígios. Arrisquei a pele ao provar os álcoois das profundezas, lava espessa a transbordar das taças.
Aos vulcões misturo os espelhos, num retrato imperfeito de algumas ousadias. São violentos os gritos e ressoa o clamor de multidões estilhaçando os vidros dos tiranos.
Caem os muros, revolvem-se as fronteiras. Espantados com a sua força, com o poder ao alcance das mãos, os homens imprimem neste novo tempo as suas impressões digitais, tantas vezes manchadas pelo próprio sangue ainda derramado.
Volto então aos vulcões de modo mais lírico para não me deixar tombar nas ravinas do medo. São, afinal, encostas de prazer, quando os olhamos com a firmeza de tudo querer mudar.
Há vulcões no teu olhar, dizia o homem para o espelho da parede. E explodia então o esmalte e os vidros rompiam os veludos e alcatifas.
In Lixo, capa e vinhetas de Carlos Ferreiro, &etc., Outubro de 1993, pp. 39-40.
JAZES, POETA
Jazes, poeta, em teu discurso pífio quando tentas poéticas alheias. A meias vou tentar, e a ti tentar dar melhor ar, outra tristeza alegre. Jazes poeta, mas vá lá!, vá lá!, ainda resolves as palavras cruzadas desta vida. Vidinha airada, como assim convém a quem no campo tem um batatal. Mas, olha lá bem!, bens ao luar não tens, pois na voragem foram eirôs, pinhais e bacelinhos. O canastro vigilante — andor! — também se foi. Trovas de uma história — tanto lastro!
In A Noiva das Astúrias, capa e vinte e oito desenhos de Carlos Ferreiro, &etc., Agosto de 2001, p. 45.
Eduardo Guerra Carneiro está representado em diversas antologias. Traduziu para português o romance de Edgar Allan Poe Aventuras de Arthur Gordon Pym. Suicidou-se numa madrugada de 2004, no Bairro Alto, onde então residia.
É preciso crear abysmos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar nelles para sempre. Crear todos os prazeres, os mais artificiaes possivel, os mais estupidos possivel, para que a chamma attraia e queime. O problema da sobrepovoação, o problema da sobreproducção eliminam-se creando-se focos de eliminação humana (por meio de todos os vicios), creando focos de inercia humana (por meio de todas as seducções). Fazer suicidas, eis a grande solução sociologica. É facil ouvir de qualquer megera limpa que "não crê na Lei de Christo", é animal-a em seguir a não-lei de Christo. Em trez annos está gasta e finda, e então descobre que o peor de não seguir a lei de Christo é que os outros a não seguem tambem. E o caixote do lixo recebe-a como ás theorias dos mestres a quem ella ensinou. É nosso dever de sociologos untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nelle os que dançam. E communistas, batonnières dos beiços, humanitarios, cultos do internacionalismo - tudo isso collabora ardentemente na eliminação d'elles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das provincias, onde tomam chá com a familia, ou lavram as terras sem theorias nem desejos, os fortes surgem e a civilização continúa. Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um individuo.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira. Texto: Álvaro de Campos.
Nos contos estúpidos da minha infância, aparecia frequentemente, por exemplo, a personagem do «vagabundo» ou do «rapaz pobre» que entra ao serviço do rei para conquistar a mão da princesa, e com prazer, porque o preço a pagar se resume apenas a sete dias. «Mas, comigo, sete dias são sete anos!» - diz-lhe o rei; pois bem, posso dizer a mesma coisa do campo de concentração. Nunca teria imaginado, por exemplo, que me transformaria tão depressa num velho engelhado. Na nossa terra, é preciso tempo, cinquenta ou sessenta anos, pelo menos; no campo, bastaram três meses para que o corpo me traísse. Posso garantir que não há nada mais penoso, que mais desanime, do que verificar, e assistir, dia após dia, ao que morre em nós.
Andar no desconforto de um mendigo, Quebrada a energia, esfarrapado o alento, E achar a cada passo e em cada movimento Um travo de miséria em tudo que palpita É ter dentro do peito a triste convicção De que o mundo é uma lágrima infinita!
O erotismo é o elemento mais evidente nos Desenhos Secretos de S. M. Eisenstein, mas por detrás desse erotismo parece esconder-se uma outra dimensão: o poder. Também a obra cinematográfica do cineasta russo vive destes jogos de sombras, provavelmente respigados no gosto pela cultura japonesa e fortemente influenciados pelas condicionantes políticas da época. Neste livro, publicado pela Quetzal em Setembro de 2003, recentemente adquirido ao preço de 5€ numa feira do livro, Jean-Claude Marcadé e Galia Ackerman apresentam-nos um Eisenstein muito mais humano do que aquele que os críticos de cinema geralmente endeusam. Nascido em Riga, a 23 de Janeiro de 1898, no seio de uma família burguesa desavinda, Eisenstein fez a sua formação em conformidade com as conveniências. Já na idade adulta, vemo-lo a curvar-se perante o poder em diversas ocasiões. À elasticidade do espírito parece corresponder uma elasticidade nas acções que obriga a certos esforços de compreensão, sobretudo se tivermos em conta o inventário de grandes almas intransigentes que acabaram fuziladas ou suicidadas pelas máquinas dos regimes tirânicos. Parece haver na vida de S. M. Eisenstein, como provavelmente haverá na vida de todos nós, mais ou menos vincadamente e salvaguardadas as (des)proporções do génio, uma simulação constante da verdade. A forma como procurou ludibriar a sua evidente condição homossexual é um bom exemplo, mas também os jogos de cintura que foi tentando manter com o poder político em favor de uma intenção criadora naturalmente megalómana. Digo naturalmente porque outra coisa não se exige aos génios. Ora, tudo isto me leva a pensar na utilidade do desequilíbrio. Muitos dos planos nos filmes de Eisenstein cativam-nos precisamente por esse desequilíbrio nas formas que transformam meros rostos humanos em hiperbólicas figurações da humanidade. É como se os olhos do criador, neste caso, amplificassem a realidade, lhe dessem bastante zoom, a ponto de tornarem absolutamente credível a face grotesca da verdade. Se repararmos, outra coisa não fizeram os grandes artistas. As suas criações tornam evidentes os podres, as rupturas, as fissuras, os traumas de um corpo, trazem à superfície de um rosto a matéria recalcada do inconsciente, revelam, dão a ver a matéria excrementícia sobre o que tudo cresce. Neste sentido, os desenhos de S. M. Eisenstein, até pelo carácter automático da sua produção, exprimem de um modo transparente a complexidade de um ser em estado de assumida expurgação (podia ter dito confissão, mas não o quis fazer para evitar equívocos de carácter religioso). O que os desenhos têm de grotesco e de surreal é bastante real, o que denotam de mítico e de folclórico é profundamente verdadeiro, o que transmitem de erótico é claramente sacrificial. Amor e Morte, como sempre, numa conjugação libertadora da singularidade de um indivíduo. O poder, a tal dimensão outra escondida por detrás do erotismo, reside precisamente neste ponto onde confluem as forças originais para gerar algo não necessariamente novo, mas singular. Irónico, pois, que se fale de «impotência sexual» quando se especula sobre a vida íntima do realizador soviético. Eu não vejo senão uma incomensurável potência sexual nas suas criações, a potência de quem sabe jogar o xadrez da intimidade expondo obsessões, paixões, inclinações sem o temor dos castrados. Mesmo quando o tema é a ausência de sexo nas figuras angelicais, o que ali parece mostrar-se é a comédia grotesca de uma cultura alicerçada na vergonha de si própria. Porque outra coisa não nos é dado ver na chamada cultura judaico-cristã senão essa vergonha de andar com as partes baixas a descoberto que impele para a mentira e para a hipocrisia, com a aprovação cretina de todos, a maioria dos cidadãos governados e governáveis. Não admira, pois claro, que o homem se tivesse apaixonado pela «vida primitiva e sensual dos Índios» aquando da passagem pelo México. Eles eram desequilibrados, como desequilibrada era a sua alma. No fundo, ela era um deles. Só teve o azar de nascer na Letónia.
É uma melancolia para aqueles que caminham através desta grande cidade ou viajam pela província quando vêem as ruas, as estradas e as portas das carruagens apinhadas de mendigas, seguidas por três, quatro ou cinco crianças, todas em trapos e importunando os passageiros por uma esmola. Estas mães, ao invés de trabalharem para o seu honesto sustento, são forçadas a empregar todo o seu tempo a vaguear para mendigarem sustento para os seus indefesos meninos, que, à medida que crescem, ou se tornam ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país para lutar pelo Pretendente em Espanha, ou vendem-se para Barbados. Penso que é aceite por todos que este prodigioso número de crianças nos braços ou nas costas ou nos calcanhares de suas mães e, frequentemente, de seus pais, é, no presente estado deplorável do reino, um adicional vexame; e, por isso, quem quer que descubra um justo, barato e fácil método de tornar estas crianças membros sãos e úteis da comunidade não mereceria menos do público do que uma estátua erguida em sua homenagem, aclamando-o como benfeitor da nação.
Num estilo Conta-me Como Foi sem interlocutor à vista, um velho resolve debitar para o papel as suas memórias como se falasse para o filho ausente. O ambiente inicial, que nos transporta para um cenário onde a ficção se cruza com a realidade histórica, leva-nos a supor uma certa amargura no discurso do protagonista, uma decepção perante o rumo tomado pela História. Somos enviados para os tempos da implantação da República num cenário imperialista, ditatorial, que, na realidade, não anda longe da oligarquia em que vivemos actualmente. Entre a autocracia do antigo regime e a oligarquia actual há poucas diferenças: as prisões deixaram de ter grades e os inimigos deixaram de ter nomes.
É de Noite que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, Julho de 2011) foi escrito por David Soares a convite da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Ilustraram, de um modo pragmático, mas diversificado, conferindo assim ao texto uma dinâmica visual bastante agradável, os ilustradores Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara. O texto perde interesse quando procura ser pedagógico, mas logra uma dimensão poética ao libertar-se desse peso. E consegue transpor as limitações de uma prosa comemorativa ao enveredar por rumos heterodoxos onde a actualidade aparece por sugestão.
Por exemplo, os homens da república misturavam-se com o povo nos eléctricos. Mas isto foi antes de chegarem ao poder. Aquilo que era, ao mesmo tempo, um desejo de liberdade e um enorme desafio, transformou-se rapidamente num triunfo do autoritarismo e numa mera utopia. Um povo culto, exigência da República, não é, de todo, o que observamos passados todos estes anos. Os índices de analfabetismo foram diminuindo em proporção com a falta de civismo, deixando-nos num limbo sobre o que possa ser a educação das massas. De resto, este álbum tem o mérito de nos afundar numa nostalgia revolucionária que obriga a repensar o presente à luz das consecutivas desilusões históricas.
No final, o velho que acabámos de ouvir, como se fôssemos todos o filho que ele não leva pela mão como pela mão foi ele levado pelo seu pai, confessa: «É de noite que faço as perguntas. Apenas me esforço por esquecer as respostas antes que amanheça». Confessa-o com um gesto terrível, o de quem ateia memórias em busca de um esquecimento apaziguador. Porque, de facto, o presente torna-se difícil de suportar ao constatarmos que chegámos aqui por um caminho que era suposto levar-nos a um lugar totalmente diferente. Neste sentido, o eléctrico da capa, presente ao longo da narrativa, surge como uma complexa metáfora da passagem do tempo. É uma espécie de cápsula onde viajamos para rumos bem definidos. As linhas do eléctrico não permitem desvios. Será isto a História?
Pressentimo-lo hoje, de tão evidente se tornar a regressão a que nos vemos coagidos. Novamente começamos a julgar a educação inútil, porque entre ela e a necessidade básica de um trabalho gera-se um fosso enorme. A própria educação transformou-se num negócio onde apenas os números importam. Os ministérios são fábricas geridas por gestores exclusivamente preocupados com orçamentos, sem tempo para definirem rumos onde o conhecimento se torne substância fundamental de uma sociedade. Porque, pelos vistos, não é, já que uma licenciatura pode ser feita em meia dúzia de meses sem se pôr os pés na Universidade.
Resta-nos isto: a cultura é dispensável se não gerar públicos lucrativos, pois nada do que é exigente ao espírito alimenta estômagos obesos. Pum! E neste rodopio vamos incrementando o medo, salvaguardado pelo vazio e pela pobreza de uma semi-escravatura laboral que serve para engordar os cofres de uma dúzia e mantém pela trela milhares de famílias que se comportam como criancinhas paupérrimas perante os acenos do consumo. É de Noite que Faço as Perguntas tem, pois, esse enorme mérito de fazer pensar sobre o presente a partir do passado. Que não temamos as respostas ao amanhecer, continua a ser o meu desejo.
Milan Kundera, no seu livro A Lentidão, apresenta como sinal definitivo do sexo pseudo-voluptuoso asséptico e falso dos nossos dias o casal que finge fazer sexo anal junto de uma piscina de um hotel, à vista dos hóspedes dos quartos sobranceiros, simulando gritos de prazer, mas sem sequer consumar a penetração. E ele contrapõe a isto os jogos eróticos íntimos, prolongados e galantes, da França do século XVIII... Não terá sido algo semelhante o que aconteceu no Camboja, na época dos khmer vermelhos, quando, após terem morrido demasiadas pessoas na sequência de purgas e da fome, o regime, querendo aumentar a população, estabeleceu os dias 1, 10 e 20 de cada mês como dias de copulação? Nesses dias, os pares casados eram autorizados a dormir juntos (ao contrário do que sucedia nos restantes dias, em que dormiam em casernas separadas) e obrigados a fazer amor. O espaço privado de que dispunham era um pequeno cubículo isolado por uma cortina de bambu semitransparente; em frente da fila destes cubículos, rondavam guardas khmer vermelhos, controlando se os casais estavam efectivamente a copular. Uma vez que estes sabiam que não fazer amor seria considerado um acto de sabotagem severamente punido, e dado que, por outro lado, depois de uma jornada de trabalho de catorze horas, estavam normalmente demasiado cansados para fazer sexo, simulavam fazer amor para enganar os guardas: executavam movimentos sugestivos e emitiam sons fingidos... Isto é exactamente o contrário da experiência da juventude pré-permissiva de alguns de nós, quando tínhamos de nos esgueirar para o quarto com a parceira, ou o parceiro, e fazer as coisas o mais silenciosamente possível, para que os pais, se ainda estivessem acordados, não suspeitassem de que estava a haver sexo. E se este espectáculo para o olhar do Outro fizer parte do acto sexual? E se, uma vez que a relação sexual não existe, esta constituir apenas uma encenação para o olhar do Outro?
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Slavoj Žižek (num ensaio sobre Alfred Hitchcock)
Camarada Van Zeller, passou-me pela cabeça que se as pessoas pudessem alimentar-se do ar poderiam ser mais felizes... mas depois tossi. As pessoas fazem o ar que respiram. Jamais poderão ser felizes. Digo isto porque um homem nasce igual a todos os outros homens, excepto quando nasce com as funções vitais reduzidas. Também pode nascer deformado, sem uma perna ou com um olho a mais. Uma vez conheci um homem que tinha seis dedos e já fui para a cama com uma mulher com duas vaginas. Está tudo na nossa cabeça. Principalmente a quantidade de vaginas que uma mulher tem. Eu penso nas coisas e é como se elas ganhassem vida, penso que podíamos ser todos mais felizes nem que fosse por esse breve instante em que pensamos nestas coisas. Mas não. O mundo é um lugar sem mistério nem segredos, o homem é o único mistério do mundo. É ele quem complica. Complicar o mundo é reduzi-lo, descobri-lo é ampliá-lo. Como a maioria dos homens não se sente bem em espaços amplos, toca de complicá-lo. As pessoas apreciam o aconchego das teorias, gostam de sentar-se nelas a olhar umas para as outras, gostam de apontar o dedo enquanto fazem cócegas na cauda das teorias. Eu tenho esta teoria sobre as pessoas porque sou uma pessoa; porque, de vez em quando, também me sento a fazer cócegas na cauda de uma teoria. Mas se pudesse alimentar-me do ar talvez arrumasse as teorias todas dentro de um tupperware e as metesse no congelador. Penso nisto enquanto estou aqui fora a fazer um intervalo com um cigarro entre os dedos. De vez em quando, trago o cigarro à boca. Depois tusso. Complico. Acho que podia ser menos infeliz se deixasse de fumar, se levasse uma vida regrada, se acreditasse em Deus, se cortasse no café, se lesse menos livros deprimentes, um homem é claramente influenciado pelos livros que lê e pela música que ouve e eu só leio escritores neurasténicos e raramente ouço música ligeira. Como dizia, talvez a felicidade quisesse algo comigo se eu me orientasse na vida, se levasse o feng shui a sério, se não comesse gorduras nem doces, se fizesse uma dieta rigorosa e emagrecesse, pelo menos, 30 quilos, se não fosse para a cama com mulheres com duas vaginas, se não visse coisas onde elas não existem, se procurasse nos seres humanos apenas o que têm de bom e se apagasse da humanidade o que ela tem de mau, embora esteja convencido de que, fosse isso possível, a humanidade ficaria reduzida a mim próprio e pouco mais. Mas, na realidade, eu nem me julgo boa pessoa. Sou algo cobarde, um banana que podia estar a ganhar milhões com a sua história se perdesse as manias e começasse a escrever o Diário de Um Livreiro Banana. Tenho a certeza de que seria um sucesso, até porque hoje posso dar-me ao luxo de afirmar que conheço bem o tipo de leitor que alimenta o negócio dos livros em Portugal. É um luxo pobrezinho, reconheço, mas ainda assim devemos considerar um luxo todo o tipo de conhecimento, mesmo quando ele se revela trágico e doentio. As pessoas que compram livros em Portugal não são diferentes das que vêem televisão e das que vão aos concertos do Nel Monteiro. De resto, a mediocridade sempre foi a coisa mais bem distribuída do mundo. Discordo dos críticos do presente que se arrastam num passado inexistente. Hoje é tudo muito degradante, mas Sócrates, o filósofo, já se queixava do mesmo no tempo dele. O que nos leva a poder induzir, segundo a lógica de Hume, que no futuro haverá alguém a dizer muito mal do seu tempo elogiando este tempo que é agora o nosso. É possível até que daqui a uns 40 anos, se eu ainda estiver vivo, se tiver deixado de fumar, se for regularmente ao médico, se me aplicar na dieta rigorosa e se nunca mais for para a cama com uma mulher com duas vaginas, é possível, dizia, que eu próprio venha a dizer aos meus netos: no meu tempo é que era bom. Deus queira que eles nunca aprendam a ler, o que é bem provável tendo em conta o estado do ensino na actualidade e o rumo da educação neste país.