quarta-feira, 26 de setembro de 2012

50 ANOS

 
Abrimos os compêndios da História em busca da verdade, mas os compêndios apenas revelam o que no tempo se repete. Nesses livros não vem a nossa história, única e singular como únicos e singulares são todos os seres à face da Terra. Esses livros não dizem que num certo lugar, pequeno como um grão de sal nas mãos do Universo, nasceram num dia de 1943 um menino e uma menina. E que nada da História dependeu deles, senão a nossa própria história. Afinal, tudo o que nos importa contar.
 
Ele tinha braços mais compridos do que as mangas, ninguém suspeitaria do vigor que crescia naquele porte franzino. Ela usava um laço no cabelo e olhava o vazio do presente com sonhos postos no futuro. Eram outros os tempos, os trajes, os sorrisos. Eram outras as vozes, ainda que por detrás delas fossem exactamente iguais os sentimentos.
 
Quis o destino que certo dia se cruzassem e no meio do deserto descobrissem, um no outro, o que a ambos faltava para que a sede fosse satisfeita. Olhemos para o chão que então se pisava. Entre o pó ou na lama, por certo encontraremos, ainda hoje, os fósseis dessa chama que os juntou. Um rádio sintonizado na canção perfeita, a campainha da bicicleta, as esquinas onde a mão dele podia tocar no ombro dela sem que mil demónios viessem à janela censurar-lhes a ousadia.
 
Ousados foram o menino e a menina de outrora, agora homem e mulher por desejo e convenção. Fez-se a boda com o que havia: matou-se o animal, serviu-se o vinho, tocou-se a concertina. Eles com eles, elas como elas, porque naquele tempo as mulheres serviam e os homens eram servidos. Servidos pelo Senhor, diziam: aceito. E elas consentiam na prece de melhores dias. Há ali, porém, um sorriso. Ninguém diga que não.
 
Um sorriso crescendo no ventre da noiva, um som de esperança em tempos de angústia. De acidentes destes nascem as histórias, histórias como esta nossa história que não vem nos compêndios mas é, afinal, a única História que nos importa. Porque é nossa e gateia e põe-se de pé e caminha como gente grande, olhando em frente sem pudor do que ficou para trás.
 
Pudor tenhamos, não do que une os homens, mas daquilo que os separa: o medo, a guerra, a distância. Esse além-mar que roubou anos de vida e deu de comer, com fome, àqueles que ficaram prisioneiros da angústia. Homens mandados para guerras que não eram as suas, mulheres e filhos largados no desamparo da solidão. Como este homem, como esta mulher, como esta criança inda agora nascida e já tão cedo iniciada em coisas tão adultas como o nome da saudade.
 
É a vida como as terras, recompõe-se com as chuvas. Queira a sorte, sempre se regressa aonde de um dia se partiu. Outros filhos nascem, a eles daremos nomes de infantes e de rainhas. São a nossa fortuna. E com o metro que trazemos aos ombros para medir bainhas e cinturas, saberemos também tirar as medidas aos braços com os quais ergueremos os filhos à altura da liberdade. E diremos sim à família, à nossa, porque é essa a nossa história.
 
Já lá vai o ano que aqui nos trouxe. Das crianças outras crianças nasceram. Escusado será recordar os remendos com que disfarçámos trapos velhos. A semente que inda agora crescia no ventre da mãe, outras sementes lançará à Terra. E a história continua ao redor do mundo, numa viajem que não pára como jamais poderá parar a vontade de conhecer tudo aquilo de que fomos privados. Eu quero ver para lá do grão de sal onde nasci e quero sentir para lá de tudo o que senti, porque eu quero ser Eu e não outra coisa qualquer. Quero ser eu, mãe, contigo, filha, quero ser nós, mulher.
 
As filhas têm esse dom, transportam consigo uma espécie de abrigo a que chamamos, por defeito, espírito maternal. Sofrem o dobro dos homens pondo nesse sofrimento um sorriso de compaixão. Às vezes cantam, outras vezes choram, por vezes dançam, tantas vezes sonham. Com elas aprendemos a contemplar a eternidade num simples segundo. Porque as filhas, ao fim e ao cabo, quase sempre dão em mães. E quando não dão, é como se dessem.
 
Já nos filhos há uma espécie de investimento, são o elo de um nome, a continuação do apelido. Há quem espere deles tudo, há quem deles não espere nada. Há quem se limite a olhá-los como se nunca crescessem e sempre ali ficassem, indefesos e frágeis, na sua condição de filhos. Eles sabem disso quando se tornam pais e trazem ao colo a inocência que já tiveram e entretanto perderam. Serão sempre filhos, os filhos, como serão sempre pais, os pais.
 
Esta história é a história de um menino e de uma menina nascidos num lugar com o tamanho dum grão de sal. Tempero de vidas ligadas, como do tronco das árvores surgem os ramos e nos ramos rebenta a flor que dará frutos. Com o passar dos anos, os frutos geram sementes e dessas sementes novas árvores surgirão. São estes os elos que tudo ligam, no meio de tempestades ou sob temperaturas amenas. Aos pomares chamamos família, é preciso regá-los, tratá-los, celebrá-los. Porque nenhum fruto nasce isolado da raiz.
 
Este é, por ora, o fruto do nosso tempo. Porque o nosso tempo é este onde agora somos e não somente aquele onde um dia fomos. Deste tempo ainda não se fez História, mas esta é, afinal, a nossa história. A nossa história. Para nós, outra mais importante não há.

Sem comentários: