quarta-feira, 12 de setembro de 2012

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #66



Dou por findo o caderno, fecho a janela.

Pressinto a brisa esvaecendo na ponta dos dedos.

Não temo o esquecimento

tanto quanto me amedronta a indiferença,

mas é melhor assim.

Permito-me guardar num lugar indefinível do corpo

os cheiros, as sombras e, foda-se, o toque da pele.

Deixo rodar o mais recente trabalho de Andrew Bird, um músico de excelência que fez do violino o seu instrumento de eleição. Eu só invejo na vida os tipos com sentido de humor e os grandes instrumentistas. Quanto ao resto, a assobiar bato qualquer um. Mesmo quando as canções aromatizam o ar com a brisa marítima agora esvaecida. Break It Yourself (2012) é um conjunto de canções perfeitamente adequado ao momento: we keep breeding desperation / in this era of thieves. Bird recorre a artifícios simples para sobrepor malhas, misturar melodias, compor paisagens povoadas de elementos diversos que parecem ter todos a sua origem numa mesma fonte. E essa fonte é a da música folk que embarcou nas ilhas britânicas e aportou nas Américas para aí ganhar uma outra dimensão, reproduzindo a vastidão geográfica que a condição insular limitava. Give it Away, o quarto tema (se tivermos em conta que o segundo contabiliza uns escassos 45 segundos), é uma das melhores canções que pudemos ouvir este ano, alternando uma melodia sedutora com o tom jazzy que dá sentido às palavras e permitindo as palavras darem sentido à actualidade: your charts and graphs don’t mean a thing to me. Em breves momentos, os loops e o lirismo em registo pizzicato dão lugar a uma inesperada explosão de energia. É o caso do tema Eyeoneye, um hino às gerações perdidas do presente com um apaixonante estilo anos setenta: made yourself invulnerable / no one can break your heart / so you break it yourself. Digamos que se trata de sintetizar a modernidade em três simples versos. Os delays e os condimentos electrónicos fazem o efeito do sal e da pimenta num queijo fresco, dão-lhe sabor. Para mim é o álbum do ano. Não preciso d'outro.

Sem comentários: